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Balanço da década (IV): Kwid, Mobi, Up e a Divina Comédia

A obra de Dante Alighieri está dividida entre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, três destinos na viagem dos subcompactos

9 jan 2020
19h25
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A Ford pagou todos os seus pecados quando lançou a primeira geração do Ka. Um carro pequeno e que nasceu para ser cult. Extremamente bem desenhado, com boa dirigibilidade, mas o público o rejeitou. Principalmente pelo preço, bastante salgado para um carro bem simples. Depois, a Ford esticou o Ka, o que o transformou numa obra automotiva de Dr. Frankenstein. Só quando lançou a atual geração, transformando o Ka num compacto de verdade, a Ford passou ao Purgatório e chegou ao Paraíso, com o vice-campeonato em vendas de 2019, mas durante anos viveu mergulhada no Inferno.

Ford Ka da primeira geração: vida no Inferno.
Ford Ka da primeira geração: vida no Inferno.
Foto: Ford / Divulgação

Apesar dos avisos da Ford, três montadoras decidiram arriscar a viagem dantesca na década que contamos de 2010 a 2019 (ok, sabemos que oficialmente é de 2011 a 2020, mas nesse caso vale a contagem de 0 a 9). A Volkswagen saiu na frente, com o Up. Logo depois veio a Fiat, com o Mobi. E já na parte final da década a Renault iniciou sua viagem com o Kwid. Os três carros passaram a perseguir o Paraíso. Para entender a Divina Comédia dos Subcompactos, vamos analisar a viagem de cada carro.

O Inferno do Up

A Volkswagen lançou o Up com tanta convicção de que alcançaria o Paraíso que se descuidou até de seu carro-chefe, o Gol. O Up chegou para revolucionar. Era um carro que ia bem na Europa e naquele começo de década a Volks era mais alemã do que nunca. De forma bastante arrogante, abandonou seu velho lema “você conhece, você confia” para adotar o slogan alemão “Das Auto”. Ninguém sabia o que era. A tradução é “O Carro”. Tá, e daí? Se fosse dito em português, já seria uma mensagem muito subliminar para o público entender. Em alemão, então, foi confundida com anúncio de concessionária. Muitos consumidores viam “Das Auto” na assinatura dos anúncios da Volkswagen e achavam que era a publicidade de uma revenda qualquer. 

Volkswagen Up: um ótimo carro que nunca saiu do Inferno.
Volkswagen Up: um ótimo carro que nunca saiu do Inferno.
Foto: VW / Divulgação

O presidente da VW do Brasil na época era um alemão e ele tomou o cuidado de recomendar o aumento na capacidade do porta-malas, pois sabia que carro sem bagageiro não vendia no Brasil. O Up estreou com uma configuração mecânica muito boa para a categoria de subcompactos: motor 1.0 de três cilindros, cinco estrelas no Latin NCAP e agradável dirigibilidade. Só que era caro. E com acabamento espartano, mostrando a carroceria. O design era frio. E tinha muitas versões com nomes parecidos. Era difícil diferenciar um carro do outro. A quantidade de pacotes opcionais era surreal. Além disso, a publicidade explorou quatro adultos jovens dentro do carro curtindo, exatamente quando esse público estava desapegando do automóvel e buscando formas diferentes de mobilidade. Foi um fracasso.

A Volks decidiu reposicionar o carro. Abandonou o slogan “Das Auto”, tornou-se mais “brasileira” e introduziu o motor 1.0 turbo. O Up TSI foi um sucesso imediato de crítica. Nove entre dez jornalistas automotivos amam o carro. Porém, ele ficou ainda mais caro. E veio a crise econômica. O Up nunca sequer chegou perto do Paraíso. Passou um pequeno período no Purgatório, mas viveu mesmo foi no Inferno. Em determinado momento, a Volks decidiu tornar o Up seu carro de entrada, reposicionando o Gol para cima. Pouco tempo depois, mudou de ideia, jogou o Gol para baixo e deixou o Up com o mínimo de versões possível. Não haverá Paraíso para o Up. Infelizmente, esse simpático subcompacto ficará no Inferno até ser retirado do mercado.

O Purgatório do Mobi

Não foi muito diferente com o Fiat Mobi. Apesar do passado do Ford Ka e do exemplo do VW Up, a Fiat apresentou o Mobi como a reinvenção da roda. A crônica especializada não engoliu. O carro era tosco, um apanhado de peças de outros carros da marca, não tinha coerência no design, usava um motor velho, era gastão e não trazia nenhuma novidade mecânica que justificasse uma nova ideia em mobilidade. Além de tudo, era caro, mesmo sendo muito inferior ao Up. Resultado: vendas baixíssimas, menos da metade do que estava previsto pela Fiat, e uma estreia no Inferno.

Fiat Mobi: do Inferno ao Purgatório e rumo ao Paraíso.
Fiat Mobi: do Inferno ao Purgatório e rumo ao Paraíso.
Foto: FCA / Divulgação

Porém, uma temporada no Inferno “fez bem” ao Mobi. A Fiat melhorou o carro, introduziu um motor de três cilindros mais moderno, deixou de prometer mais do que o Mobi entregava e reduziu seu preço. O Mobi aos poucos foi evoluindo até chegar ao Purgatório. Hoje podemos dizer que o Mobi foi um dos carros que mais evoluíram desde seu lançamento. Aos poucos, o carro foi pagando seus pecados e conquistando um público mais animado. Não dá para dizer que o Mobi está no Paraíso, mas ele é o décimo carro mais vendido nas concessionárias, o que demonstra que seu estágio no Purgatório pode estar próximo do fim.

O Paraíso do Kwid

Não se pode acusar a Renault de não ter tomado as devidas precauções para o lançamento do Kwid. Em certa ocasião, as áreas de marketing e engenharia convidaram alguns jornalistas para conhecer alguns detalhes do carro antecipadamente, para dar algumas dicas. Não passou despercebido um quadro na parede onde estavam coladas cópias com todas as críticas negativas que o Fiat Mobi havia recebido em seu lançamento. A Renault não queria errar.

Na verdade, a própria Renault sabia que partiria do Purgatório e com o Inferno de portas abertas bem ali perto. Afinal, um ano antes do lançamento do Kwid brasileiro, o Kwid indiano tirou nota zero no teste de impacto. A Renault tratou de reforçar toda a estrutura do Kwid brasileiro e de equipá-lo com quatro airbags. Queria garantir pelo menos três estrelas no Latin NCAP -- e conseguiu.

Renault Kwid: estreia no Inferno, hoje no Paraíso.
Renault Kwid: estreia no Inferno, hoje no Paraíso.
Foto: Renault / Divulgação

Porém, apesar dos cuidados, a Renault decidiu inovar na campanha publicitária do Kwid. Então foi buscar num herói dos quadrinhos, o Incrível Hulk, da Marvel Comics, a imagem animada do Kwid. Depois de uma ótima pré-campanha com a modelo Marina Ruy Barbosa -- que havia se tornado a nova “namoradinha do Brasil” --, a Renault deixou a estrela para lá e apostou suas fichas no herói verde. O Incrível Hulk chegou destruindo a cidade e somente um carro era capaz de acompanhá-lo: o novíssimo Renault Kwid, apresentado como “o SUV dos compactos”. Péssima ideia. O Kwid não tinha nada de robusto. Como SUV, não passava de um hatch elevado. Pior: logo no início das vendas, começou a apresentar defeitos. Em apenas seis meses, o Kwid passou por três graves recalls, que interromperam suas vendas por um bom período. Primeiro o carro apresentou problemas nos dutos de combustível, depois complicações nos freios e em seguida defeitos na solda do berço do motor.

Ou seja: o Kwid mal arrancou de sua viagem e já deu marcha-à-ré direto para o Inferno. Ficou lá por um bom período. Depois, passou a conquistar a confiança do consumidor, que foi atraído por seu preço acessível (um mérito desde o início) e podemos dizer que rapidamente voltou ao Purgatório. Porém, o Kwid nunca foi unanimidade entre os jornalistas automotivos. Por isso, sempre teve essa questão de ser um sucesso de público e um fracasso de crítica. Hoje o Kwid já tem um mercado, seus preços continuam acessíveis e o carro está entre os quatro mais vendidos do Brasil. Podemos dizer que na Divina Comédia dos Subcompactos, o Renault Kwid foi o único que alcançou o Paraíso no final da década.

 

Guia do Carro
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