Em um ano, mais de 10 por cento dos pacientes com HIV pulam doses de medicamentos, mudam a dosagem ou até param de tomar remédios devido aos efeitos colaterais do tratamento, de acordo com um novo estudo.A principal autora da pesquisa, Katherine Heath, do Centro de Excelência em HIV/Aids, em Vancouver, no Canadá, disse à Reuters Health que alterar a medicação sem consultar o médico é diferente de uma pausa supervisionada na terapia. Neste caso, os médicos podem monitorar os pacientes enquanto eles ficam livres das drogas e recomeçam o tratamento se necessário, explicou ela.
Por outro lado, os pacientes que mudam o tratamento por conta própria podem aumentar a capacidade do vírus de desenvolver resistência aos remédios, de acordo com Heath. É menos provável que o tratamento esporádico do vírus vá suprimir o microorganismo completamente, afirmou ela. E traços do vírus remanescente podem conter uma mutação que permite que ele se torne resistente ao tratamento.
Como os vírus que sofrem mutação não são destruídos por medicamentos, eles têm a chance de se multiplicar no corpo. Isso coloca os pacientes sob risco de ter em seu corpo vírus que não responde à terapia.
"Quando ele volta, volta forte", disse Heath. A falta de adesão ao tratamento prescrito pelo médico "pode fazer com que a pessoa fique com menos opções de terapia disponíveis", acrescentou a cientista.
Ela destacou que o número geral de pacientes que mudam o tratamento devido aos efeitos colaterais deve ser maior do que as estimativas do estudo. A pesquisa avaliou apenas quantos fizeram isso no ano anterior. "Aparentemente, durante muitos anos de terapia, a prática pode se tornar mais comum."
A equipe analisou pesquisas envolvendo 638 pacientes em 2001. As entrevistas continham perguntas sobre 42 efeitos colaterais diferentes da terapia de HIV/Aids, incluindo como eram os efeitos colaterais e o que o paciente e o médico faziam em resposta aos efeitos adversos.
De acordo com o estudo, 11 por cento das pessoas disseram que pularam uma dose, mudaram a dosagem ou pararam de tomar as drogas devido aos efeitos colaterais no ano anterior.
Aqueles mais propensos a alterar a medicação sem a aprovação do médico eram pacientes que achavam que estavam com pelo menos um efeito colateral grave do tratamento, informaram os cientistas em uma edição recente do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes.
As pessoas que não concluíram o ensino médio ou tinham níveis relativamente altos do vírus no sangue - um sinal de progressão da doença - também estavam mais inclinadas a tentar fazer uma pausa nas drogas, segundo a pesquisa.
Em entrevista à Reuters Health, a cientista afirmou que os médicos precisam conversar com os pacientes sobre como eles se sentem tomando os remédios. Até mesmo efeitos colaterais aparentemente inofensivos podem ser perigosos se o paciente odeia tanto um medicamento que pára de tomá-lo, alertou ela.
Em relação aos pacientes, Heath aconselhou que eles conversem com os médicos sobre suas queixas, dando aos profissionais de saúde a oportunidade de fazer alterações sem colocar em risco a saúde futura do paciente.