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Luto: fashionistas comentam fim da publicação da 'Elle' no Brasil

Trinta anos depois de seu lançamento, editora Abril encerra atividades da revista no País

6 ago 2018
19h11
atualizado em 7/8/2018 às 12h35
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Foi um susto, tipo morte súbita, a notícia do fim da revista Elle pelo grupo Abril nesta segunda, 6, triste para a moda nacional. Num comunicado oficial em que deixou de nomear os títulos descontinuados para focar apenas nos que serão mantidos (Veja, Veja São Paulo, Exame e VIP, entre outros), a Abril confirmou o encerramento das atividades de suas demais publicações, entre elas Elle, Cosmopolitan e Boa Forma.

A primeira capa da 'Elle Brasil', em 1988, e a última, em 2018
A primeira capa da 'Elle Brasil', em 1988, e a última, em 2018
Foto: Divulgação/Elle / Estadão Conteúdo

"Fiquei passada! É muito triste, acho uma perda", lamenta a editora Regina Guerreiro, que foi diretora de redação da revista em meados dos anos 1990. "Estou chocado, nem sei o que dizer", diz o beauty-artist Daniel Hernandez, surpreendido com a notícia pela reportagem. "É uma grande perda para a cultura e a moda de nosso País", reforça Adriana Bozon, diretora criativa da Ellus. "Triste para todos os profissionais de imprensa", sintetiza Lenita Assef, que trabalhou na revista desde seu número zero e também foi diretora ali. "Estamos vendo o mercado se afogar, derreter. É muita gente boa que vai estar na rua, sem emprego."

Com 30 anos só no Brasil, a Elle é uma das mais relevantes publicações de moda do País. Pelas suas páginas passaram grandes modelos, nomes da fotografia, do jornalismo, do estilo e do mercado de moda como um todo. Seguida por mais de um milhão de pessoas no Instagram, vivia um ótimo momento editorial, usando a moda como instrumento para tratar de pautas importantes, como questões de sustentabilidade, representatividade racial e LGBT e plus size. "Uma pena que num momento tão bom isso tenha acontecido. Não é que a revista acabou porque estava ruim. Ela estava ótima!", afirma André Hidalgo, diretor da Casa de Criadores.

A seguir, as impressões e depoimentos destes e outros profissionais sobre o fim da publicação da Elle pela editora Abril, assim como considerações sobre o estado atual da moda, do jornalismo e do mercado editorial por um elenco de primeira linha, acompanhados por capas e imagens icônicas dos 30 anos da revista.

Lenita Assef, diretora de redação entre 2002 e 2013

"Trabalhei na Elle desde o número zero. Eu era editora de beleza. Fiquei muitos anos, passei pelo marketing, voltei para a redação e depois virei diretora. Foram onze anos! Pela situação não da revista, mas da empresa, é a crônica de uma morte anunciada. Quando a empresa não está bem, ela não vai segurar títulos que não são dela. Ficaram Veja, Exame e Claudia, que são títulos da Abril. Não esperava que isso fosse acontecer agora porque a revista estava num novo caminho, de dar força para a mulher e para a diversidade, principalmente. Para o mercado de moda é uma tristeza infinita. Primeiro porque ele não está bem e uma revista é sempre uma força. É uma vitrine a menos para se expor, para se reerguer. A internet não tem o mesmo padrão de uma revista, é uma coisa mais superficial, mais 'pum-pah'. A Elle faz um trabalho que a internet não faz. É triste para todos os profissionais de imprensa. Estamos vendo o mercado se afogar, derreter. É muita gente boa que vai estar na rua, sem emprego. Estou triste. Muito!"

Lu Curtis, top capa de várias edições da Elle

"Fiquei chocada [com a notícia do fim da revista]. A Elle é uma revista que estava fazendo as melhores matérias, tocando assuntos importantes, como sustentabilidade, inclusão, é uma perda enorme... Comecei minha carreira com a Elle. Um dos trabalhos de que lembro com mais carinho é meu primeiro, aos 15 anos, uma capa feita em Ubatuba, com fotos da Nana Moraes e moda do Paulo Martinez. Nunca imaginei que aos 15 anos eu ia ser capa da Elle - nem com mais [anos] eu achava. (risos) Lembro de dias e dias de fotos no Estúdio Abril trabalhando. Foi a revista com que mais trabalhei no País. Hoje em dia acompanho como leitora e adoro a revista. É inacreditável [essa notícia]."

Regina Guerreiro, diretora de redação da revista de 1993 a 1997

"Fiquei passada, muito triste! A Susana [Barbosa, diretora de redação] está fazendo um trabalho bonito. É uma perda e não é só aqui que está acontecendo. É no mundo inteiro! Acho que a culpa de tudo isso, não só na Elle, mas na imprensa em geral, é dos diretores [das empresas] que não fizeram realmente nada para deixar que não acontecesse isso. A circulação começou a cair e começaram a encolher, a querer gastar menos, e perder mais.

Haveria, sim, um jeito sim de fazer um jornalismo impresso superinteressante e diferenciado do jornalismo digital. Infelizmente hoje tem um monte de gente que não é jornalista cagando regra, de 'fotógrafo' que não é fotógrafo... Nossa experiência foi deletada. Esse jornalismo acabou até nos jornais. Então faz [uma notícia assim] 'fulano de tal lançou tal coisa'. Precisa ter uma pesquisa. Quem é o fulano? Por que vai vingar? Isso vai de encontro ao desejo da maioria? Acho péssimo o jornalismo de moda de hoje. É muito ruim, pobre de informação, não tem anzol. Sempre ensinei para quem trabalhou comigo: a gente tem que agarrar na primeira frase.

Foi uma época muito feliz da minha vida a que tive na revista. Fiz uma Elle revolucionária. Acho que consegui, modéstia à parte, atingir minhas leitoras com meu jeito de escrever que é quase um diálogo e uma mudança grande no estilo de imagem."

Paulo Martinez, stylist, foi produtor e editor de moda da revista nos anos 90

"É uma tristeza muito grande. Uma tristeza e uma tragédia nesse país que a gente não sabe... A Elle foi tão importante na minha vida profissional... Quando a Regina [Guerreiro] chegou para ser editora, ela inventou uma seção que chamava Ideia Fixa. Todo mês ela selecionava uma peça e a gente fazia de seis a oito páginas dessa mesma peça usada de diferentes maneiras. Era um exercício de styling delicioso. Hoje, com o advento da internet, as revistas ficaram com o conteúdo um pouco obsoleto. Acho que o mercado destas revistas mensais, precisa se adaptar para que elas fiquem mais especiais. Talvez elas não devam mais ser mensais para a gente poder colecionar essas revistas…"

Adriana Bozon, diretora criativa da Ellus

"É uma grande perda principalmente para a cultura e a moda de nosso País. A Elle trouxe uma nova linguagem para a moda e para suas leitoras, foi transgressora e à frente de seu tempo. Sempre tivemos uma grande afinidade como marca. A Ellus e a Elle conversavam muito entre si! Regina Guerreiro, Lenita Assef e Susana Barbosa [diretoras do título]: grandes mulheres com personalidade, que fizeram muito bem seu trabalho à frente da revista e que tornaram a moda algo mais interessante! Uma grande perda para nós! Triste."

Gui Paganini, fotógrafo e colaborador assíduo das páginas da Elle

"Recebi com muita tristeza a notícia. Acompanhei o lançamento em 1988, e colaborei muito. É como se algo dentro da gente tivesse morrido. Triste. Triste pelas pessoas que trabalhavam na revista e que faziam um excelente trabalho."

Tania Otranto, sócia da assessoria de imprensa Mkt Mix

"A Elle deixou sua marca. É uma revista que trazia a moda e algo mais. Se posicionava, falava com todos os tipos de mulheres. Fez história em seus quase 30 anos de publicação. Vai fazer muita falta."

Lily Sarti, estilista

"Acredito que a perda de um título de moda enfraquece toda a história da moda brasileira assim como enfraquece as bases da moda."

Flavia Lafer, editora de moda

"É com profunda tristeza que recebo essa notícia, mas já imaginava que isso ia acontecer. Paga-se muitos royalties para títulos internacionais. Esse modelo está um pouco ultrapassado. A Elle era a revista de moda mais lida do mercado. É o que eu sempre soube. É muito triste, mas estamos em uma época de mudanças de como iremos entender o jornalismo e a imagem de moda. É uma fase de transição, estamos mudando."

Daniel Hernandez, beauty-artist

"Estou chocado, nem sei o que dizer... Faço Elle desde que cheguei em São Paulo. Foi a primeira revista que me deu espaço. Acabei de fazer a capa da Isabelli de cabelo curto... Ela estava num caminho excelente. Encontraram uma maneira de mostrar a moda de um jeito jornalístico, levantando assuntos do momento e interpretando isso como moda. É muito muito triste. Muito! Até os concorrentes devem ter assustado. Ninguém queria isso."

André Hidalgo, diretor da Casa de Criadores

"É um momento muito triste para a moda brasileira de maneira geral. É uma tristeza ver um título tão importante, que estava simplesmente no seu melhor momento, com uma postura muito bacana com relação a essas novas pautas da moda, ser encerrado. A [diretora de redação] Susana Barbosa é uma guerreira, uma mulher maravilhosa, extremamente inteligente. É mérito dela ter levado a revista para esse lado. O que acho uma pena é que num momento tão bom, isso tenha acontecido por uma coisa externa, que é a crise da própria Abril. Não é que a revista acabou porque estava ruim. Ela estava ótima! A Elle conseguia falar de feminismo, de raça e da questão LGBT de uma maneira muito suave, usando a moda de uma maneira positiva. Vai deixar muitos órfãos. Perde todo mundo. É um momento importante para as pessoas que amam fazer moda no Brasil se unirem para fortalecer o mercado como um todo: os eventos, os estilistas, as marcas, a imprensa. Meu Deus, o que seria de um evento, de um estilista, ainda mais os novos no nosso caso, se não houvesse a imprensa acompanhando, apostando?"

Camila Coutinho, blogueira, escreveu no seu site, o Garotas Estúpidas

"Sempre amei ler e me inspirar em revistas como essas, saí nas capas de várias delas, tenho amigos talentosíssimos que estão nessas redações, por isso sinto realmente um aperto no coração com essa notícia. É muito difícil mesmo manter o interesse no impresso quando está tudo aí livremente publicado no Instagram, Youtube e sites de notícias a qualquer hora - e a apenas um clique de distância, de graça.

Na minha opinião, realmente não tem mais espaço para tantos veículos impressos, e a melhor saída para sobreviver no cenário atual é investir no branding em cima do nome da revista com produtos offline, eventos, de forma que o título seja o que mantém o fascínio por uma marca, mas não necessariamente sua principal fonte. Há outros caminhos a serem explorados também, como fizeram a Capricho e a Teen Vogue, que deixaram de ter sua versão impressa para focar em edições digitais, evitando assim o fim completo de marcas tão fortes.

Todo mundo passa por reformulações - os blogs também! - e a gente tem que estar aberto às mudanças. Notícias como essa da editora Abril só mostram o quanto é preciso valorizar também o mercado digital - cobrar os preços certos, ter direito de imagem, de criação, dar valor aos profissionais… Na prática, o mercado ainda tende a valorizar mais o impresso (por ser mais palpável, por seu prestígio tradicional…) do que o digital, mesmo sendo possível atingir muito mais gente com a internet. Tem muita mão de obra boa por aí, e o mercado também tem que perceber que aquela que é feita para a internet também tem muito valor, é preciso fortalecer essa plataforma como negócio. A verdade é que o conteúdo nunca morre, as pessoas vão querer consumir informação sempre, mas para ter isso com qualidade é preciso um mercado forte, sem medo de ser criativo e de apostar em novos modelos."

Estadão Conteúdo

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