Explorador brasileiro percorre sozinho mais de 11 mil km para refazer jornada de Charles Darwin pela Patagônia
Marcio Pimenta enfrentou medo, solidão e uma imensidão de perguntas
Não há ninguém por perto. A estrada ficou para trás. Ao redor, apenas a imensidão da Patagônia, o vento batendo forte e uma paisagem que parece não ter fim. Não há uma casa no horizonte, uma voz, um carro passando. Não há sequer a certeza de onde encontrar água. Por alguns instantes, Marcio não consegue respirar. Resta uma opção: descer do carro e caminhar. Quanto mais alto sobe por uma montanha, mais a paisagem se abre. O vento toca o rosto. O chão volta a ser percebido sob os pés. O olhar percorre a imensidão. É quando aparece um guanaco encarando o Marcio como quem pergunta 'Quem é você?'. É a mesma pergunta que o homem fazia a si.
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A resposta não viria naquele instante. Nem naquela montanha. Na verdade, levaria anos para ser compreendida.
Aquele foi um dos momentos de maior vulnerabilidade de uma expedição de mais de 11 mil quilômetros pela Patagônia e pela Terra do Fogo. Marcio Pimenta havia partido sozinho para refazer parte dos caminhos percorridos por Charles Darwin quase dois séculos antes, a bordo do HMS Beagle. A missão começou como uma investigação sobre o jovem naturalista e terminou também como uma investigação sobre o próprio explorador.
"Eu não teria todas as respostas, mas teria que fazer o meu melhor", conta ao Terra.
A história de Marcio com as grandes expedições começou muito antes da Patagônia. Nascido no interior de São Paulo e criado em Salvador, na Bahia, ele teve os primeiros contatos com o universo da exploração pelas revistas e livros da National Geographic.
O caminho que seguiria, porém, parecia distante das grandes aventuras. Marcio tornou-se economista, fez mestrado e depois foi para o Chile, onde realizou outro mestrado e um doutorado. Até que decidiu abandonar aquela trajetória para se dedicar à exploração.
A primeira forma encontrada para fazer isso foi por meio da fotografia.
Como fotógrafo, viajou para documentar mudanças climáticas, a guerra no Iraque e conflitos regionais. Mais tarde, realizou uma série de expedições pela América do Sul para registrar as transformações provocadas pela ação humana nos biomas e nas paisagens, especialmente na busca por água, energia e alimentos.
Foi nesse caminho que começou a perceber que a fotografia, embora fundamental, não dava conta de tudo o que queria compreender. "Eu comecei a perceber que eu tinha algo maior a oferecer".
Esse percurso o levou à National Geographic Society, em 2022, e ao The Explorers Club, em Nova York. Foi também nesse momento que Charles Darwin apareceu de outra maneira.
A viagem de Darwin
Marcio não queria encontrar o Darwin que todos conhecem. Não estava interessado apenas no cientista de barba branca, associado à teoria da evolução e às imagens reproduzidas nos livros escolares. Queria voltar ao momento em que ele ainda não tinha as respostas.
"Eu queria conhecer não aquele Charles Darwin da ciência que a gente imagina, aquele velho sábio, barbudo, grisalho, com as respostas prontas. Mas eu queria aquele Darwin curioso, o Darwin jovem, o Darwin duvidoso".
Em vez de acompanhar apenas os passos de um cientista consagrado, Marcio passou a procurar os lugares que ajudaram a formar suas perguntas. Antes de ser o homem que publicaria A Origem das Espécies, Darwin era um jovem naturalista observando fósseis, animais, formações geológicas e povos que encontrava durante a viagem do Beagle.
"Então o que me interessava mais não era o Charles Darwin em si, mas em qual ambiente as ideias de Charles Darwin foram transformadas. E isso foi na Patagônia".
Quase dois séculos depois, Marcio voltou a esses lugares. E descobriu que, para entender uma paisagem, não basta apenas visitar.
Quando os lugares passam pela gente
Há uma diferença, para Marcio, entre ser turista e ser explorador.
Quando a gente é turista, a gente passa pelos lugares e, quando a gente é explorador, os lugares é que passam pela gente.
Darwin permaneceu durante anos na região. O tempo permitiu que aquilo que estava diante de seus olhos deixasse de ser apenas uma coleção de paisagens e começasse a participar da maneira como ele pensava.
"Quando a gente permanece muito tempo, essas paisagens mudam a gente também".
A viagem, então, deixa de ser só geográfica. "Ela se torna uma travessia geográfica, mas também uma travessia pessoal".
Durante grande parte dos mais de 11 mil quilômetros percorridos, Marcio esteve sozinho. Sem alguém para dividir uma descoberta, um medo ou uma decisão, ele precisou conviver consigo mesmo.
"A solidão é uma companheira implacável", diz. “Os primeiros minutos, os primeiros dias, as primeiras horas, a solidão é tédio. E depois ela nos faz olhar pelo espelho". A solidão trouxe dúvidas sobre a própria capacidade de cumprir a missão e sobre aquilo que seria capaz de oferecer.
"Quando você se descobre, é muito assustador".
Viagens que não se encerram
Quando finalmente concluiu a expedição, Marcio cumpriu a parte mais objetiva da missão: entregou os relatórios e o material fotográfico produzido ao longo da viagem. "A transformação da viagem é lenta. Você não chega exatamente com um novo olhar sobre as coisas, elas vão se acumulando aos poucos".
Foram necessários pelo menos dois anos para que ele entendesse o que aquela experiência havia provocado.
Foi quando percebeu que as fotografias não eram suficientes. A partir disso, com suas inúmeras anotações, decidiu elaborar o livro Encontrando Darwin.
"Somente entregar as fotografias era muito pouco. Eu tinha muito mais para dar. O que está escrito no livro não caberia numa imagem ou em várias imagens".
Uma das maiores descobertas de Marcio ao revisitar Darwin tenha sido justamente aquilo que o tornou humano: ele também estava errado. As anotações do naturalista foram posteriormente revisadas por ele mesmo. "Ele tinha direito a algo daquele tempo que era fantástico, que era o direito à dúvida".
"Hoje estamos muito cheios de certezas. Sabemos tudo, somos autoritários nas nossas ideias, a gente tem muita dificuldade em desenvolver empatia com o outro, em entender o ponto de vista do outro".
"Olha que coisa maravilhosa, enorme, que muda completamente a humanidade graças a um cara, jovem, cheio de dúvidas, que escreve essas dúvidas, publica essas dúvidas e depois ele refaz, ele tem o direito a repensar".
Para quem não pretende fazer uma viagem de descoberta e autodescoberta pela Patagônia, Marcio ensina "o olhar do explorador". O olhar começa com o tempo de permanência.
"É preciso se livrar de distrações para que você possa olhar si mesmo, em primeiro lugar. Em segundo lugar, para que você possa olhar também o outro. E compreender a paisagem e perceber que você não é nada. Tudo isso vai passar. Então, qual é a melhor forma de você passar por tudo isso?".