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Uma internet menos americana: empresas de tec regionais desafiam gigantes

Seja por protecionismo ou simplesmente por execução de bons serviços, companhias locais ganham espaço em um cenário de preocupação com o poder das Big Techs

30 mar 2021 05h10
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O mundo da internet está se tornando um pouco menos americano, o que é emocionante e inquietante. O bom desempenho de estrelas regionais do comércio eletrônico, como a Coupang, na Coreia do Sul, e a Jumia, em partes da África, têm chamado a atenção — principalmente porque elas estão conseguindo desafiar a Amazon (pelo menos até agora).

O sucesso delas é a evidência do que pode ser uma evolução dos serviços online que hoje são uma bolha global homogênea e amplamente dominada pelos americanos. E isso mostra que agora podemos estar no auge de uma era de ouro para empresas digitais regionais ou específicas de um país.

Essas alternativas surgem em um momento em que muitas pessoas e autoridades estão de olho no poder das gigantes da tecnologia, principalmente americanas e chinesas, que influenciam o que as pessoas acreditam e remodelam as economias.

Porém, há algo mágico em relação aos serviços de internet compartilhados ao redor do mundo. Comecemos com um breve histórico da internet: durante o primeiro quarto de século da internet moderna, as empresas americanas (e mais recentemente, as chinesas) foram em grande parte as forças globais dominantes. Facebook, Instagram, WhatsApp, Netflix, Uber, Didi Chuxing e TikTok ganharam força em muitos países.

Os titãs digitais globais não parecem estar perdendo o jogo, mas eles são cada vez mais desafiados por empresas de poder regional ou específicas de um país. Há companhias regionais de comércio eletrônico como o Mercado Livre, na América Latina, e a Tokopedia, na Indonésia. O Twitter é influente na Índia, mas o aplicativo de microblog Koo está ganhando terreno por lá. As potências americanas de tecnologia olham com inveja para o Grab e o Gojek, do sudeste asiático, que oferecem serviços como passeios de patinete, cabeleireiro ou empréstimo imobiliário sem sair dos aplicativos.

Há várias razões para o surgimento dessas estrelas locais. Em primeiro lugar, os países estão colocando mais barreiras a serviços estrangeiros de internet. No ano passado, a Índia bloqueou vários aplicativos chineses, incluindo o TikTok, durante um impasse na fronteira — isso ajudou a criar uma onda de serviços digitais desenvolvidos dentro do país. Outro exemplo é o governo da Rússia, que tem tentado incentivar as pessoas a usarem os serviços de internet criados internamente como uma forma de evitar que a dissidência se torne viral em momentos de crise.

Mas o desenvolvimento de serviços locais de internet nem sempre é resultado de protecionismo e nacionalismo. Em alguns casos, as empresas locais estão se saindo bem ou derrotando as superpotências globais de tecnologia porque são realmente boas no que fazem.

Culturas compartilhadas

Pode ser ótimo ter alternativas para as gigantes da tecnologia, mas há uma preocupação com o que se perde se não existirem momentos de cultura compartilhada no YouTube ou uma simpatia pela Amazon em comum. Eu particularmente acredito que há elementos de uma internet global que nos aproximam um pouco mais. (E às vezes, fragmenta completamente o mundo. Não é algo simples de se explicar.)

Em parte, isso acontece porque o YouTube e o Spotify são populares em Bogotá ( Colômbia), Bangalore (Índia) e no Estado de Idaho ( EUA), um mundo dividido que compartilha o amor pelo reggaeton e pela música K-pop. Quando grande parte do mundo usa sites como Facebook e Twitter, as manifestações pró-democracia em Hong Kong ajudam a incentivar os movimentos de protesto regionais na Tailândia e em Mianmar, por exemplo.

Fico feliz que a Coupang possa prosperar atendendo a paixão dos sul-coreanos pelas compras online. Os indonésios merecem empresas locais que saibam mais do que eles precisam do que qualquer gigante da tecnologia de um país distante. Mas também espero que possamos manter as delicadas conexões de vida compartilhada na Internet. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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