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Robôs devem ter aparência humana ou não?

Estudiosos e desenvolvedores de inteligência artificial discutem riscos e vantagens de criarmos robôs cada vez mais 'humanos'.

23 ago 2019
07h41
atualizado às 09h29
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Robôs com aparências e movimentos parecidos com os dos humanos são figurinha fácil na cultura popular.

Cena do episódio 'Rachel, Jack and Ashley Too', da série 'Black Mirror'; representantes do setor da tecnologia se dividem sobre o quanto robôs devem se parecer conosco
Cena do episódio 'Rachel, Jack and Ashley Too', da série 'Black Mirror'; representantes do setor da tecnologia se dividem sobre o quanto robôs devem se parecer conosco
Foto: Divulgação/Netflix / BBC News Brasil

Dos romances robóticos de Isaac Asimov e o Número 5 do filme O incrível robô aos Vingadores: A Era de Ultron - parece que, no nosso imaginário, robôs aparecem cada vez mais como seres sensíveis, donos de uma consciência quase humana.

Mas será que a perspectiva dos robôs se tornarem quase indistinguíveis dos humanos é mesmo desejável e realista?

Ben Goertzel, que programou a inteligência artificial de Sophia, uma robô humanoide social da empresa Hanson Robotics, de Hong Kong, acredita que robôs devem ser parecidos com humanos para ajudar a "quebrar desconfianças e reservas que as pessoas possam ter".

"Robôs humanoides existirão porque as pessoas gostam deles", diz à BBC. "Elas preferem dar ordens ou reclamar de seu parceiro com um robô humanoide do que com um Roomba [robô aspirador de pó]."

"A Sophia olha nos seus olhos, espelha seus movimentos faciais. É uma experiência diferente de olhar para uma tela no peito do Pepper [robô semi-humanoide da SoftBank Robotics]."

Existem hoje 20 robôs Sophia pelo mundo, e seis deles são usados para apresentar a tecnologia.

Várias empresas se aproximaram da Hanson Robotics com o interesse de usar Sophia para receber seus clientes, mas robôs humanoides como Sophia e Pepper ainda são caros demais para fabricar em série, diz Goertzel.

No entanto, muitos desenvolvedores de robôs discordam dessa abordagem.

'Vale da estranheza'

Dor Skuler, cofundador e executivo da Intuition Robotics, opõe-se frontalmente à produção de robôs que se parecem ou soam como humanos.

Sua empresa fabrica a ElliQ, uma pequena robô socializadora para idosos criada para combater a solidão. Ela é capaz de falar e responder perguntas, mas constantemente lembra os usuários de que estão diante de uma máquina, não de um ser humano.

Skuler se preocupa com o chamado efeito "vale da estranheza" - a ideia de Masahiro Mori de que quanto mais algo não humano se parecer com um humano, mais nós o acharemos inquietante e repulsivo.

O empresário acha também que é eticamente errado que os robôs se passem por humanos.

Inevitavelmente, as pessoas um dia perceberão que o robô não é real, diz, e elas se sentirão traídas: "Não vejo o sentido em tentar enganar e ao mesmo tempo atender às necessidades."

"ElliQ é fofa, uma amiga. Pelas nossas pesquisas, um objeto ainda é capaz de criar uma afinidade positiva e aliviar a solidão. Isso sem precisar se parecer como um humano."

Reid Simmons, professor do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, concorda.

Olhar e gestual humanos

"O que muitos acreditamos é que é suficiente para um robô ter características humanas básicas como olhar e gestual, sem que precise ter uma forma humana hiper-realista."

"Sou um grande defensor de que precisamos evitar o vale da estranheza, porque ele cria expectativas que a tecnologia não pode cumprir."

Goertzel, que fundou a SingularityNet, um ambiente de negócios online em que programadores desenvolvem e vendem ferramentas de inteligência artificial para robôs como Sophia, acredita que um dia os robôs se tornarão tão inteligentes, ou mais, que os humanos.

E, quanto mais virmos versões humanoides no entorno, mais rápido nos acostumaremos. Segundo ele, às vezes é mais fácil se abrir com máquinas não-humanas.

Mas será que um dia chegaremos àquele cenário de ficção científica em que robôs ganham consciência, liberdade de escolha e talvez até direitos sob a lei?

"Acho que se os robôs podem ter a mesma inteligência que humanos, então, também podem ter a mesma consciência", prevê Goertzel.

Essa expectativa não é rara no campo da inteligência artificial, tampouco é unânime.

"Há cinco anos, inteligência artificial era cantinho obscuro da pesquisa. Agora, ela é levada a sério até por grandes empresas, como o Google DeepMind", aponta.

"Precisamos que robôs sejam tenham mais compaixão que os humanos, mas que, ao mesmo tempo, não imitem seus vícios emocionais."

Há quem discorde.

"É impossível", diz Skuler. "A emoção é um traço distintivamente humano. É uma característica das coisas vivas."

"Moral e autoestima não podem ser reduzidas a um conjunto de regras e algoritmos. São sentimentos baseados na ética que cresce conosco como pessoas."

Mas a inteligência artificial pode reproduzir o comportamento humano e até as reações, mesmo que não possa experimentar as emoções em si, ele diz.

O Número 5, do filme 'O incrível robô', sabia que ele não era uma máquina qualquer
O Número 5, do filme 'O incrível robô', sabia que ele não era uma máquina qualquer
Foto: TriStar Pictures / Sony Pictures / BBC News Brasil

O cérebro humano poderá ser reproduzido em máquinas?

Atualmente, a Intuition Robotics colabora com o Instituto de Pesquisas Toyota para desenvolver um agente interno que funcione como uma companhia digital no automóvel. O objetivo é aumentar a segurança de motoristas e passageiros, detectando e compreendendo emoções nas palavras.

"Sinto que estamos no estágio pré-científico da inteligência artificial. Há todo tipo de característica impressionante no aprendizado das máquinas, mas em termos de inteligência, simplesmente não entendemos ainda suficientemente os princípios básicos", diz Simmons.

"As pessoas querem que a inteligência artificial funcione, mas não acho que temos o entendimento suficiente para chegar lá."

Em um episódio recente da série de TV Black Mirror, Miley Cyrus interpreta uma estrela do pop que tem sua mente transformada em um sistema de inteligência artificial. Tudo para para que pequenas bonecas-robôs chamadas Ashley Too possam ser fabricadas e vendidas como companhia para adolescentes.

Este tipo de premissa continuará como ficção, mas não será realidade, para alguns especialistas.

"Eu diria que fazer download de um cérebro ou da personalidade de alguém não é possível. Estamos longe de sermos capazes de replicar o cérebro humano", diz Simmons.

Mas Goertzel insiste que nos anos 1920, "quando [o inventor Nikola] Tesla introduziu os robôs, ninguém acreditou nele, mas agora eles existem."

"As coisas acontecerão para além do pensamento humano."

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