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Relação de Musk com China pode criar dores de cabeça para o Twitter

Partido Comunista Chinês proíbe que seus cidadãos usem a plataforma no país

12 mai 2022 05h10
| atualizado às 06h04
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Quando Elon Musk abriu uma fábrica da Tesla em Xangai em 2019, o governo chinês o recebeu com bilhões de dólares em terrenos baratos, empréstimos, incentivos fiscais e subsídios. "Acho mesmo que a China é o futuro", ele declarou.

A trajetória da Tesla desde então tem sido lucrativa, com um quarto da receita da empresa em 2021 sendo proveniente da China, mas não sem problemas. No ano passado, a empresa enfrentou a revolta dos consumidores e de reguladores na China devido a falhas na fabricação dos veículos.

Após sua transação para assumir o controle do Twitter, a relação de Musk com a China está prestes a ficar ainda mais tensa.

Como todos os investidores estrangeiros na China, ele opera a Tesla segundo a vontade das autoridades do país, que já se mostraram dispostas a influenciar ou punir empresas que ultrapassam limites políticos inegociáveis. Até mesmo a Apple, a empresa mais valiosa do mundo, cedeu às exigências chinesas, inclusive censurando sua loja de aplicativos.

Os abundantes investimentos de Musk na China poderiam estar em risco se o Twitter incomodar o Estado do Partido Comunista, que proibiu a plataforma no país, mas a usa bastante para impulsionar a política externa de Pequim pelo mundo - muitas vezes com informações falsas ou equivocadas.

Ao mesmo tempo, a China agora tem um investidor complacente que está assumindo o controle de um dos megafones mais influentes do mundo. Musk não disse nada publicamente, por exemplo, quando as autoridades em Xangai fecharam a fábrica da Tesla como parte da tentativa da cidade de controlar o mais recente surto de covid-19, mesmo depois de criticar severamente as autoridades do condado de Alameda, na Califórnia, por uma medida semelhante quando a pandemia começou em 2020.

"É preocupante pensar no que poderia ser um conflito de interesses nessas circunstâncias, levando em consideração a desinformação que pode vir da China", disse Jessica Maddox, professora de tecnologia de mídia digital da Universidade do Alabama. "De que maneira ele, agora como proprietário desta empresa, lidaria com isso, já que todos os seus investimentos ou a maioria deles estão conectados com o país?"

Até mesmo Jeff Bezos, fundador da Amazon e um dos maiores rivais de Musk nos setores de tecnologia, transporte espacial e agora mídia, entrou na conversa (usando o Twitter) para questionar a possível influência da China sobre a plataforma. "O governo chinês acabou de ganhar um pouquinho de poder sobre a praça da cidade?" escreveu Bezos.

Musk não detalhou seus planos de mudanças para o Twitter, a não ser prometer deixar a plataforma livre para a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que proíbe bots e contas que não são operadas por pessoas e povoam a base de usuários da rede. Mesmo essa simples promessa em relação aos bots pode irritar os propagandistas da China, que compram assumidamente contas falsas e as utilizam para enfraquecer alegações de abusos de direitos humanos em Xinjiang. Não está claro se ele pretende restaurar contas ou retirar o símbolo de verificação que identifica alguns dos usuários de maior destaque de Pequim como autoridades do país.

Musk não respondeu a um e-mail solicitando comentários. Uma porta-voz do Twitter também não quis se pronunciar.

O que está claro é que a China reconhece a capacidade do Twitter de espalhar informações. O governo proibiu a plataforma em 2009 em meio a conflitos étnicos entre muçulmanos uigures e chineses han em Urumqi, capital de Xinjiang, região na qual o governo mais tarde iniciou uma ação de detenção em massa e reeducação que os Estados Unidos consideram como genocídio.

Apesar da proibição, a China reforçou seus esforços para usar a plataforma para aumentar a influência do país no exterior. Essas movimentações se intensificaram em 2019, quando imagens de protestos pró-democracia em Hong Kong se espalharam pelo mundo afora com a internet. A mídia estatal da China recuou com táticas muitas vezes reservadas para seu público interno, acusando a CIA de orquestrar as manifestações e transmitindo repetidamente vídeos sensacionalistas de violências cometidas pelos manifestantes, enquanto ignorava a brutalidade policial contra as multidões.

Um coro crescente de diplomatas chineses, muitos deles novatos no Twitter, começou a ecoar o tom severo da mídia estatal, querendo abafar os críticos e atacando de forma direta os países que ofereciam encorajamento a eles. Descritas como "lobos guerreiros" em referência a um conhecido filme nacionalista chinês de mesmo título, essas autoridades receberam apoio de um grupo obscuro de contas semelhantes a bots. No final de 2019, o Twitter identificou e desativou muitas delas. O Facebook e o YouTube seguiram os passos da plataforma fazendo suas próprias faxinas.

Sem se intimidar, o governo da China redobrou seus esforços quando a pandemia de covid-19 começou. Muitos dos diplomatas e representantes da mídia estatal usaram o Twitter para espalhar teorias da conspiração, argumentando que o novo coronavírus havia sido liberado de um laboratório de armas biológicas dos EUA e questionando a segurança das vacinas que usavam o RNA mensageiro (mRNA).

Desde então, redes operadas por bots postando em conjunto com diplomatas e com a mídia estatal divulgaram vídeos contestando violações de direitos humanos em Xinjiang; minimizando o desaparecimento de Peng Shuai, a tenista profissional chinesa que acusou um ex-vice-primeiro-ministro chinês de assédio sexual; e enaltecendo o sucesso dos Jogos Olímpicos de inverno em Pequim este ano.

Em meio a tudo isso, o Twitter divulgou relatórios a respeito dessas redes, muitas vezes com a ajuda de especialistas em segurança cibernética, que as conectavam ao governo da China ou ao Partido Comunista Chinês. A empresa foi uma das primeiras a identificar contas apoiadas pelo governo e, mais recentemente, a usar a etiqueta "afiliada ao Estado da China" para links que direcionam a conteúdos da mídia estatal.

Mesmo conhecendo as técnicas da China, o Twitter tem tido dificuldades para deter as ações de comunicação do país, disse Darren Linvill, professor da Universidade Clemson que estuda a desinformação nas mídias sociais.

"Não importa se uma conta individual ou mesmo milhares de contas são desativadas", afirmou. "Eles criam outras e em uma velocidade incrível que, no momento em que a conta é desativada (processo que costuma acontecer de forma rápida), ela já alcançou seu objetivo."

"Muito da desinformação, como a promovida pela Rússia, diz respeito a criar ou ampliar narrativas. Muito da desinformação chinesa tem relação com reprimi-las", disse ele.

Como novo proprietário do Twitter, Musk talvez encare a pressão chinesa a respeito de outras questões também. Elas incluem não apenas exigências de autoridades para censurar informações online mesmo fora do "Grande Firewall da China" - descrições de Taiwan como outra coisa que não seja uma província do país, por exemplo -, mas também as prisões de usuários do Twitter na China.

Lá, a aquisição de Musk provocou temores de que as autoridades tenham ainda mais instrumentos para censurar seus críticos, alguns dos quais usam tecnologia para contornar a proibição do Twitter.

O famoso escritor Murong Xuecun foi interrogado durante quatro horas pela polícia em 2019 por causa de dois tuítes que ele havia postado três anos antes. Um deles mostrava uma imagem claramente editada do principal líder da China, Xi Jinping, nu sobre uma bola de demolição. O outro era uma charge que apresentava Xi atirando nas renas do Papai Noel.

"Acho que o governo chinês ficará contente por ele ter comprado o Twitter", disse Murong, "e no futuro, o governo usará as empresas dele na China para pressioná-lo a controlar o Twitter e ajudar a censurar aqueles que criticam o Partido Comunista e o governo da China".

Em particular, Murong disse que ele e seus amigos chamam a perseguição aos usuários da rede social dentro da China de "limpeza do Twitter". Ele acredita que a polícia interrogou dezenas de milhares, senão centenas de milhares, de pessoas sobre as postagens delas nos últimos anos. As ações de punição e o número crescente de autoridades chinesas no Twitter evidenciam que o governo se preocupa profundamente com o que é dito nas redes sociais estrangeiras, afirmou, descrevendo os esforços das autoridades como uma tentativa de "criar guerras de opinião pública e ideológicas" no exterior.

"Este governo fez muitas coisas semelhantes e não vai parar no futuro", disse ele. "Não sei como Musk vai lidar com essa pressão, mas considerando seu comportamento em relação à China, acho que ele pode se transformar em uma grande máquina de censura chinesa."

Um porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, ignorou as perguntas enviadas com relação ao Twitter e os investimentos de Musk no país.

"Percebo que você é muito bom em especular, mas sem qualquer embasamento", ele respondeu a uma pergunta.

Até mesmo Bezos alterou sua publicação a respeito da possível influência da China sobre o Twitter e sugeriu que Musk poderia alcançar com destreza um equilíbrio.

"Musk é extremamente bom em lidar com esse tipo de complexidade", escreveu ele.

No entanto, um provável resultado da aquisição de Musk será menos transparência. Como uma empresa de capital aberto, o Twitter era submetido à pressão dos acionistas quando problemas com desinformação, desativação de contas e aplicação de regras afetavam o valor de suas ações. Isso, por sua vez, forçava a plataforma a explicar suas políticas de combate a ações de comunicação, como as provenientes da China. Com Musk planejando tornar o Twitter uma empresa de capital privado, há menos prerrogativas para atender tais questões.

"Mesmo que eu apenas aceite o que ele diz - sua concepção do Twitter como uma ferramenta ambiciosa para ajudar a impulsionar reformas mais democráticas e pró-democracia nos EUA e no exterior - ele basicamente criou um meio para a China entrar e manipular de forma disfarçada a mesma coisa que ele anunciou como uma forte defesa da liberdade de expressão", disse Angelo Carusone, presidente da organização sem fins lucrativos de monitoramento de mídias Media Matters for America. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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