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Cardin morre aos 98: "Ser diferente é a única forma de durar"

29 dez 2020
11h50
atualizado às 14h47
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O estilista Pierre Cardin, nascido na Itália, como Pietro Cardino, em 2 de julho de 1922, vivendo na França desde os 2 anos, morreu nesta terça-feira (29), aos 98 anos, de causas ainda não reveladas, no hospital de Neully, a Oeste de Paris. O criador, que tem sua grife ligada aos looks associados à Era Espacial dos anos 1960, nunca vendeu seu nome nem sua marca e sempre esteve à frente de seu tempo e de sua empresa.

Pierre Cardin (Foto: Reprodução/Instagram/pierrecardinofficiel)
Pierre Cardin (Foto: Reprodução/Instagram/pierrecardinofficiel)
Foto: Elas no Tapete Vermelho

"Pierre Cardin foi um revolucionário. Um dos estetas da moda dos anos 1960. Criou, juntamente com André Courrèges e Paco Rabanne, a linguagem de futuro seguindo o ar dos tempos daquela época", afirmou João Braga, historiador e professor de moda. Segundo ele, era um revolucionário em relação à tecnologia, formas e volumes em suas criações. O professor lembrou que no anos 1960, Pierre fotografou um editorial de moda em Brasília, a cidade mais moderna do mundo naquela época, criando uma relação com as formas de Niemeyer.

Cardin sempre se manteve fiel ao seu estilo, que remete aos anos 1960. Em entrevista concedida em 2011 (veja abaixo), durante visita ao Brasil, para a exposição "Pierre Cardin - Criando Moda, Revolucionando Costumes", disse que nunca havia experimentando o fracasso. "Meu prazer é trabalhar. Não tiro férias", afirmou. O instagram oficial dele publicou uma frase do estilista, que resume bem seu estilo: "Sempre trabalhei no meu estilo, que é diferente de todos os outros. Sempre foi minha intenção ser diferente, porque essa é a única forma de durar."

Antenado com o que o momento da moda sempre buscou, realizou em 1959 um desfile de roupas prêt-à-porter, o que lhe valeu a expulsão da Câmara Francesa de Alta-Costura, afinal tal evento ainda era impensável naquela época. O tempo mostrou que ele estava mais do que certo. Cardin também foi um dos precursores em franquiar seu nome em vários produtos. Calcula-se que atualmente possui 800 licenças em 140 países. E também em mudar a moda masculina. "Colocou zíperes em casacos, acrescentou cores mais intensas, por exemplo", lembrou João Braga.

O nome Pierre Cardin nunca esteve associado ao universo do luxo, mas sempre foi bem-sucedido como empresário. "Esteve mais ligado ao universo das artes", acrescentou o historiador. Cardin iniciou sua carreira trabalhando com nomes como Madame Paquin, Elsa Schiaparelli e Christian Dior. Criou sua própria marca em 1950, ou seja, há 70 anos. Também foi dono de restaurantes, como o Maxim´s, em Paris, e sempre apoiou a ciência, patrocinando inclusive, explorações arqueológicas.

Relembre a entrevista que Pierre Cardin concedeu em abril de 2011, da qual esta jornalista participou.

Trabalho
"Amo trabalhar. Comecei aos 17 anos na Cruz Vermelha, quando comandava mais de 1,5 mil pessoas. Lá aprendi a gerenciar pessoas. Fui ator, bailarino, asssistente de Christian Dior, arquiteto. Fui embaixador da Unesco após o acidente nuclear em Chernobil. Tenho teatros, restaurantes. E agora vou construir um prédio supermoderno em Veneza. Meu maior prazer é trabalhar. Não tiro férias. Nunca pratiquei esporte algum. Apenas trabalho. E tomo conta de todos meus empreendimentos. Sou 100% dono de minha marca".

Licenciamentos
"Me criticaram muito quando comecei com o prêt-à-porter e deixei a alta-costura, para a qual voltei depois. Quando comecei a dar meu nome a todos os tipos de produtos - chocolate, água, champanhe, hotel, sardinha. Mas eu não queria criar apenas uma grife, que em francês significa arranhão, mas uma marca. E consegui. Se ficasse apenas na alta-costura, hoje não existiria. Sobrevivi por causa dos licenciamentos e do prêt-à-porter. E hoje me orgulho de ser o mais velho costureiro em atividade da França. E dono da minha marca. Tudo o que fiz teve sucesso. Nuca experimentei o fracasso".

"Quando morrer, não tenho como saber o que vão fazer, mas, com certeza, não vão criar as mesmas coisas que eu, porque cada um tem um estilo, seu próprio estilo."

Sucessão
"Não me preocupo com isso. Tenho uma equipe que trabalha comigo há 40, 50 anos. Quando morrer, não tenho como saber o que vão fazer, mas, com certeza, não vão criar as mesmas coisas que eu, porque cada um tem um estilo, seu próprio estilo. Não se pode fazer o que já foi feito. É preciso criar coisas novas. Sim, estou à venda, se alguém pagar o que vale minha empresa (disse em tom de brincadeira). Hoje o mundo tem quase 7 bilhões de pessoas e, se cada um der um franco (anterior moeda francesa), pode ser esse o valor de minha empresa, não sei".

Mulher brasileira
"Ouço falar da mulher brasileira desde que trabalhava com Christian Dior nos anos 40 e 50. Estavam entre as mais bonitas do mundo. E hoje as modelos brasileiras também são consideradas as mais bonitas. Com as várias origens que imigraram para cá, há um pouco de todas as raças. Hoje o Brasil criou uma nova raça de pessoas, lindas, com muitas influências".

Elegância
"A elegância é uma coisa que vem de dentro. Podemos saber se uma pessoa é rica ou pobre pelo tipo de roupa que usa, mas a elegância não depende disso. Depende de como a pessoa é. Uma rainha pode ser deselegante e um doméstica, superlegante".

Moda
"Imagine um corpo nu no deserto. Você não sabe como é aquela pessoa, como é seu caráter. Mas, se ela veste algo, dá para saber seu estilo, sua personalidade, seu grupo social, sua nacionalidade, sua sofisticação ou não. Há duas coisas muito importantes no mundo: comer e vestir-se. A moda é necessária. Além disso, emprega milhões de pessoas no mundo".

Jovens
"Hoje há muitos jovens talentosos e de vanguarda no mundo, mas muitos pertencem a uma elite. Talvez existam até mais do que no meu tempo. E, agora, há muito mais possibilidade de criar e de conhecer as coisas, com a TV, internet etc. E para os jovens que começam na moda, meu conselho é: trabalhem muito. Esse é o segredo. E criem seu estilo. Se você tem um estilo e é copiado ou reconhecido por esse estilo, ótimo. Não copiem. Visitem museus, estudem para saber o que ainda não foi feito. E façam o novo, como eu fiz e continuo fazendo".

"Para os jovens que começam na moda, meu conselho é: trabalhem muito. Esse é o segredo. E criem seu estilo. Se você tem um estilo e é copiado ou reconhecido por esse estilo, ótimo. Não copiem."

Viagem
"Viajo muito, mas não por lazer. Não vou a bares ou coisas assim. Viajo para conhecer a cultura, o povo e a forma de viver daquele país. Esse é meu aprendizado. Observo tudo. Conheço muito países e fui dezenas de vezes a vários deles. Já vim ao Brasil umas 12 ou 15 vezes. Conheço as coisas daqui. Até trabalhei num filme de Caca Diegues, Joana Francesa, de 1973″.

Guerra
"Passei por uma guerra, quando tinha de comer apenas um pedaço de pão por dia. Isso formou minha personalidade, minha vontade de trabalhar e vencer. E sei dar valor às coisas. Numa guerra, um frasco de perfume vale nada frente a uma lata de sardinha ou um pedaço de pão. Por isso, sei dar valor aos produtos que tenho e licencio. Há 10 anos, comprei uma fonte de água em Florença, cuja água hoje é usada em hospitais e vendida em farmácias".

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