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Será que você vai lembrar de todas esses aniversários e festas no Zoom?

Adaptar-se à quarentena faz parte do novo normal, mas as lembranças desses eventos podem ficar bem embaralhadas na memória, alertam médicos e especialistas

3 ago 2020
05h10
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Quando Marisa Heller relata os eventos que participou pelo Zoom, ela tem dificuldade em distingui-los: festa de casamento, reuniões de trabalho, festas de aniversário infantil. "Eles estão todos se misturando. Quem esteve nesta reunião? Ou quem esteve neste evento?" diz Marisa, de 34 anos, que mora em um subúrbio nos arredores de São Francisco. Questionada a respeito de quantas festas de aniversário pelo Zoom ela compareceu, ela se vê pensando: "Espere, foi aniversário ou Páscoa?".

Por um breve momento em março, parecia que calendários poderiam ser liberados [de todos os eventos marcados] para retardar o surto do novo coronavírus. Mas, tão rapidamente quanto os eventos foram cancelados, surgiram suas substituições: happy hours virtuais, sessões de networking, sets de DJ, clubes do livro, grupos de meditação. As paredes dos quartos seriam transmitidas para mães e gerentes. Mesas de banquetes e de bares seriam remodeladas no formato de grade do Zoom. Qualquer evento, ao que parece, poderia ser adaptado e facilmente realizado online.

Mas a zoomificação de tudo não conseguiu impedir que os fios condutores da narrativa da vida se desfizessem. Para aqueles que tiveram o privilégio de estar saudáveis e presos em casa, os dias pareciam iguais, as semanas se acumulavam. E agora surge uma pergunta: daqui a alguns anos, o que realmente lembraremos desses eventos da vida?

Sem os cheiros, sons e texturas dos espaços que costumávamos habitar, a vida em confinamento pode parecer retrospectivamente como um programa de TV sem enredo, onde somos ao mesmo tempo um ator ruim e uma audiência entediada. São os detalhes que impregnam as memórias com especificidade e significado - e sem eles, apesar de nossos esforços virtuais, nossos grandes momentos de 2020 podem acabar se tornando um borrão.

Parte do problema é que processamos eventos por meio do que acontece entre eles: em caronas de carro com os amigos depois de uma festa ou enquanto olhamos pela janela do trem voltando do trabalho. "Essas transições são importantes para repassarmos o que aconteceu e dar significado a isso ", diz Benjamin Storm, professor de psicologia que estuda memória na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. "Agora, parece que basta clicar e acabou, "bum" e, depois, passamos para a próxima coisa. Podemos não consolidar as memórias e dar sentido aos eventos da mesma maneira, e talvez não nos lembremos deles."

Isso pode explicar por que Aniela Valtierra, de 35 anos, uma organizadora de eventos de São Francisco, tenha esquecido tudo: conversas que teve, qual programa de TV assistiu ontem e até coisas simples como fechar a porta da geladeira. "Tudo é tão confuso", diz ela, "não há senso de separação entre estar em um escritório, entrar em um carro e entrar no seu quarto".

Nossas mentes segmentam a realidade com base em mudanças ao nosso redor: como quando você passa por uma porta ou quando uma nova pessoa entra na sala. Os psicólogos chamam isso de "limites de eventos". "Algumas pesquisas recentes mostraram que, se você tem mais limites de eventos, isso ajuda a finalizar sua experiência e você se lembra melhor [dela]", diz Gabriel Radvansky, professor de psicologia da Universidade de Notre Dame, que foi o primeiro a escrever a respeito do "efeito porta".

Para muitos, em um mundo simplificado sem paredes e composto por uma de tela de computador, supermercado e alguns cômodos em casa, as oportunidades para esses limites são reduzidas. "O problema com as janelas do Zoom é que todas são parecidas, então você tem todas essas situações muito semelhantes e começa a ficar confuso", acrescenta. "Usamos a localização espacial para ajudar a codificar as memórias, e se você tem muitas coisas acontecendo no mesmo lugar, você recebe muita interferência e a memória é pior."

Leslie Feinzaig, de 41 anos, fundadora e presidente executiva da Female Founders Alliance, Seattle, passou a trabalhar remotamente em março e brinca que ela transformou sua vida em uma videochamada gigante. Os detalhes da festa de aniversário por Zoom de sua filha se destacam em sua memória, mas o resto da quarentena parece "um grande borrão". "Sabe quando a temporada de um esporte é interrompida e as médias de um jogador ficam com um asterisco ao lado? Eu sinto que nossas vidas estão ficando com um asterisco", diz ela.

Mesmo que haja alguma variação visual em seus eventos - digamos, na variedade de obras de arte no cenário atrás de seus amigos - ela é achatada por uma escassez de informações em outros lugares. Se você encontrar um amigo em um restaurante, haverá todo tipo de sensação: "as luzes e as pessoas que passam, a comida, os sabores e os cheiros", diz Aniela, "enquanto no Zoom, você pode estar sentado em uma cadeira e suas costas doem porque ficou sentado o dia inteiro trabalhando ".

Distrações que nos tiram do momento também podem ser destrutivas para a memória. Em reuniões físicas, suportamos silêncios embaraçosos e digressões chatas. Mas no mundo online, mesmo o convidado mais bem-intencionado do evento por Zoom não pode deixar de ser tentado pelos e-mails aparecendo e as brigas no Twitter aguardando em outra janela - sem falar de prestar atenção aos cenários desarrumados e nos cabelos desastrosos da quarentena retratados em nossos próprios feeds de vídeo.

Pode ser que nos lembremos menos de um evento virtual porque o que acontece é simplesmente menos interessante. Steve Whittaker, professor de interação humano-computador na UC Santa Cruz, descobriu que as videochamadas dificultam tanto a troca de ideias para o trabalho como o bate-papo mais informal. O lapso de tempo leva as pessoas a contar menos piadas do que quando estão reunidas pessoalmente, ele aponta, e até reuniões com amigos próximos ou familiares podem parecer um pouco "orientadas por regras demais".

Aniela, que participou de vários eventos de gala online, notou que a etiqueta de permanecer em silêncio enquanto outra pessoa fala afeta a experiência social. "É quase coordenado demais, controlado demais", diz ela.

Shakeelah Sutton, uma instrutora de yoga em D.C., não esquecerá de ser forçada a comemorar seu aniversário de 30 anos sentada em sua sala de estar, mas as memórias de happy hours virtuais que ela organizou serão apagadas. Ela enviou uma mensagem convidando todos a tomar uma bebida antes de começarem a videochamada. Ninguém bebeu. E como algumas pessoas do grupo não se conheciam, ela se sentiu pressionada a criar uma conversa envolvente do nada. "Eu queria que todos se divertissem, mas estávamos todos meio que sentados olhando um para o outro", lembra ela.

Muitas das experiências mais memoráveis da vida vêm de encontros casuais e momentos inesperados que as videoconferências minimizam. Talvez seja por isso que as memórias mais evidentes dos eventos virtuais sejam da tecnologia que não está fazendo o que deveria fazer.

Quando Leslie relembra a festa de aniversário de 1 ano da filha pelo Zoom, ela se recorda de como foi impossível cantar parabéns em sincronia. Mica Annis, formada em 2020 pela American University, lembra-se de voltar atrás na transmissão ao vivo de sua colação de grau virtual porque os slides estavam passando tão rápido que ela não conseguiu ver o próprio nome na tela.

Yusuf Sarfati, professor da Universidade do Estado de Illinois, participou de um bar mitzvah por Zoom e lembra de seus pais passando por trás dele e acenando durante todo o evento. A tela estava no modo de exibição do orador, onde a pessoa que fala aparece em uma grande janela e seus achavam que cada um estava falando diretamente com eles.

Poderíamos ter pensado que, no mínimo, socializar em casa limitaria contratempos embaraçosos. Não há mais escadas para tropeçar ou camisas brancas para manchar com vinho tinto. Mas os contratempos são inevitáveis, e ao acontecerem online, eles podem ser a única coisa que torne uma festa memorável. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Estadão
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