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'Sucesso do voo de Jeff Bezos não impacta Elon Musk', diz autor de livro sobre a Amazon

Brad Stone afirma que a Blue Origin ainda precisa avançar em voos orbitais para causar algum impacto na SpaceX

21 jul 2021 17h01
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O sucesso do primeiro voo tripulado da Blue Origin, que teve seu fundador Jeff Bezos como passageiro, foi motivo de comemoração nesta terça-feira, 20 - quando a cápsula da New Shepard tocou o chão do Texas, o fundador da Amazon estourou uma champanhe ao lado dos funcionários de sua empresa de exploração espacial. Esse clima de festa, porém, é uma novidade: no livro Amazon sem Limites, o editor da Bloomberg News Brad Stone conta que durante anos a Blue Origin foi vista como uma retardatária no império de conquistas do homem mais rico do mundo.

O livro, lançado recentemente pela Editora Intrínseca no País, revela que Bezos chegou a fazer uma série de almoços com executivos da Blue Origin ao longo de 2016 para discutir os problemas internos e atrasos da companhia, que vivia na sombra de sua rival SpaceX. Enquanto a empresa de Elon Musk avançou ao ponto de lançar astronautas em órbita no ano passado - um feito inédito para uma companhia privada - a New Glenn, nave da Blue Origin de viagem orbital, enfrentava dificuldades para voar. A primeira viagem com o veículo estava prevista para este ano, mas foi adiada para o final de 2022 após a empresa de Bezos perder um contrato com o Pentágono.

Na visão de Stone, apesar de o voo desta terça ter suprido o sonho de Jeff Bezos de ir para o espaço, a Blue Origin ainda tem um longo caminho a percorrer para causar algum impacto na SpaceX. "Eles precisam mostrar sucesso com a New Glenn para afetar a SpaceX de alguma forma", afirma ele, que também é autor de A Loja de Tudo (Editora Intrínseca), outro livro sobre a Amazon publicado em 2014.

Em entrevista por videoconferência ao Estadão, Brad Stone falou sobre os planos da Blue Origin, os diferentes lados de Jeff Bezos e o futuro da Amazon sem o bilionário no comando. A seguir, os melhores momentos da conversa.

No livro, o sr. descreve que, em 2016, a Blue Origin trazia dores de cabeça para Bezos. Agora, a empresa realizou com sucesso seu primeiro voo tripulado. O que mudou neste meio tempo?

Não sei se a Blue Origin realmente resolveu algumas de suas disfunções internas. A empresa certamente não tem muito a mostrar: o foguete orbital New Glenn está atrasado e também houve perda de contratos para a SpaceX, incluindo o de viagem à Lua. A Blue Origin ainda tem muito a provar. É difícil ver esta viagem como uma verdadeira virada para a companhia. A ideia por trás da New Shepard é criar um negócio de turismo espacial. A Blue Origin ainda está há anos de distância de ser capaz de entregar viagens repetidamente, com regularidade e segurança. Como evidência disso eu aponto o fato de a cápsula New Shepard ter seis assentos, mas só quatro terem sido ocupados - eles ainda não são capazes de testar a capacidade total da espaçonave. É um momento interessante, supre o sonho do Bezos de ir para o espaço, mas ainda não parece que a Blue Origin consiga operar como a SpaceX.

A viagem marca um novo momento para a Blue Origin?

O futuro da Blue Origin não é a New Shepard, e sim a New Glenn e programas orbitais. A empresa precisa se provar como fornecedora para o governo dos Estados Unidos e também para outros parceiros comerciais ao redor do mundo. A Blue Origin tem perdido contratos com a Nasa. Ela precisa terminar a New Glenn e começar a competir para ganhar alguns desses contratos. O futuro para a Blue Origin não é ser apenas um projeto que Jeff Bezos está financiando, mas uma empresa como a SpaceX, que é independente e pode avançar por conta própria.

Que mensagem a viagem da Blue Origin deixa para sua rival SpaceX?

A Blue Origin foi fundada antes da SpaceX, mas ao longo do tempo Jeff Bezos acabou acelerando suas ambições por causa da rival. O sucesso da Blue Origin com esse voo não impacta a SpaceX e o Elon Musk em nada. São negócios diferentes: é um segmento de voo suborbital, e ainda faltam resultados para a Blue Origin conquistar contratos com viagens orbitais e missões para Lua e Marte. De novo, eles precisam mostrar sucesso com a New Glenn para impactar a SpaceX de alguma forma.

Foi uma surpresa Jeff Bezos embarcar neste voo?

Fiquei um pouco surpreso porque pareceu um risco. Foi a primeira viagem da New Shepard com humanos, o que é um voto de confiança extraordinário no time dele e na nave. Sei que eles testaram dezenas de vezes, mas ele entrou em um foguete, e foguetes são perigosos. Fiquei surpreso que ele aceitou esse risco tão pessoal de ser o primeiro passageiro da nave. Ele esperou e deixou o cargo de CEO na Amazon antes de viajar: claramente havia um sentimento de que a ideia não seria bem recebida por investidores da empresa se ele viajasse ainda como CEO.

O sr. conta que Jeff Bezos mudou ao longo dos últimos anos: deixou de ser só um "nerd" para se tornar um grande CEO, empreendedor de exploração espacial, monopolista, inimigo dos pequenos negócios, entre outras coisas. O que explica essa mudança?

Acho que ele é naturalmente curioso e gosta de ter novas experiências. E o mundo se abriu para ele: o sucesso da Amazon e o crescimento de sua riqueza foi como um "passe livre" para novas experiências. A compra do Washington Post foi uma prova disso - e essa aquisição levou Bezos a conflitos inesperados com a administração Trump, por exemplo. Ele também começou a ser convidado e, inclusive, a promover festas anuais de Hollywood. Ao passo que seus olhos se abriram para um mundo maior, Bezos começou a gostar desse estilo de vida - e por causa disso deixou de ser uma pessoa obsessivamente focada na Amazon.

Como essa mudança de Bezos impactou a Blue Origin?

Ao se tornar o homem mais rico do mundo, ele passa a ser mais um visionário e inventor do que um operador de uma empresa de varejo. Ser um pioneiro do espaço era importante para ele - e Elon Musk o eclipsou. Eu descrevo no livro como Bezos aumentou as ambições e a urgência na Blue Origin em grande parte para bater de frente com a SpaceX.

Daqui para frente, sem a Amazon, devemos ver um Jeff Bezos mais preocupado com exploração espacial e filantropia?

Acho que sim. A saída dele como CEO indica que ele passará mais tempo em outras coisas. E ele fala da Blue Origin como o trabalho mais importante que está fazendo - também está dedicando US$ 10 bilhões e boa parte de seu tempo para o Bezos Earth Fund, de combate à mudança climática.

A saída de Jeff Bezos é uma forma de a Amazon melhorar sua imagem?

É provável. Quando Bezos fala em nome da Amazon - em um depoimento diante de reguladores, por exemplo - ele carrega muita bagagem. É a pessoa mais rica do mundo, que personifica a desigualdade de renda. E, verdade seja dita, Bezos é a mente por trás de várias políticas da Amazon, de táticas de negócio e do tipo de relação com os funcionários dos centros de distribuição. Andy Jassy representa uma figura completamente diferente: ele é mais humilde e não é a pessoa mais rica do mundo. Jassy também tem um pouco mais de credibilidade porque não é o responsável pela forma como a Amazon operou nos últimos anos.

O que podemos esperar desse novo momento da Amazon com Andy Jassy como CEO?

Devemos ver uma companhia que não estará em luta constante. Será uma Amazon que não lutará contra regulações, mas sim concordará mais com as mudanças, a fim de conseguir conquistar de volta a simpatia que perdeu nos últimos anos.

Qual foi a diferença de escrever um livro sobre a Amazon em 2014 e agora em 2021?

Comecei a escrever A Loja de Tudo em 2011. Naquele momento, a Amazon era disruptiva, mas apenas em pequenos espaços da economia. As pessoas falavam muito de Google, Facebook, Microsoft e Apple, enquanto a Amazon de alguma forma ficava em segundo plano - era uma empresa reclusa e sua sede ficava em Seattle (e não no Vale do Silício). Além disso, apesar de a Amazon entregar novidades como o Kindle, as pessoas a enxergavam muito mais como uma empresa da primeira geração da internet. Quando comecei este novo livro, apenas cinco anos depois, o cenário mudou completamente. A forma como a Amazon estava transformando a indústria de livros passou a impactar toda a economia. A Amazon se tornou uma das companhias mais dominantes do mundo, e Jeff Bezos se tornou provavelmente o CEO vivo mais famoso do mundo. E também foi se tornando um CEO controverso.

Estadão
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