Cientistas identificaram um novo mecanismo usado pelo HIV que permite ao vírus driblar a resposta imunológica. A descoberta ajuda a explicar por que é tão difícil desenvolver uma vacina eficaz contra a Aids.Esse achado representa a "peça final do quebra-cabeça" que tenta desvendar como o HIV engana os anticorpos que combatem infecções, embora esses anticorpos sejam produzidos em grande quantidade quando o vírus invade o organismo, afirmou o coordenador do estudo à Reuters Health.
"Virtualmente nenhum desses anticorpos produzidos neutraliza o vírus", disse Peter D. Kwong, pesquisador do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeccionas dos Estados Unidos, em Bethesda (Maryland).
Nos últimos anos, os cientistas avançaram muito na compreensão da capacidade do HIV de enganar as defesas do corpo. A grande questão, porém, era explicar por que os anticorpos não conseguiam neutralizar uma importante proteína da superfície do vírus, a gp120.
Essa proteína tem um papel fundamental: auxilia o HIV a penetrar nas células. A gp120 apresenta regiões de ligação muito grandes às quais os anticorpos acoplam, explicou Kwong. Por isso, a dúvida tem sido por que esses anticorpos -- produzidos pela resposta imunológica natural ou induzidos por uma vacina -- não neutralizam o HIV.
No estudo atual, publicado na edição de 12 de dezembro da revista Nature, a equipe de Kwong avaliou a interação entre a molécula gp120 e vários anticorpos. Os pesquisadores verificaram que uma "barreira energética" se instala em torno dos receptores presentes na gp120.
"A formação da barreira ocorre de forma muito específica para evitar a neutralização", disse Kwong.
O pesquisador explicou que os anticorpos do organismo ligam-se apenas um de cada vez aos receptores do gp120 situados na superfície do HIV. Já as células do sistema imunológico que o vírus infecta são dotadas de diversos pontos que se ligam simultaneamente aos receptores da proteína. Desse modo, parece que o vírus desenvolve uma barreira que impede a interação com os anticorpos, mas não com as células alvo.
Em função do papel que a gp120 desempenha na infecção pelo HIV, muitas vacinas experimentais tentaram gerar anticorpos que neutralizassem essa proteína. Esse estudo deveria estimular os esforços para refinar as vacinas produzidas para combater essa molécula, comentou Theodore Jardetzky, da Northwestern University, em Evanston (Illinois).
Kwong observou que atualmente os pesquisadores desenvolvem vacinas contra o HIV que atuam sobre outros componentes do sistema imunológico, e não apenas sobre os anticorpos.