Tom Zé faz 90 anos: a trajetória do inventivo compositor e cantor baiano
Foto: Sérgio Savarese/Wikimedia Commons
O cantor e compositor Tom Zé completou 90 anos em 11 de outubro de 2026 com uma trajetória marcada pela originalidade e pela disposição de desafiar convenções musicais. Nascido Antônio José Santana Martins, em Irará, no interior da Bahia, ele construiu uma obra que combina referências da cultura popular brasileira, experimentação sonora e ironia. Integrante do Tropicalismo, movimento que marcou a música nacional na década de 1960, tornou-se um dos artistas mais inventivos de sua geração. Sua produção atravessou períodos de reconhecimento, dificuldades profissionais e redescoberta internacional. Mesmo aos 90 anos, continua criando e explorando novas possibilidades artísticas.
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A relação de Tom Zé com a música começou ainda na infância, quando ouvia Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, o samba de roda e os cantores que se destacavam no rádio. Em 1962, mudou-se para Salvador e ingressou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde estudou com professores ligados à vanguarda musical. Ele também participou do Grupo de Compositores da Bahia, aproximando-se de experiências que ultrapassavam os limites tradicionais da música popular. A formação acadêmica se tornaria uma das bases de sua linguagem artística singular.
Foto: Arquivo Pessoal
Na capital baiana, Tom Zé conheceu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, artistas com os quais participou de apresentações que ajudaram a preparar o terreno para o Tropicalismo. Em 1965, esteve no espetáculo “Arena Canta Bahia”, em São Paulo, mas voltou à Bahia para concluir os estudos. A mudança definitiva para a capital paulista ocorreu em 1968, ano decisivo para sua carreira. Ele venceu o 4º Festival de Música Popular Brasileira, da Record, com “São, São Paulo, Meu Amor”, composição que retratava a metrópole e suas contradições. Naquele mesmo ano, lançou “Grande Liquidação”, seu primeiro álbum, e participou do disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Circencis” (foto), com a canção “Parque Industrial”.
Foto: Divulgação
Tom Zé contribuiu para o Tropicalismo com uma abordagem própria, marcada pela irreverência, pela observação do cotidiano e pela desconstrução de estruturas musicais convencionais. Em vez de se limitar a melodias e arranjos tradicionais, passou a explorar ruídos, objetos e combinações sonoras pouco usuais. Essa inquietação aparece em “Todos os Olhos”, de 1973, álbum que ampliou sua pesquisa artística. O trabalho, porém, também contribuiu para distanciá-lo do mercado musical mais comercial, que encontrava dificuldades para enquadrar sua produção.
Foto: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons
Um dos discos mais importantes dessa fase foi “Estudando o Samba”, lançado em 1976. Nele, o compositor investigou as estruturas rítmicas e melódicas do gênero, desmontando elementos conhecidos para reconstruí-los de maneira experimental. Apesar da relevância artística, Tom Zé enfrentou um longo período de pouca visibilidade pública, especialmente durante as décadas de 1970 e 1980. Enquanto parte da indústria musical privilegiava formatos mais convencionais, ele continuou compondo, apresentando-se em universidades e desenvolvendo instrumentos próprios. Entre suas invenções está o buzinório, conjunto de buzinas transformado em recurso musical. A experimentação, que dificultou sua inserção comercial, acabaria se tornando uma das marcas mais reconhecidas de sua obra.
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A mudança começou no início dos anos 1990, quando o músico britânico David Byrne (foto), ex-integrante do Talking Heads, descobriu “Estudando o Samba” e se encantou com o trabalho do brasileiro. Por meio de seu selo Luaka Bop, Byrne lançou uma coletânea de Tom Zé no mercado internacional, abrindo caminho para uma nova etapa da carreira. O reconhecimento no exterior levou a apresentações e turnês e despertou novamente o interesse da crítica brasileira. Em 1998, o álbum “Com Defeito de Fabricação” reafirmou sua disposição para experimentar e dialogar com diferentes linguagens.
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Nos anos seguintes, Tom Zé manteve a produção ativa e aprofundou seu interesse por temas sociais, políticos e culturais. Em “Jogos de Armar”, de 2000, explorou novas formas de composição e deu destaque a recursos sonoros desenvolvidos ao longo de sua trajetória. Já “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012, retomou o movimento tropicalista sob uma perspectiva autoral, com participações de artistas de outras gerações. Em 2022, lançou “Língua Brasileira”, álbum que investiga a formação e as particularidades do idioma no país. A aproximação com músicos de diferentes idades e estilos demonstra a capacidade de sua obra de dialogar com novas gerações sem abandonar o espírito experimental que a caracteriza.
Foto: Eduardo Luderer/Flickr
Em 2022, Tom Zé ingressou na Academia Paulista de Letras, reconhecimento que ampliou sua presença institucional para além do universo musical. Em 2026, as comemorações de seu aniversário incluíram uma exposição dedicada à trajetória do artista na Caixa Cultural, em São Paulo, com experiências interativas e referências às suas invenções sonoras. O compositor também lançou, em agosto, “Futuro Fruto”, parceria com músicos de gerações mais jovens, reafirmando sua disposição para continuar criando. De Irará para o mundo, construiu uma carreira que desafia classificações e comprova que a experimentação pode ser, ao mesmo tempo, uma escolha estética e uma forma de compreender o Brasil.
Foto: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons
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Foto: Sérgio Savarese/Wikimedia Commons