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Fãs de Senna: deixem a pobre alma do tricampeão descansar

Tão triste quanto qualquer luto pela morte de algum ídolo é a desnecessária comparação, quase imediata, com o que Ayrton Senna fez

26 nov 2020
21h47
atualizado às 21h48
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Senna morreu em 1994, mas é sempre lembrado quando alguém brilha no mundo do esporte.
Senna morreu em 1994, mas é sempre lembrado quando alguém brilha no mundo do esporte.
Foto: Divulgação

O corpo de Diego Armando Maradona não tinha nem esfriado e o termo “Senna” já estava entre os trending topics do Twitter brasileiro. Não precisa ser especialista em redes sociais para saber o que tinha acontecido: menções à genialidade do jogador argentino ou à comoção por sua morte estavam reverberando em comparações com a habilidade de Ayrton Senna e ao trauma por seu precoce falecimento.

Há poucas semanas, quando Lewis Hamilton superou o recorde de 91 vitórias na Fórmula 1, pertencente a Michael Schumacher, fenômeno parecido aconteceu. Cada vez que alguém tecia loas ao inglês, brotavam comparações aos feitos de Senna. Alguns dias mais tarde, com o sétimo título de Hamilton, nova avalanche de comparações.

Tudo normal, ainda mais no ambiente das redes sociais. As conversas no Twitter podem parecer uma mesa de bar. Alguém fala uma coisa, outro alguém responde, vem outro e completa, até que alguém retruca. E, a depender das conexões desses interlocutores, o debate se amplifica. 

O Twitter, às vezes, lembra a magnífica canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Conversando no Bar”, que termina em uma espécie de looping: “Em volta dessa mesa, velhos e moços, lembrando o que já foi/ em volta dessa mesa, existem outras, falando tão igual/ em volta dessas mesas, existe a rua, vivendo seu normal/ em volta dessa rua, uma cidade sonhando seus metais, em volta da cidade...” 

Luto na Argentina por Diego Maradona: um país inteiro comovido.
Luto na Argentina por Diego Maradona: um país inteiro comovido.
Foto: Divulgação

Um microcosmo se alarga, seu tema se alastra, e assim as discussões ganham corpo e, de repente, há alguém de Serafina Correa, no Rio Grande do Sul, em debate acalorado com outro alguém de Trairi, no Ceará, e eventualmente uma comparação habitual transforma-se em munição para ofensas e xingamentos, só porque um deles, enlutado por Maradona, não acha que Senna foi necessariamente melhor que o argentino. Ou que sua morte foi mais sentida, relevante ou sofrida. 

Como se fosse cabível comparar um piloto de Fórmula 1 de 34 anos, esguio e atlético, morto em um acidente, com um ex-jogador de 60 anos, obeso e abatido pela dependência química, morto enquanto dormia. Como se a morte na Tamburello fosse pior que a morte lenta em anos de doença, como se houvesse algum sentido em comparar mortes.

Essa discussão insepulta que sempre se instala quando algo parece comparável ao que ele fez, de fato, diminui as conquistas de Senna. O tricampeão brasileiro nascido em São Paulo não foi gigante porque seu funeral foi o maior da história do Brasil, um dos maiores do mundo. Ele foi gigante porque pulverizou praticamente todas as competições a que se dedicou.

Funeral de Ayrton Senna, a maior comoção da história do Brasil.
Funeral de Ayrton Senna, a maior comoção da história do Brasil.
Foto: Divulgação

Foi gigante porque colocou o automobilismo à frente e acima de todos os seus outros interesses, dedicando-se a ser o melhor piloto de seu tempo e uma referência para todos os que vieram depois. Foi inacreditavelmente rápido na chuva enquanto outros temiam o piso molhado. Foi quase sobre-humano quando, em mais de uma ocasião, conseguiu colocar mais de 1 segundo de vantagem sobre o companheiro em provas de classificação. O companheiro, por sinal, era o francês Alain Prost.

Quando alguém diz que Maradona foi mais que um jogador de futebol, foi uma personalidade da Argentina e do mundo, isso não quer dizer que Senna tenha sido menor. Quando se diz que Hamilton caminha para ser o maior vencedor da história da categoria, isso não quer dizer que ele seja necessariamente melhor que Senna. 

Comparações entre pilotos continuam sendo um grande desafio para estudiosos do tema, por tantas variações que ensejam (épocas, regulamentos, calendários diferentes, por exemplo). Comparar um tricampeão de Fórmula 1 a um ex-jogador de futebol faz ainda menos sentido. De fato, parece mero exercício de autoafirmação o que, no final das contas, trai certa insegurança quanto aos próprios argumentos.

Ayrton Senna, gigante na chuva: não é preciso compará-lo toda hora com os novos mitos.
Ayrton Senna, gigante na chuva: não é preciso compará-lo toda hora com os novos mitos.
Foto: Divulgação

Quanto mais o tempo passa, mais Senna deixa de ser publicamente o piloto extraordinário que foi para se tornar um mito reprodutor de frases motivacionais edificantes em memes de WhatsApp. Quem gosta mesmo de Senna – ou diz gostar – faria mais por sua memória se enaltecesse e compartilhasse seus feitos incríveis na pista. Sua alma, a permanecer em outra dimensão, provavelmente se sentiria muito mais em paz do que ao ser posta à prova em comparações tão esdrúxulas.

 

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