Grupo de SP ajuda homens agressores a parar de bater; conheça

Coordenador de encontros para agressores diz que sentimento de ameaça e dificuldade de expressão são causas para violência contra mulher

26 jun 2013
10h45
atualizado às 12h06
  • separator
  • 0
  • comentários

Nas duas últimas semanas, a cena da chef inglesa Nigella Lawson sendo “sufocada” pelas mãos do marido em um restaurante londrino viraram notícia. No sábado, o cantor Chris Brown – em condicional por espancar a ex Rihanna em 2009 - voltou ao noticiário por uma suposta agressão à desconhecida em uma boate. As famosas fazem parte de um grupo de 30% das mulheres de todo o mundo que sofrem agressões do parceiro, segundo estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS). O motivo? “Restituir o poder que foi perdido”, disse o psicólogo Tales Furtado Mistura.

<p>A chef Nigella Lawson foi vista em restaurante londrino sendo agredida pelo marido Charles Saatchi</p>
A chef Nigella Lawson foi vista em restaurante londrino sendo agredida pelo marido Charles Saatchi
Foto: Thaís Sabino / Terra

Eles têm características machistas, dominantes, dificuldade em expressar os sentimentos e recorrem a um “método primitivo” para tal: a violência. “Ele se sente ameaçado em alguma instância, seja porque a mulher o questionou, começou a ganhar mais do que ele ou ficou desempregado, é uma forma de restituir o poder que foi tomado”, explicou Mistura sobre o perfil dos homens recebidos às segundas-feiras para um encontro reflexivo, organizado pela ONG Coletivo Feminista, na zona oeste de São Paulo, da qual ele é coordenador.

Em 2009, Rihanna apanhou do ex-parceiro Chris Brown. Ele tatuou o rosto deformado dela no pescoço após o ocorrido
Em 2009, Rihanna apanhou do ex-parceiro Chris Brown. Ele tatuou o rosto deformado dela no pescoço após o ocorrido
Foto: Reprodução / Getty Images

Assim como elas necessitam de apoio para deixarem de apanhar, eles precisam para parar de bater. É esse o objetivo de um grupo criado em 1998, que já atendeu 152 homens denunciados por agressão à mulher. Os participantes são encaminhados pelo Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra Mulher da Barra Funda e obrigados a participar de 16 encontros de duas horas. Se reincidirem, é cadeia, explicou o filósofo e coordenador do programa Sérgio Barbosa. Nos encontros, são trabalhadas questões de gênero, comportamento e valores machistas.

“Grande parte desses homens não sabe falar a não ser pela violência e acreditam ser uma forma natural de tratar as mulheres. Nossa proposta é uma metodologia de desconstrução desse modelo de masculinidade”, detalhou Barbosa. Segundo ele, os homens chegam à primeira sessão como “cachorros acuados”, 100% com um machismo radical e fechados. O panorama muda ao longo da conversa, quando eles começam a falar. O assunto, é claro, são as mulheres: “Aqui é um espaço em que o homem vai soltar os cachorros e isso será trabalhado”, disse Barbosa.

A culpa é dela
“Ela jogou o cinzeiro na minha cabeça. Ela pegou a peixeira.” “Ela está errada.” “Ela mereceu.” “Ela me provocou, foi ela que começou.” “É aquela catarse, eles xingam, falam mal da companheira, as culpam e se desresponsabilizam”, descreveu Mistura sobre o ambiente dos primeiros encontros. Muitos não enxergam a violência contra a mulher como errada e, quando entendem, pensam que a atitude foi merecida e que tinham o direito de bater. Por isso, o primeiro passo é “responsabilizar o homem pelo o que aconteceu”, afirmou Mistura.

<p>"É aquela catarse, eles xingam, falam mal da companheira, as culpam e se desresponsabilizam, descreveu Mistura sobre o ambiente dos primeiros encontros</p>
"É aquela catarse, eles xingam, falam mal da companheira, as culpam e se desresponsabilizam, descreveu Mistura sobre o ambiente dos primeiros encontros
Foto: Thaís Sabino / Terra

O psicólogo Leandro Feitosa Andrade, também coordenador do programa, explicou que os agressores precisam reaprender a serem homens. “Ele aprendeu o machismo, a ser como é. Nós colocamos questionamentos que mudam a concepção da violência à mulher”, afirmou. Nos encontros semanais, os agressores relatam experiências recentes relacionadas às mulheres e parceiras, e é com base nas histórias que os profissionais abordam a sexualidade, diferenças de gêneros e provocam uma reflexão. “Mesmo que a pessoa não fale nada, vai repensar o ato”, ressaltou Barbosa.

Cada sessão tem limite máximo de 15 homens, porém, a média é trabalhar com oito por encontro. São passados vídeos, filmes e discutidas notícias para embasar os temas. A maior parte do tempo, no entanto, é destinada aos relatos dos agressores. Não existe classe social, cor ou idade prevalecente quando o assunto é violência à mulher, disse Andrade. Eles já atenderam desde jovens de 18 anos a senhores de 70, que ganhavam desde um salário mínimo, até empresários de sucesso.

<p>H.L.P, 40 anos, foi acusado três vezes de agressão contra a mulher e completou a participação do quinto encontro na última segunda-feira (24)</p>
H.L.P, 40 anos, foi acusado três vezes de agressão contra a mulher e completou a participação do quinto encontro na última segunda-feira (24)
Foto: Thaís Sabino / Terra

Ciente de que “o tempo não volta” e em sua quinta sessão no grupo do Coletivo Feminista, H.L.P. já foi denunciado três vezes por agressão à mulher. Na última, chegou a ir para a cadeia e teve que pagar fiança. A condição para liberdade era frequentar o grupo e ele diz, com orgulho, que é um novo homem. “Ainda sou um pouco neurótico e intolerante, mas daqui para frente vou saber me controlar e me policiar”, contou.

A poucos minutos do início do encontro na última segunda-feira (24), ele contou na sala aconchegante da ONG que costumava tentar “corrigir” as pessoas e toda a história vivida ao lado da mulher, com quem voltou a morar após o ocorrido. “Tenho uma esposa que vou te contar, precisa ter muita paciência para conseguir lidar”, comentou. Entre as reclamações contra a mulher, ele a acusou de ser ambiciosa, ingrata, preguiçosa e fria: “é o tipo de pessoa que se vou fazer um carinho, diz ‘não gosto de homem pegajoso’”.

Ele ressaltou que ajuda nos serviços domésticos e como apoiou a mulher nos estudos: “movi muito mais do que uma palha para ela se formar em enfermagem”, disse. H.L.P, porém, evitou contar como foram os episódios de violência e creditou as brigas aos problemas financeiros. Ele contou ser uma pessoa menos briguenta após o trabalho com o grupo e que adquiriu a visão de direitos iguais entre os gêneros. No entanto, questionou: “você nunca viu mulher brigar por direitos iguais na idade para se aposentar, brigar com o homem pois quer matar a barata, ou para pagar o mesmo preço em um restaurante”.

O perdão e a reincidência
“Não existe amor e porrada, bater é por um sentimento de posse e de perda, não é por amor”, definiu Barbosa. No entanto, é comum a continuidade do relacionamento após episódios de agressão masculina, como aconteceu com H.L.P. A própria Maria da Penha – caso que deu origem à lei de mesmo nome de proteção à mulher em 2006 – foi agredida mais de uma vez até parar em uma cadeira de rodas. Rihanna retomou a relação com Chris Brown por um tempo após ser agredida e até mesmo Nigella não deu declarações públicas sobre o fim do casamento de 10 anos.

<p>Na imagem, Tales Furtado Mistura (à esq.), Sérgio Barbosa (centro) e Leandro Feitosa Andrade (dir.)</p>
Na imagem, Tales Furtado Mistura (à esq.), Sérgio Barbosa (centro) e Leandro Feitosa Andrade (dir.)
Foto: Thaís Sabino / Terra

Acreditar no arrependimento do homem é um risco de a violência se repetir, alertou Barbosa, pois o agressor precisa de ajuda psicológica. “A mulher não pode ajudá-lo, ninguém salva uma pessoa se está se afogando também”, acrescentou. Episódios de violência doméstica devem culminar na separação do casal. Foi a opção de E.N.T., 39 anos, que frequenta o grupo de reflexão para homens do Núcleo de Apoio à Mulher Vítima da Violência Doméstica e Familiar (NAMVID), em Natal. “Me separei e não quero mais conversa”, declarou.

“Antes eu tinha outro pensamento, hoje mudei, deixei de fazer as coisas sem pensar. Precisei levar muita pancada na vida para aprender”, disse E.N.T. Ele, que recebeu uma determinação da Justiça para frequentar os encontros, já compareceu a seis, obteve 80% de melhora no comportamento e pretende continuar a frequentar o grupo voluntariamente, afirmou. Cada participante pode compartilhar as histórias vividas nas reuniões, mas o foco principal é a ressocialização na família para que as agressões não se repitam, contou. “E não é só violência física, tem a verbal e a psicológica”, ressaltou.

Números da violência
O relatório da OMS, divulgado neste mês, mostrou que cerca de 35% das mulheres sofrem violência em casa ou fora dela, em algum momento da vida; e 38% das vítimas de homicídio foram mortas pelos parceiros. O Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking mundial dos países com mais crimes praticados contra as mulheres, segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça. A lei Maria da Penha, criada em 2006 no Brasil, penalizou a violência contra a mulher com confinamento, antes era permitido apenas pagar cesta básica à vítima, multas e fazer trabalho comunitário.

Na previsão de Barbosa, a notoriedade no campo profissional, independência financeira e ganho de espaço público das mulheres tendem a aumentar a violência masculina, pois os homens “se sentem acuados”. O acesso à informação ainda deve aumentar o número de notificações de casos, afirmou. “Não é que o homem está se tornando mais agressivo, isso sempre foi assim. Mas a crise da masculinidade fragiliza o homem que entendia a mulher como objeto e agora precisa renovar os próprios conceitos”, concluiu Barbosa.

Uma Central de Atendimento à Mulher, com funcionamento 24 horas de segunda a domingo, pode ser contatada pelo número 180. A ligação é gratuita.

Fonte: Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade