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Qual é o maior problema da Apple?

Para colunista do 'NYT', maior desafio não é a China, mas os usuários que não veem necessidade de comprar um aparelho novo

10 jan 2019
05h11
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Quando a Apple perdeu mais de US$ 75 bilhões em valor de mercado na semana passada, após anunciar de surpresa que estava esperando vendas menores de iPhone do que havia projetado inicialmente, pôs a culpa de seus problemas na China, onde a desaceleração da economia e a guerra comercial com os Estados Unidos haviam afetado as vendas.

Mas talvez exista um problema maior para a Apple e bem mais perto dela, aqui mesmo, numa cidadezinha arborizada de Ohio. É onde mora minha mãe. Ela é aposentada, adepta da tecnologia e antiga fã da Apple, e há muitos anos usa produtos da empresa. Aprendi a digitar num Apple IIGS em seu escritório, e ela foi uma das primeiras a adotar o iMac turquesa original. Atualmente, ela usa seu iPhone para entrar no Facebook e no Instagram, conversar com os amigos e jogar paciência e Words With Friends.

Seu celular não é de último modelo - é um iPhone e 6S de três anos - e não tem alguns aperfeiçoamentos recentes. Mamãe não consegue tirar fotos de moda usando uma câmera de lente dupla (foi introduzida no iPhone 7 Plus) e não pode desbloquear seu celular usando o sistema de reconhecimento facial Face ID (introduzido no iPhone X em 2017). A bateria de seu celular também poderia ser um pouco mais potente, e o espaço de armazenamento às vezes se esgota.

Mas mamãe está satisfeita com ele e não vê necessidade de ter um mais novo. Ela também ainda usa um relógio Apple de primeira geração e um antigo notebook MacBook Air - e não pretende substituir nenhum dos dois em futuro próximo.

"Meu telefone faz quase tudo que preciso", disse ela quando perguntei por que não mudava para um modelo mais novo. "Por que pagar US$ 800 por um mais novo? Só para ficar mais atualizada? Minhas necessidades não são tão complicadas."

A maioria dos jornalistas que escreve sobre tecnologia costuma adotar os últimos dispositivos que surgem, dispondo-se a gastar mesmo com pequenos avanços. Para alguns deles, o anúncio da Apple foi um choque que prenuncia potenciais desastres para a empresa.

Mas, para mamãe, e muitos usuários que se assemelham a ela, a diminuição nas vendas de iPhone estão longe de ser um desastre. Na verdade, fazem todo sentido, e não têm muito a ver com a China. Numa carta aos investidores explicando a previsão negativa, Tim Cook, presidente executivo da Apple, confirmou uma demanda mais baixa que o esperado pelos novos smartphones, dizendo que os consumidores "estão tirando vantagem de reduções significativas no preço de troca de bateria do iPhone". A empresa não quis comentar o assunto.

A Apple vem enfrentando a concorrência de rivais como Samsung e Huawei, que inundaram o mercado internacional com Android de menor custo que são, em muitos casos, tão funcionais quanto o iPhone. E sim, também há problemas relacionados à guerra comercial do presidente Donald Trump com a China e a uma desaceleração econômica geral no país.

Troca. Mas o principal problema para o faturamento da Apple podem ser as pessoas que estão ficando por mais tempo com seu modelos usados. Em 2015, os celulares eram trocados em média a cada dois anos, segundo a empresa de pesquisas BayStreet Research, que monitora vendas de smartphones. Esse período saltou para três anos, e a previsão é que fique ainda maior.

"Estamos caminhando para um ciclo maior de uso antes da substituição", disse Chris Caso, analista de tecnologia do Raymond James. Muitos dos problemas da Apple são comuns a todos os fabricantes de smartphones. Novos componentes, como memória adicional e telas aperfeiçoadas, são mais caros que componentes antigos. Além disso, aparelhos usados e restaurados estão tendo mais procura, e operadoras como Verizon e AT&T não estão mais subsidiando a compra de novos celulares como faziam, o que torna mais alto o custo inicial para o consumidor.

"Por US$ 650, você tinha todos os aperfeiçoamentos, tela melhor, etc.", disse Caso. "Agora, um celular incrementado tem custo extra." Há também mudanças expressivas por parte da Apple. A mais recente versão do sistema operacional de celulares da empresa, iOS 12, foi projetada para melhorar o desempenho de antigos aparelhos. Com mais impermeabilidade e telas mais resistentes, o iPhone também tende a durar mais, e a lista de novos dispositivos "essenciais" encolheu. Com poucas exceções - como o Face ID e emojis animados -, não há quase nada que se faça com um modelo novo que não se passa fazer com antigo.

A Apple também foi vítima de seu próprio programa de substituição de bateria, que deu significativos descontos a muitos clientes após ser acusada de diminuir a eficácia de iPhone antigos. Esse programa levou muitos usuários a trocar a bateria em lugar de trocar de modelo.

Impacto. Tudo isso vem preocupando investidores de curto prazo, que querem que as pessoas comprem tantos iPhones novos quanto possível. Mas é ótimo para pessoas como minha mãe, que procuram manter os quais gostam e substituí-los com menor frequência. É também excelente para o meio ambiente - de acordo com o último relatório da Apple sobre sustentabilidade, cada novo aparelho pela companhia produzido gera em média 90 quilos de emissões de carbono.

Um celular mais durável pode também ser bom para a lucratividade da Apple no longo prazo. Como assinalou Brian Barrett na revista Wired, "um iPhone que dure mais mantém por mais tempo os consumidores no ecossistema iOS", o que também os torna mais propensos a continuar assinando serviços da empresa, como Apple Music, iCloud e outros.

O ciclo de substituição mais longo pode ser um fenômeno temporário se novas tecnologias - como a compatibilidade com as redes de celulares 5G, esperada para chegar em 2020 - levarem a novos aplicativos populares que não funcionam em celulares mais antigos.

"Se houver um novo aplicativo que não role no iPhone existente, ele entrará na lista de compras de todo adolescente", disse Caso.

Por enquanto, porém, embora os investidores não estejam satisfeitos com as atuais vendas da Apple, o restante de nós considera um sinal de progresso o fato de o consumidor estar tendo um pouco mais do que deseja: celulares resistentes e confiáveis que não se tornem obsoletos imediatamente após um novo modelo ser lançado.

Quando perguntei a mamãe o que a levaria a comprar um novo iPhone ela disse que poderia ser, por exemplo a chegada de um novo e imperdível dispositivo, ou seus aplicativos favoritos não funcionarem. Mas no fim admitiu que a mudança seria muito improvável. "Enquanto meu iPhone não cair e ficar em pedaços, provavelmente vou continuar com ele", previu. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Estadão

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