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Tigres Voadores: a incrível saga de uma operação secreta

Tigres Voadores. Você pode não reconhecer o nome mas conhece a inconfundível imagem dos aviões desse grupo de heróis e rebeldes

18 jan 2021
22h26
atualizado em 19/1/2021 às 10h14
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Você conhece os Tigres Voadores. Com toda certeza já viu a pintura de nariz que eles popularizaram, os clássicos dentes de tubarão, mas a importância desse esquadrão de renegados vai muito além da decoração de aeronaves.

Um A-10 usando a tradicional pintura dos Tigres Voadores
Um A-10 usando a tradicional pintura dos Tigres Voadores
Foto: USAF / Staff Sgt. Jamal D. Sutter / Meio Bit

As verdadeiras origens dos Tigres Voadores ficaram ocultas por 50 anos, uma unidade secreta que operava em plena luz do dia, com uma história fabricada que tinha o mérito de ser essencialmente verdadeira.

O Cenário

Nos Anos 1930 os EUA estavam cansados de guerra. A população ainda se recuperava da 1ª Guerra Mundial, um monte de imigrantes e refugiados queriam distância de qualquer coisa relacionada com combate, e havia duas grandes correntes dominando a opinião pública: Pacifismo e Isolacionismo.

Embora até 1939 somente Winston Churhill houvesse lido o livro de Hitler logo ficou evidente eu a Alemanha estava dedicada a expandir suas conquistas, mas mesmo depois da 2ª Guerra ter começado, os EUA ainda permaneciam neutros. Em termos claro, eles deram empréstimos imensos e enviavam suprimentos para os ingleses.

Em retrospecto...
Em retrospecto...
Foto: Domínio Público / Meio Bit

Do outro lado do mundo o Japão, igualmente expansionista, iniciava em 1937 a 2ª Guerra Sino-Japonesa, invadindo a República da China, sob o comando do Generalíssimo Chiang Kai-shek, que como combatia os comunistas, recebia a simpatia dos Estados Unidos, simpatia essa na forma de dinheiro, armas, consultoria.

Um desses consultores era o futuro Major General Claire Lee Chennault.

Chennault era um brilhante tático, especialista em logística (de verdade) e meio rebelde, tanto que pediu as contas e deu baixa do Exército em 1937, com o posto de major. Ele acabou na China, servindo de consultor e ajudando a criar a Força Aérea Chinesa, até então formada basicamente por mercenários.

Major General Claire Lee Chennault. Tem ou não cara de general?
Major General Claire Lee Chennault. Tem ou não cara de general?
Foto: Domínio público / Meio Bit

Por algum motivo ele se apaixonou pela China, e com a ameaça japonesa, Chennault começou a formular planos para tentar deter a invasão. Ele acabou em Washington, com uma missão especial.

Com ajuda da Central Aircraft Manufacturing Company (CAMCO), uma empresa chinesa de montagem de aeronaves, Chennaul negociou a compra de 100 caças Curtiss P-40.

Visitando bases aéreas americanas, Chennault e seus auxiliares fizeram propostas indecentes aos pilotos:  Quem pedisse baixa, se tornasse civil e assinasse um contrato com a CAMCO seria contratado por um salário de US$600.

Isso equivale a um salário em 2020 de $10,563.71. Um piloto júnior no Exército ganhava 125 dólares ($2,200.77 em 2020).

Também havia um bônus informal de US$500 ($8,803.10 em 2020) por cada avião japonês abatido.

Esse grupo, que mais tarde seria conhecido como Tigres Voadores foi chamado de  American Volunteer Group, e logo Chennault havia selecionado 100 voluntários para o trabalho. Em comum eram homens ambiciosos, ansiosos por combate e rebeldes, a maioria tinha problema com autoridades e não eram exatamente material militar.

Junto com os pilotos foram contratados 200 mecânicos, também com salários polpudos e promessas de bons lucros em uma terra distante.

No começo de 1941 o grupo embarcou para Burma, aonde foram apresentados à Doutrina Chennault.

O Major não ligava para rankings, ninguém tinha posto militar no AVG, cada um era responsável por seu próprio cuidado pessoal, e a maioria usava bigodes, álcool reinava supremo quando não estavam voando, e em alguns casos, quando estavam, mas todos ouviam o Major.

Na época o Mitsubishi Zero reinava supremo nos ares do Pacífico, mas o Major havia estudado combates suficientes para aprender suas deficiências.

Soldado chinês guardando uma esquadrilha de P-40s
Soldado chinês guardando uma esquadrilha de P-40s
Foto: Domínio Público / Meio Bit

O P-40 subia com a mesma disposição de um blogueiro levando um barril de chopp vegan sem álcool 10 lances de escada até a casa de um tik-tokker, mesmo assim Chennault explicou aos Tigres Voadores que em grande altitude o Zero tinha menos vantagem.

Assim valia à pena gastar tempo subindo para surpreender o inimigo em um nível de vôo mais baixo.

Ele também proibiu os pilotos de combaterem diretamente os Zeros, o raio de curva do P-40 era maior do que o de alguns planetas. Nas academias e esquadrões nos EUA e Inglaterra a ordem era partir pro Dogfight. Chennault dizia para descerem, atirarem e fugirem pra se reposicionar para novo ataque.

E a Pintura?

Hoje a imagem é indissociável dos Tigres Voadores, mas os clássicos dentes de tubarão pintados na lateral do motor dos P-40 foram copiados dos caças ingleses do 112º Esquadrão da RAF, servindo na África.

Que por sua vez copiou a pintura dos aviões da Zerstörergeschwader 76, um esquadrão alemão. Viram? Não é só na televisão e perfis de memes que nada se cria tudo se copia.

Me110 com a famosa pintura
Me110 com a famosa pintura
Foto: Bundesarchiv, Bild 101I-382-0211-011 / Wundshammer, Benno / Meio Bit

E o nome dos Tigres Voadores?

Uma história diz que os Tigres Voadores ganharam o nome por causa de uma superstição japonesa, aonde os pilotos morreriam de medo de um Tubarão Tigre, e por causa disso a pintura dos dentes se encaixaria perfeitamente ao nome.

O que sabemos é que a Imprensa não detalhou essa parte (sim, as atividades dos Tigres Voadores eram bem divulgadas) e o nome chegou até a Disney, que como parte do esforço de guerra desenhou e enviou um símbolo para o esquadrão, que o aceitou:

Robert "R.T." Smith e o emblema. É um tigre. E voa.
Robert "R.T." Smith e o emblema. É um tigre. E voa.
Foto: USAF / Meio Bit

Todos os treinos e preparativos colocariam os pilotos civis sem a chancela do governo dos EUA enfrentando pilotos japoneses como contratados pela China, mas os japas resolveram bombardear Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941 e os pilotos tiveram seu primeiro gosto de combate no dia 20, quando interceptaram 10 bombardeiros japoneses. Somente um deles conseguiu voltar pra casa.

Um dos segredos do sucesso dos Tigres Voadores era a rede de inteligência estabelecida pelos chineses. Em toda vila e posto de observação no mato havia alguém com um rádio ou telefone, aviões inimigos eram reportados e plotados, seu destino calculado e todos estavam preparados.

Tigres Voadores em formação.
Tigres Voadores em formação.
Foto: RT Smith / San Diego Air and Space Museum Archive / Meio Bit

Durante um ataque os japoneses encontraram uma base dos Tigres Voadores e bombardearam sem dó, destruindo dezenas de aviões no chão.

Todos falsos, armações de madeira e lona com latas de gasolina para ajudar nos efeitos visuais. Os japas foram emboscados depois pelos verdadeiros aviões.

Enquanto tinham como, os japoneses mandavam mais e mais aviões. Os Tigres Voadores sempre trabalhavam em inferioridade numérica, certa vez 38 aviões enfrentaram 271 japoneses.

Nem tudo eram flores para os Tigres Voadores

Eles odiavam a comida, a manutenção dos aviões era deficiente, pois tinham poucos mecânicos e dificuldade em conseguir peças, o Correio entre o interior da China de 1942 e os EUA era quase tão ruim quanto o brasileiro e eles ainda tinham que sofrer com malária, cólera e falta de companhia feminina, se é que você me entende. Pra piorar, como não eram a Marinha, nem um barril havia disponível.

Os Tigres Voadores duraram até Julho de 1942, quando o Major Chennault foi reconvocado e o esquadrão incorporado à Força Aérea do Exército.

Nessa altura os Tigres Voadores tinham perdido 14 pilotos em combate, mas em troca derrubaram 296 aviões inimigos.

Infelizmente o oficial que colocaram para intermediar a transição dos pilotos de volta para a vida militar era um mané sem-tamanho. Ele chegou a intimidar os pilotos dizendo que se não topassem seriam convocados à força e transferidos pra infantaria.

A situação chegou a tal ponto que o Major General Chennault teve que pedir pra seu parça Chiang Kai-shek interferir com Washington e afastar o tal oficial, mas o mal já estava feito e a maioria dos pilotos dos Tigres Voadores não migrou para a Força Aérea do Exército.

Mas como isso foi possível?

Nessas horas você deve estar se perguntando como os EUA, na beira de uma guerra topam enviar aviões zero Km para o outro lado do mundo, como a China em dinheiro pra comprar esses aviões e principalmente como os militares aceitaram de boa um recrutador passeando nas suas bases e oferecendo propostas indecentes para seus pilotos.

O segredo é que tudo, desde a criação do American Volunteer Group foi feito com expressa autorização do Presidente Roosevelt, que assinou uma Ordem Executiva Secreta pra isso.

O dinheiro chinês? Resultado de um empréstimo de US$100 milhões dos EUA ao governo de Chiang Kai-shek, o equivalente hoje a US$1,76 bilhões.

Os Tigres Voadores tinham autonomia local mas respondiam diretamente ao Pentágono, mas isso só veio a público em 1991, quando o Governo dos EUA reconheceu que eles eram militares em serviço ativo.

Com isso eles tiveram direito a várias condecorações, como uma Presidential Unit Citation e em 1992 os pilotos receberam a Distinguished Flying Cross.

De todas as operações secretas dos EUA talvez essa tenha sido a mais digna.

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