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Toronto reduz plano de cidade inteligente após protestos por privacidade

Projeto de renovação de orla marítima teria robôs e sensores, mas captaria dados de cidadãos indiscriminadamente

10 nov 2019
05h10
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Toronto, uma das maiores metrópoles do Canadá, estava destinada a se tornar uma vasta "cidade inteligente". Era uma visão do futuro: sensores monitorariam a velocidade com que as pessoas atravessam as ruas e robôs trabalhariam coletando o lixo. Mas o projeto para a orla marítima da cidade, chamado de Quayside e desenvolvido por uma companhia irmã do Google, levantou inúmeros protestos sobre privacidade. A gritaria foi tanta que a proposta acabou sendo severamente reduzida: dos 760 mil metros quadrados originais, apenas 50 mil m² serão executados pela Sidewalk Labs, que pertence à Alphabet, holding que controla o Google.

O plano original previa bairros inteiramente construídos em madeira, toldos automáticos que protegeriam os pedestres da chuva e até calçadas capazes de derreter a neve. O projeto do empreendimento recebeu muitos planos pelas inovações que poderiam ajudar a expandir o perfil global da cidade. Em recente artigo no jornal Toronto Star, o professor da Universidade de Toronto Richard Florida argumentou que o desenvolvimento seria uma bênção para a cidade, a qual, segundo ele, estava ficando para trás "das principais metrópoles tecnológicas, como São Francisco, Nova York, Londres e Xangai".

Mas o plano para o empreendimento, também falava em sensores e câmeras para rastrear as pessoas que vivem, trabalham ou passam pela área. Os dados resultantes, segundo a empresa, seriam usados para aperfeiçoar ainda mais a nova comunidade. Isso gerou protestos de moradores e defensores da privacidade. Um grupo caracterizou o projeto como a tentativa de uma "afiliada do Google" de transformar cidades em "territórios de vigilância corporativa, inspirados em empreendimentos no estilo da Disney e áreas vendidas para serviços policiais e parceiros corporativos".

A Waterfront Toronto, agência governamental que supervisiona os projetos de renovação da área, agora quer obter maior controle sobre todos os dados, exigindo que a Sidewalk Labs trate as informações coletadas no empreendimento como um bem público. O acordo alcançado com a Sidewalk Labs também determina que a empresa deve fazer parcerias com outros desenvolvedores imobiliários.

Segundo uma das críticas, isso pode não ser suficiente. "A melhor maneira de acabar com essa confusão seria a Waterfront Toronto encerrar qualquer acordo com a Sidewalk o mais rápido possível", disse Julie Beddoes, moradora local e membro do grupo BlockSidewalk, em nota após a votação.

O debate sobre o poder que Toronto deu à empresa de tecnologia expôs os desafios que as cidades enfrentam na tentativa de buscar inovação tecnológica com parceiros privados e, ao mesmo tempo, garantir a privacidade de seus habitantes. Porta-voz da Sidewalk Labs, Keerthana Rang disse que a empresa continua confiante de que poderá seguir suas ambições, embora em menor escala.

Daniel Doctoroff, diretor da Sidewalk, havia lançado o plano original como um manifesto para a cidade do amanhã. "É o guia para uma abordagem nova do urbanismo", disse ele. A Waterfront Toronto disse que fará novas consultas públicas e uma análise formal do plano, as quais irão determinar se o projeto pode avançar. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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