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'Há uma surdez para frases femininas', diz Alice Caymmi

Cantora se apresenta no SESC Bom Retiro neste sábado, 6, e promete "catarse eleitoral" para o público

5 out 2018
19h02
atualizado às 19h14
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Aos 28 anos, Alice Caymmi passa por uma fase de transformações internas, como artista e como mulher no cenário brasileiro. Essa mudança quase inevitável foi apresentada de forma geral ao público em janeiro, quando ela lançou seu terceiro disco de estúdio, 'Alice', que a catapultou para o status de artista pop: "Essa fase já se expandiu e virou outra coisa. Estou me envolvendo em processos de composições muito interessantes, com mulheres que precisam da minha escrita e da minha voz", ela conta, em entrevista ao Estado.

No álbum, a artista se uniu a nomes como o rapper Rincon Sapiência, em 'Inimigos'; Barbara Ohana, com quem dividiu a produção geral do trabalho; Ana Carolina, que a ajudou a compor o single 'Inocente'; e Pabllo Vittar, na bem sucedida 'Eu te avisei'. Foi com Pabllo que Alice, em suas próprias palavras, conseguiu 'furar a bolha' da indústria fonográfica e assinar seu primeiro crédito de composição fora da própria discografia. Em 'Problema seu', carro-chefe de divulgação do álbum 'Não para não', ela divide a autoria com Pablo Bispo, Noize Men, Arthur Marques, Maffalda e Rodrigo Gorky.

Alice Caymmi é neta de Dorival Caymmi, e filha de Danilo e Simone Caymmi
Alice Caymmi é neta de Dorival Caymmi, e filha de Danilo e Simone Caymmi
Foto: AGNews / PurePeople

"Consegui furar essa bolha porque estou com as amigas. A gente se dá as mãos e fala, 'Vamos juntas sobreviver a isso'", ela conta, citando a colaboração criativa com dois dos principais produtores de pop atuais, Gorky e Marques, como decisivas para que fosse respeitada no mercado. Hoje, ela já tem músicas escritas para Luísa Sonza e um material inédito que compôs para Cleo, com quem dividiu os vocais em um remix de 'Sozinha', também de seu terceiro disco: "Não precisa ser a minha cara sempre. Tem certas coisas que eu quero dizer que cabem direitinho na boca da Luísa ou da Pabllo. Por exemplo, a Alice Caymmi jamais diria 'Se você gosta de mim, problema seu'. Mas escrever isso e saber que vai sair da boca daquela pessoa iluminada é muito legal".

O mergulho criativo em parcerias femininas, ela explica, foi proposital: "Não é consciente no sentido de 'estratégia de marketing', mas no sentido de 'Chega'. Ainda há uma surdez para as frases femininas. Eu não tenho mais a menor paciência para tratamentos machistas e já reparei que as meninas, no geral, estão perdendo a tolerância com isso. Não tenho mais saco para contratar determinado tipo de homem e, se você não entendeu ainda que o tempo dessas coisas acabou, é porque está atrasado".

As 'coisas' às quais ela se refere são repetidas tentativas de silenciar e desvalorizar seu talento como cantora e como compositora, praticadas por homens de vários níveis da indústria fonográfica. "Nós não temos mais que tolerar esse tratamento caladas", ela explica, acrescentando: "Tenho que lidar diariamente com gente que me interrompe e não me ouve. A tentativa de diminuir a mulher é geral e não acaba nunca".

Seu próximo projeto, por sinal, é 'Bonita', uma música exatamente sobre empoderamento feminino, escrita por Aguinaldo Silva, que a convidou para dividir os vocais da faixa com o trio Donas. A canção entrará na próxima novela do autor para a faixa das 6, 'O Sétimo Guardião', e deverá ser tema da personagem vivida por Bruna Linzmeyer. "É um tema em voga, mas achei a letra muito bacana, sobre beleza, autoestima e se manter focada no que interessa: seu poder, sua potência e sua força como mulher. A gente perde o fio da meada quando começamos a nos odiar", explica, citando que também tem uma participação especial no próximo projeto musical de Clarice Falcão, ainda sem previsão de estreia.

Neste sábado, 6, ela se apresenta com a turnê de 'Alice' no SESC Bom Retiro, às vésperas das eleições. Apesar da tensão, ela promete entregar uma 'catarse eleitoral' para os fãs que comparecerem ao show: "Ninguém mais tem paz de espírito. Nós temos ameaças maiores pela frente, então ou a gente faz junto, ou a gente faz junto. E essa é a nossa verdadeira primavera".

Estadão

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