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McLaren: como Zak Brown está mudando a Fórmula 1

Um californiano de 49 anos está transformando a McLaren em nova potência e mostrando a importância de estar presente em várias categorias

20 jan 2021
13h57
atualizado em 22/1/2021 às 09h53
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Zak Brown e Fernando Alonso: de homem de marketing a chefão da McLaren.
Zak Brown e Fernando Alonso: de homem de marketing a chefão da McLaren.
Foto: McLaren / Divulgação

A notícia de que a McLaren assinou um compromisso de intenção com a Fórmula E, divulgada há pouco, não teve junto ao público a repercussão que merece um fato deste calibre. Mas é mais um passo na revolução que Zak Bown, o presidente (ou diretor executivo, como preferirem) da equipe inglesa vem implantando no automobilismo internacional.

Aos poucos, este ex-piloto norte-americano, que há décadas se divide entre Londres e Los Angeles, vem forçando mudanças significativas na cultura egocêntrica da Fórmula 1. Acostumada a olhar para as demais categorias e até mesmo a Copa do Mundo de cima para baixo, a elite do automobilismo europeu vem notando que, ao contrário do que sempre praticou, a presença de uma de suas escuderias em outras categorias proeminentes pode sim melhorar significativamente a relação custo/benefício de seus patrocinadores.

A primeira lição ele deu em 2017, o annus horribilis da história de uma escuderia notabilizada pelo seu histórico de domínio da F1. Foi quando mais do que permitiu, Zak Brown, ousadamente, organizou a primeira (e até hoje única bem-sucedida) aparição de seu piloto superstar Fernando Alonso nas 500 Milhas de Indianapolis.

Presença de Alonso nas 500 Milhas roubou a cena em Indianapolis.
Presença de Alonso nas 500 Milhas roubou a cena em Indianapolis.
Foto: McLaren / Divulgação

Naquele ano, a tradicionalíssima corrida, chamada lá pelos Estados Unidos de “Maior Corrida do Mundo”, ocorreria no mesmo fim de semana do Grande Prêmio de Mônaco – onde as perspectivas de Alonso seria largar, na melhor das hipóteses, entre os 15 primeiros. Dependendo de uma atuação perfeita e de eventuais abandonos à sua frente, chegar em 10º lugar ou coisa que o valha era o máximo que se poderia esperar de uma equipe que, depois de cinco corridas era a última colocada no campeonato. 

O acerto se comprovou já no seu primeiro treino, exibido em streaming. Foi no dia 3 de março, dia em que o site da Indy 500 registrou nada menos de 2 milhões de acessos para acompanhar um piloto dando voltas sozinho em uma pista vazia. Só aquele treino já seria suficiente para salvar o ano da Honda em termos de exposição de mídia – até lá, a performance decepcionante dos motores japoneses na Fórmula 1 relegava a equipe a um quase anonimato. A euforia prosseguiu nos treinos livres, no qualify (onde o espanhol obteve um honroso quinto lugar) e chegou ao auge durante as voltas que o espanhol liderou na “Maior Corrida do Mundo” antes de abandonar com problemas de motor.

Equipe McLaren de 2017: com mais resultados, Brown trocou Mônaco por Indianapolis.
Equipe McLaren de 2017: com mais resultados, Brown trocou Mônaco por Indianapolis.
Foto: McLaren / Divulgação

Não foi a primeira vez que pilotos vindos do automobilismo europeu brilharam em Indianapolis. Nos anos 60, Jim Clark e Graham Hill, ambos campeões da Fórmula 1, correram e venceram nas 500 Milhas, mas foram esforços isolados. Nos anos 90, outros pilotos migraram da F1 para os circuitos ovais, mas sempre com equipes dos Estados Unidos. Foi o caso de Emerson Fittipaldi, único ex-F1 a vencer duas vezes as 500 Milhas. O ítalo-americano Mario Andretti fez o percurso inverso: venceu as 500 Milhas em 1969, antes de se tornar campeão da F1, em 1978. 

Para Zak Brown foi o sinal de que devia ir além na Indy: se associou à equipe Schmidt-Peterson e, no ano passado, a novata Arrow McLaren, capitaneada pelo brasileiro Gil de Ferran, fechou sua primeira temporada com cinco aparições no pódio e uma pole position. Possibilitado pela troca de informações com o setor de Fórmula 1 da equipe, o resultado foi extremamente positivo para o patrocinador, a Arrow Technology, que também teve sua marca exposta nos carros com que Carlos Sainz e Lando Norris levaram a McLaren ao terceiro lugar no campeonato de construtores da Fórmula 1 de 2020.

Única escuderia presente nas duas principais categorias do automobilismo mundial, agora a equipe inglesa se aproxima da Fórmula E, que neste ano passa a ter status de campeonato mundial da FIA (Federação Internacional de Automobilismo). E se for necessário, Brown tem as ferramentas necessárias para levar a McLaren também para o WEC (Campeonato Mundial de Endurance). A equipe United Autosports, campeã da LMP2, pertence a ele e ao ex-piloto inglês Richard Dean, seu ex-adversário nas corridas de Fórmula Ford da Inglaterra em 1991, para onde se mudou depois de correr cinco anos de kart nos Estados Unidos. 

Sua carreira se estendeu à F3 inglesa e à F-Atlantic dos Estados Unidos antes de migrar para o ambiente menos profissional das corridas de Grã-Turismo. Foi nessa época que a árdua busca por quem patrocinasse suas proezas que lhe mostrou um outro caminho profissional e passou a se dedicar exclusivamente à JMI (Just Marketing International), que logo se tornou a maior empresa internacional de marketing dedicada aos esportes a motor. 

Carro da McLaren na Fórmula 1: vários patrocinadores e nenhum como principal.
Carro da McLaren na Fórmula 1: vários patrocinadores e nenhum como principal.
Foto: McLaren / Divulgação

Em 2013, a JMI foi comprada pela CSM, que manteve Brown como presidente. Logo, ele passou a ser reconhecido nos paddocks da Fórmula 1 como o guru dos patrocínios, o que lhe valeu o ingresso na McLaren, onde recebeu a missão de angariar um patrocinador máster.

Isso ele ainda não conseguiu, mas são inúmeras as marcas milionárias visíveis nos carros de Fórmula 1 da equipe. Alguns exemplos são a já citada Arrow Technology, a Coca-Cola, a petroleira Gulf, os exclusivíssimos relógios Richard Mille, computadores Dell e os cigarros eletrônicos Vuse, da poderosa RJ Reynolds Tobacco. 

A falta de um patrocinador principal, certamente, não chega a ser um pecado, principalmente depois de Zak Bown convencer a norte-americana MSP Sports Capital a adquirir 15% das ações da equipe em meados do último ano, uma negociação que chegará a 33% do total acionário em 2022, ao custo de 246 milhões de dólares.

Com essa verba, Brown pode dar asas à sua equipe, por si só uma seleção de grandes profissionais. O diretor técnico é o inglês James Key, tido como o mais provável sucessor de Adrian Newey como o engenheiro mais eficiente da Fórmula 1; o chefão da equipe é o alemão Andreas Seidl, que formou a estrutura com a qual a Porsche venceu três vezes as 24 Horas de Le Mans.

Com os cofres cheios, a McLaren vai dar um upgrade nos motores já neste ano, passando dos Renault para os Mercedes, mais eficientes e, também, mais caros. E seu piloto principal será o australiano Daniel Ricciardo, que Brown tirou da equipe oficial da Renault a peso de ouro para formar com o jovem e promissor Lando Norris a dupla mais carismática da F1.

A boa notícia é que, com a chegada da MSP Sports Capital, dinheiro não será mais problema. Isso porque os gastos com motores e salários de pilotos não se incluem no limite orçamentário de 145 milhões de dólares que vai vigorar neste ano e os cálculos primários indicam que, no fim das contas, as despesas devem se aproximar do dobro desse limite.

McLaren Arrow 2020.
McLaren Arrow 2020.
Foto: McLaren / Divulgação

A última vitória das 182 que a McLaren tem na Fórmula 1 foi no dia 25 de novembro de 2012. É um jejum longo demais para uma equipe que ainda é a segunda maior vencedora da categoria e a terceira maior campeã entre os construtores, com oito títulos – nenhum deles neste século. 

Por tudo isso, cada passo de Zak Brown é acompanhado com lupa pelas nove equipes adversárias. Elas sabem que a McLaren de 2021 tem meios para mudar os rumos de toda a Fórmula 1. O sentimento geral é que é preciso estar atento ao que faz esse californiano de 49 anos, capaz de transitar com desenvoltura pelas pistas e pelas grandes empresas dos Estados Unidos e da Europa.

Agora, por exemplo, ele virou seus olhos para a Fórmula E. Exatamente em um momento em que gigantes como a Audi e a BMW abandonaram as corridas de carros elétricos. É imperioso entender e aprender tudo que ele faz. Antes que seja tarde demais.

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