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Trabalhar de casa para sempre parece o futuro, mas ideia tem histórico ruim

Com a quarentena, muitas empresas estão apostando no home office como modelo principal de trabalho; companhias que testaram modelo no passado, como a IBM, tiveram resultados adversos

9 jul 2020
05h10
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Três meses depois de a pandemia de coronavírus fechar escritórios, as empresas americanas concluíram que trabalhar de casa está dando certo. Muitos funcionários se verão amarrados ao Zoom e ao Slack pelo resto de suas carreiras. Por outro lado, o caminho de casa para o trabalho agora vai durar só uns segundos. Mas Richard Laermer tem alguns conselhos para todas as empresas que estão correndo atabalhoadamente para os braços desse futuro remoto: "não sejam idiotas".

Alguns anos atrás, Laermer deixou que os funcionários de sua empresa, a RLM Public Relations, trabalhassem de casa às sextas-feiras. Este pequeno passo em direção ao teletrabalho acabou se revelando um desastre, disse ele. Muitas vezes ele não conseguia mais encontrar pessoas quando precisava delas. Projetos definharam. "Cada fim de semana se tornou um feriado de três dias", disse ele. "Descobri que as pessoas trabalham muito melhor quando estão no mesmo espaço físico".

A IBM chegou a uma decisão semelhante. Em 2009, 40% de seus 386 mil funcionários em 173 países trabalhavam remotamente. Mas, em 2017, com a queda nas receitas, a gerência chamou milhares deles de volta ao escritório.

Mesmo que Facebook, Shopify, Zillow, Twitter e muitas outras empresas estejam desenvolvendo planos para permitir que os funcionários trabalhem remotamente para sempre, as experiências de Laermer e da IBM são um lembrete de que a história do teletrabalho está repleta de falhas. As empresas vêm avançando, mas correm o risco de chegarem ao mesmo destino.

"Trabalhar em casa é uma jogada estratégica, não apenas uma tática para economizar dinheiro", disse Kate Lister, presidente da Global Workplace Analytics. "Muito disso se resume à confiança. Você confia no seu pessoal?".

Trabalho remoto para sempre é plano de décadas

Há décadas as empresas, grandes e pequenas, vêm tentando passar para o trabalho remoto. Já em 1985 a grande mídia usava frases como "o crescente movimento do teletrabalho". Peter Drucker, o guru da administração, declarou em 1989 que "sair de casa para o escritório é uma coisa obsoleta".

O teletrabalho era uma inovação movida pela tecnologia que parecia oferecer benefícios tanto para os funcionários e quanto para os executivos. Os primeiros poderiam eliminar deslocamentos cada vez maiores e trabalhar durante as horas que melhor lhes conviessem. A gerência economizaria em imóveis de alto custo e poderia contratar candidatos que morassem longe do escritório, aprofundando o pool de talentos.

E, no entanto, muitas das iniciativas acabaram sendo reduzidas ou abandonadas. Além da IBM, entre as empresas que recorreram publicamente ao teletrabalho na última década se encontram Aetna, Best Buy, Bank of America, Yahoo, AT&T e Reddit. Os funcionários remotos geralmente se sentiam marginalizados, o que os tornava menos leais. Criatividade, inovação e descobertas pareciam prejudicadas.

Em 2013, Marissa Mayer, presidente executiva do Yahoo, criou um furor ao forçar os funcionários a voltar ao escritório. "Algumas das melhores decisões e ideias vêm das discussões nos corredores e refeitórios, quando as pessoas conhecem gente nova e improvisam reuniões de time", explicou um memorando da empresa.

As empresas de tecnologia passaram a gastar bilhões em escritórios cada vez mais luxuosos, dos quais os funcionários nunca precisam sair. Em 2018, o Facebook anunciou planos para instalações que eram, em essência, dormitórios. A Amazon reconstruiu um bairro inteiro de Seattle. Quando perguntaram a Patrick Pichette, ex-diretor financeiro do Google, "quantas pessoas trabalham remotamente no Google?", ele disse que gostava de responder: "O mínimo possível".

Esse cálculo mudou de repente. O Facebook espera que até metade de seus funcionários esteja trabalhando de casa em 2025. O presidente executivo do Shopify, uma empresa canadense de comércio eletrônico que emprega 5 mil pessoas, tuitou em maio que a maioria deles "trabalhará permanentemente remoto. O foco no escritório acabou". O chefe de tecnologia do Walmart disse a seus funcionários que "trabalhar virtualmente será o novo normal".

Os trabalhadores remotos podem estar livres de custos de deslocamento, mas são tradicionalmente mais vulneráveis. Jeffrey Gundlach, que dirige a empresa de investimentos DoubleLine Capital, em Los Angeles, disse que começou a enxergar sua nova equipe remota sob uma nova luz. "Eu meio que entendi quem estava trabalhando de verdade e quem não estava trabalhando tanto quanto parecia no papel", disse ele. "Estou começando a me perguntar se realmente preciso de algumas das pessoas de supervisão e gerência intermediária", acrescentou ele.

No início do ano, a taxa de desemprego estava baixa e os trabalhadores tinham algum poder de decisão. Tudo isso se perdeu, pelo menos nos próximos dois anos. O trabalho remoto pode consolidar essa mudança. "Quando as pessoas estão em apuros, você se aproveita delas", disse John Sullivan, professor de administração da Universidade Estadual de San Francisco.

"Os dados dos últimos três meses são muito poderosos", disse ele. "As pessoas estão chocadas. Ninguém viu queda na produtividade. A maioria viu aumento. As pessoas saem de casa para trabalhar há mil anos, mas isso vai parar e vai mudar a vida de todo mundo".

A inovação, acrescentou Sullivan, vai acabar se adaptando. "Quando você contrata remotamente, pode obter o melhor talento possível, e não apenas o melhor que quer morar na Califórnia ou em Nova York", disse ele. "Você obtém verdadeira diversidade. E isso afeta a inovação"./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Estadão
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