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Zuckerberg colocou crescimento acima da segurança e se curvou ao Partido Comunista do Vietnã

Papel de Zuckerberg no país exemplifica sua determinação incansável de garantir a predominância do Facebook, às vezes à custa de seus valores declarados

26 out 2021 05h11
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No ano passado, Mark Zuckerberg se deparou com uma escolha: atender as reivindicações do Partido Comunista do Vietnã no poder para censurar dissidentes antigovernamentais ou correr o risco de ser removido de um dos mercados asiáticos mais lucrativos do Facebook.

Nos Estados Unidos, o CEO de tecnologia defende a liberdade de expressão, e mostra relutância em remover até mesmo conteúdo malicioso e falso da plataforma. Mas no Vietnã, apoiar os direitos de liberdade de expressão das pessoas que questionam os líderes do governo poderia ter um custo considerável em um país onde a rede social ganha mais de US$ 1 bilhão em receita por ano, de acordo com uma estimativa de 2018 da Anistia Internacional.

Então, Zuckerberg decidiu pessoalmente que o Facebook atenderia às exigências de Hanói, de acordo com três pessoas familiarizadas com a decisão, falando sob condição de anonimato para descrever as discussões internas da empresa. Em janeiro, antes do congresso do partido no Vietnã, o Facebook aumentou consideravelmente a censura de postagens "anti-Estado", dando ao governo controle quase total sobre a plataforma, de acordo com ativistas locais e defensores da liberdade de expressão.

O papel de Zuckerberg na decisão no Vietnã, que não foi divulgada anteriormente, exemplifica sua determinação incansável de garantir a predominância do Facebook, às vezes à custa de seus valores declarados, de acordo com entrevistas com mais de uma dezena de ex-funcionários. Esse ethos foi criticado por uma série de acusações apresentadas como denúncias à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) pela ex-gerente de produtos do Facebook, Frances Haugen.

Embora não esteja claro se a SEC assumirá o caso ou tomará medidas contra o CEO individualmente, as alegações feitas por Frances representam, sem dúvida, o maior desafio para a liderança inflexível de Zuckerberg sobre a mais poderosa empresa de rede social da Terra. Especialistas dizem que a SEC - que tem o poder de solicitar depoimentos, multá-lo e até removê-lo do cargo de presidente - provavelmente investigará a fundo o que ele sabia e quando. Embora seu ponto de vista direto raramente esteja visível nos documentos, as pessoas que trabalharam com Zuckerberg dizem que as impressões digitais dele estão em todos os lugares.

Em particular, Zuckerberg tomou inúmeras decisões e fez observações que demonstraram uma devoção linha-dura à liberdade de expressão. Mesmo no Vietnã, a empresa diz que a escolha de censurar se justifica "para garantir que nossos serviços continuem disponíveis para milhões de pessoas que dependem deles todos os dias", de acordo com um comunicado enviado ao Washington Post.

Frances faz referência às declarações públicas de Zuckerberg pelo menos 20 vezes em suas denúncias à SEC, afirmando que o poder singular do CEO e nível sem igual de controle sobre o Facebook significam que ele tem responsabilidade final por uma série de danos à sociedade. Os documentos apresentados por ela parecem contradizer o CEO em várias questões, inclusive no impacto da plataforma na saúde mental das crianças, se seus algoritmos contribuem para a polarização e quanto discurso de ódio eles detectam em todo o mundo.

Por exemplo, Zuckerberg declarou no ano passado, perante o Congresso, que a empresa remove 94% do discurso de ódio que encontra - mas documentos internos mostram que seus pesquisadores estimaram que a empresa estava removendo menos de 5 % do discurso de ódio no Facebook. Em março, Zuckerberg disse ao Congresso que "não estava nada claro" se as redes sociais polarizam as pessoas, embora os próprios pesquisadores do Facebook tenham identificado repetidamente que sim.

Os documentos - revelados à SEC e apresentados ao Congresso de forma redigida pelo advogado de Frances - foram obtidos e verificados por um consórcio de veículos de comunicação, entre eles o Washington Post.

Em seu depoimento no Congresso, Frances acusou inúmeras vezes Zuckerberg de colocar o crescimento acima do bem comum, uma alegação que foi repetida em entrevistas com ex-funcionários.

"O fantasma de Zuckerberg paira sobre tudo que a empresa faz", disse Brian Boland, ex-vice-presidente de parcerias e marketing que deixou a empresa em 2020, depois de começar a acreditar que a plataforma estava polarizando a sociedade. "Ela é completamente orientada por ele."

Dani Lever, porta-voz do Facebook, negou que as decisões tomadas por Zuckerberg "causem danos", dizendo que a alegação era baseada em "documentos selecionados, interpretados de maneira equivocada e desprovidos de qualquer contexto".

"Não temos incentivo comercial ou moral para fazer nada além de dar ao maior número de pessoas o máximo de uma experiência positiva possível", disse ela. "Como toda plataforma, estamos constantemente tomando decisões difíceis entre liberdade de expressão e discurso que causa danos, segurança e outras questões, e não tomamos essas decisões baseadas em nada - contamos com a contribuição de nossas equipes, assim como com especialistas externos nos assuntos para lidar com eles. Mas é sempre melhor deixar para os líderes eleitos traçar essas diretrizes sociais, e é por isso que passamos muitos anos defendendo que o Congresso aprovasse regulamentações atualizadas da internet. "

O Facebook já tomou medidas anteriormente para impedir que Zuckerberg fosse responsabilizado individualmente. Em 2019, enquanto a empresa encarava uma multa recorde de US$ 5 bilhões da Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC, na sigla em inglês) por violações de privacidade relacionadas à Cambridge Analytica, empresa de consultoria política que coletou os dados de perfil de dezenas de milhões de usuários da rede social, o Facebook negociou para proteger Zuckerberg da responsabilização direta. Os documentos internos com instruções do Facebook revelaram que a gigante da tecnologia estava disposta a abandonar as negociações de acordo e lutar nos tribunais se a agência insistisse em perseguir o CEO. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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