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Briatore: a volta do inominável à F1?

Embora não confirmado ainda, o possível retorno do italiano mexe com as estruturas e com o público da Fórmula 1

19 out 2021 19h44
| atualizado em 20/10/2021 às 12h34
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Flavio Briatore está de volta? Eis a pergunta
Flavio Briatore está de volta? Eis a pergunta
Foto: @briatore / Twitter

A F1 nunca nos deixa de surpreender. Tanto para o bem como para o mal. Nos últimos tempos, temos mais notícias boas do que ruins. Mas os fãs ficaram em um misto de incredulidade e revolta ao ver o vídeo onde apareciam o CEO da F1, Stefano Domenicali, e.…Flavio Briatore!

Sim, minhas caras e meus caros! O homem que foi tido como a principal mente por trás daquela que até hoje é considerada a maior tramoia da história da categoria, em Singapura 2008, estaria voltando pela porta da frente. Não é certo ainda como. A versão que tem mais circulado é que o controverso italiano assumiria a responsabilidade pela empresa que comercializa os patrocínios fora da pista e do Paddock Club, o “filé” dos camarotes da F1.

A F1 está longe de ser um lugar de virtuosos. Já tivemos donos de equipes trabalhando para órgãos de espionagem (Don Nichols, da Shadow), equipes patrocinadas por empresas suspeitas, pilotos com financiamentos pouco claros...O próprio Bernie Ecclestone tinha sob si a lenda de que havia participado do grande assalto ao trem pagador na Inglaterra na década de 60. Não à toa, a F1 tinha um jocoso apelido de “Clube das Piranhas”.

Mas como diz o povo, até os marginais têm seus códigos de ética. No caso de Briatore, antes mesmo de entrar na F1, a sua ficha corrida já era bem movimentada. Quando veio para a Benetton em 88, já havia respondido processos por fraude. Vindo de uma origem humilde e com um diploma de engenheiro agrimensor conseguido na bacia das almas, Briatore usou da inteligência para subir na vida. Seu grande golpe de sorte foi ter conhecido Luciano Benetton. 

Como foragido nas Ilhas Virgens, Briatore abriu algumas lojas da marca de roupas no local. Posteriormente, foi nomeado como responsável pelas operações do grupo nos EUA. Comandou um crescimento vertiginoso e isso o levou a ser nomeado diretor comercial da equipe de F1 em 1988. Foi neste ano que assistiu seu primeiro GP, Austrália, e não gostou da coisa, como ele mesmo admitiu.

Entretanto, foi nomeado chefe de equipe quando o então comandante do time Peter Collins começou a bater de frente com a família Benetton. Briatore, que não conhecia nada de corridas, foi colocado como responsável para colocar o time entre os principais da categoria. E não é que deu certo?

Briatore negociou com Piquet, trouxe John Barnard (não hesitou em dispensá-lo posteriormente), fechou acordo com Tom Walkinshaw (outro nome que também não era reconhecido pela lisura) e não hesitou em rifar Roberto Moreno para colocar Michael Schumacher. Neste último caso, mesmo sendo de uma crueldade absurda, foi o seu grande acerto. A Benetton vinha crescendo aos poucos, mas o time teve um ganho de desempenho mesmo com a vinda do alemão.

A esta altura, o italiano se transformou em uma das principais peças da categoria. Quando Schumacher venceu o campeonato de 1994, era a confirmação de uma história improvável. Mas não sem manchas: houve a acusação do uso de controle de largada, controle de tração e da retirada do filtro de combustível para ganhar tempo no reabastecimento. Mesmo com isso, tudo foi confirmado.

A prova de que Briatore ganhava força na F1 foi a rasteira dada em Ron Dennis na compra da Ligier. A raposa da McLaren havia tentado comprar a equipe francesa para obter os motores Renault, mas foi barrado por Frank Williams. Em conjunto com Walkinshaw, comprou a equipe e, em 95, a Benetton passou a usar as usinas V10, rompendo uma longa relação com a Ford. Esta aquisição também o fez controlar totalmente a Benetton, deixando Walkinshaw com a Ligier para chamar de sua.

O bicampeonato o deixou nas nuvens. Mas com a debandada da equipe técnica junto com Schumacher para a Ferrari, o time caiu. Ele ainda se arvorou a ser acionista da Minardi em 97. Neste mesmo ano, deixou o comando da equipe e passou a comandar a Supertec, empresa que ficou responsável pela manutenção dos Renault V10 após a saída oficial da montadora no final de 97.

Não satisfeito, começou também a atuar como empresário de pilotos. Em 99, conheceu um jovem piloto chamado Fernando Alonso e resolveu apostar nele. Em 2001, voltou à F1 com a Renault, assumindo o posto de chefe de equipe. E ajudou a Minardi a ir para a pista, dando dinheiro e cedendo o seu jovem talento espanhol ao time.

Seu segundo grande momento foi justamente no bicampeonato do espanhol. Naquele momento, poderia se dizer que era um dos potenciais substitutos de Bernie Ecclestone no comando da categoria. Inclusive os dois entraram na aventura de comandar o Queens Park Rangers, da Inglaterra. Até que veio Singapura e seu banimento.

Briatore nunca se afastou totalmente da F1 graças a seus contatos com Alonso e Mark Webber. Além do mais, seu protegido Bruno Michel seguiu tomando conta da GP2. Mas pareceu que o toque de midas havia se perdido. Tentou comandar clubes noturnos e restaurantes, sem sucesso. Em 2013, foi “reabilitado” pela FIA. 

Abrir a porta para quem cometeu erros é algo louvável. E sabemos que o automobilismo tem inúmeros casos de falta de caráter, burlas a regulamentos e tantos outros. Só que a F1 reabre suas portas para um daqueles que colocou a categoria em um de seus pontos mais baixos e infligiu uma grande mancha e um grande peso-pesado empresarial (Renault). 

Não podemos ser acusados de hipocrisia e a F1 vem dando exemplos de diferenças entre discursos e ações (a postura com a Arábia Saudita que o diga). Antes de tudo, a F1 é um negócio e não hesita nestas horas em faturar. Não à toa vemos cada vez mais corridas sendo marcadas a despeito do grande custo de saúde e aspectos pessoais para boa parte da equipe envolvida na categoria. A possível volta de Briatore é demais até para a pragmática e desalmada F1.

Parabólica
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