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Startups se prepararam para o apocalipse, mas tiveram uma surpresa

Empresas de tecnologia fizeram demissões e até imaginaram a falência no começo da pandemia, mas a recuperação veio mais rápido do que imaginavam

14 ago 2020
05h10
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A startup Getaround, aplicativo de carona, começou o ano demitindo 150 funcionários e reduzindo suas operações depois de ter feito grandes gastos numa expansão rápida.

Dois meses depois, com a propagação do coronavírus, as atividades pioraram ainda mais. A companhia demitiu mais 100 empregados e os que ficaram concordaram com um corte dos seus salários. A empresa obteve um empréstimo de US$ 5 milhões a US$ 10 milhões e enfrentou rumores de que iria à falência.

Mas, em maio, algo inesperado ocorreu. A Getaround se recuperou com as pessoas começando a usar os seus serviços para voltarem a trabalhar. A receita da companhia nos Estados Unidos neste ano hoje está 40% superior ao registrado no ano anterior. No mês passado, ela chamou de volta os funcionários licenciados e começou a contratar novos.

"Temos visto uma recuperação muito rápida", disse Sam Zaid, diretor executivo da empresa, acrescentando que agora está levantando mais dinheiro. "É uma aventura".

Quando a pandemia do coronavírus se abateu sobre o país, em março, muitas startups de tecnologia se prepararam para o fim, com o cessar das suas atividades, investidores alertando para tempos sombrios à frente e especialistas em restruturações prevendo o início de uma "grande guinada" depois de um boom que durou uma década. Cinco meses depois e esses alertas apocalípticos não se traduziram no abalo que muitos esperavam.

O financiamento para as jovens empresas tem sido robusto, particularmente para as startups de maior porte. Algumas delas, como o aplicativo de trading de ações Robinhood, e o site de mídia social Discord, arrecadaram centenas de milhões de dólares em capital novo nos últimos meses, registrando uma maior valorização. E as ofertas iniciais na bolsa de empresas de tecnologia ganharam fôlego, junto com um mercado acionário em ascensão.

"As coisas estão muito melhores do que nossos temores há 90 dias", disse Rich Wong, investidor da Accel, empresa de capital do risco no Vale do Silício.

A estabilização criou uma desconexão surreal entre as startups de tecnologia e a economia geral. Enquanto lojas, restaurantes e muitas outras empresas vêm entrando com pedidos de recuperação judicial ou enfrentando uma das piores recessões da história, o setor de tecnologia evitou o pior da destruição.

A demanda aumentou para startups que oferecem aprendizado virtual, telemedicina, e-commerce, videogames, serviços de streaming e software para trabalho remoto. Startups em áreas como fitness, atividade infantil também adaptaram suas ofertas no campo virtual.

O que não significa que as startups de tecnologia escaparam ilesas — algumas, como as que oferecem serviços de viagem, software de restaurantes ou ingressos para eventos, viram sua receita evaporar. Stay Alfred, startup de hospitalidade de luxo, de Washington, começou recentemente a eliminar suas operações por causa do vírus, do mesmo modo que a ScaleFactor, startup de contabilidade, do Texas, e a Stockwell, startup de máquinas automáticas para escritórios, conhecida como Bodega.

No geral, o dinheiro continua fluindo. As startups nos Estados Unidos levantaram US$ 34,3 bilhões no segundo trimestre, pouco abaixo dos US$ 36 bilhões há um ano, de acordo com o PitchBook e a National Venture Capital Association. Grande parte do financiamento foi para as empresas maiores, com o número de "mega rodadas" (acordos de mais de US$ 100 milhões) a caminho de superar o total do ano passado.

"As pessoas vêm tentando focar naqueles que acham que serão os grandes vencedores, companhias que deram uma reviravolta com sucesso e se adaptaram à nova norma", disse Heather Gates, diretor gerente da Deloitte.

Por todo o Vale do Silício, o pânico começou a dissipar em maio. Foi quando as demissões diminuíram ao mínimo, de acordo com o Layoffs fyi, site que monitora os licenciamentos de funcionários nas startups. Somente 5% das empresas encerraram as atividades segundo o site.

As contratações começam a crescer. As ofertas de vagas postadas numa rede administrada pela Drafte, empresa de recrutamento, aumentaram 30% no mês passado, afirmou Vinaiak Ranade, o diretor executivo.

Os gastos também começaram a aumentar. A Brex, que fornece cartões de crédito corporativo para cerca de 10 mil startups nos Estados Unidos, informou que as despesas feitas em itens como software, servidores e anúncios estão agora mais de um terço acima das de fevereiro — embora gastos com viagens de negócios e snacks para escritórios continuem fracos.

Parte da mudança foi estimulada pelas startups que adaptaram seus negócios à pandemia. Uma delas foi a Activity Hero, loja online para atividades infantis. Em abril, as reservas na startup de San Francisco caíram 88% com o cancelamento dos acampamentos de verão no país, disse Peggy Chang, diretora executiva. Ela se preocupava de que a companhia não conseguiria sobreviver.

Assim, a empresa incentivou seus provedores a oferecerem atividades virtuais, promovendo aulas gratuitas e pequenos descontos para os pais. No verão as reservas retornaram, apenas online. Agora, disse Chang, ela vê nas atividades online um trampolim para expandir mais rapidamente quando as atividades presenciais retornarem.

Algumas startups de maior porte aproveitaram a oportunidade para arrecadar mais dinheiro dos investidores. DoorDash e Instacart, dois serviços de delivery que ficaram muito populares na pandemia, levantaram, coletivamente, mais de US$ 600 milhões em financiamentos em junho, e agora seu valor aumentou, com a Doordash avaliada em US$ 16 bilhões e a Instacart em US$ 13,7 bilhões.

A Robinhood, startup de trading online, levantou US$ 280 milhões em maio e mais US$ 320 milhões em junho. Canva, provedora de software de design online, viu seu crescimento acelerar à medida que mais pessoas passaram a trabalhar remotamente, e teve sua valorização dobrada para US$ 6 bilhões em junho. Discord, serviço de chat de mídia social cujo uso cresceu 50% na pandemia arrecadou US$ 100 milhões de financiamento em junho, em poucas semanas.

Ruben Flores-Martinez, fundador da Cashdrop, startup de e-commerce, disse não ter conseguido obter financiamento para sua companhia em janeiro. Mas o vírus levou os comerciantes locais a aderirem à atividade on-line e com isto centenas deles passaram a usar o software da Cashdrop.

"A covid chegou e acelerou as coisas exponencialmente", disse Flores-Martinez, que em julho conseguiu um financiamento de US$ 2,7 milhões para sua companhia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Estadão
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