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Por que a odiada gigante chinesa da tecnologia decidiu dar uma de boazinha

A popularidade do Tencent pode ajudá-lo a evitar problemas com Pequim. Mas seu vasto poder ainda poderia acabar com a inovação no maior mercado digital do mundo.

10 jun 2021 05h13
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Poucos meses depois de Wang Xing fundar a Meituan, um serviço de e-commerce parecido com o Groupon, ele soube que a maior empresa de internet da China, a Tencent, havia iniciado um empreendimento similar.

"Há algum negócio que a Tencent não faria?", perguntou ele.

O questionamento de Wang levou a um artigo de revista, em 2010, a respeito da Tencent sob uma manchete tão profana e famosa — pense num equivalente em chinês para o f…-se — que dois graduados editores foram demitidos pouco após a publicação. A capa mostrava o mascote da Tencent, um pinguim gordinho com um cachecol vermelho, com facas cravadas no corpo e pingando sangue.

Dramático, talvez, mas naquela época o setor chinês de tecnologia considerava a Tencent inimiga pública número 1. A empresa não hesitava em copiar uma ideia de alguém e acabar com negócios de novos empreendimentos. Seus mais graduados executivos eram confrontados em conferências do setor e entrevistas à imprensa. Empreendedores qualificavam a Tencent como a mais desavergonhada ladra de ideias da indústria.

Mais de uma década depois, o governo chinês finalmente está controlando as empresas de tecnologia mais poderosas do país - mas não, pelo menos por agora, a Tencent. Enquanto a empresa recebeu poucas punições, o governo concentrou a maior parte de sua atenção em seu arquirrival, o Alibaba, o império de Jack Ma. O próximo alvo do governo? Poderá ser a Meituan, que já competiu com a Tencent.

Somente as agências reguladoras antitruste chinesas sabem por que não deram atenção plena à Tencent. Como maior e mais poderosa empresa de tecnologia da China, com um poder desproporcional para escolher vencedores e perdedores, a Tencent ainda pode chamar atenção das autoridades - que, provavelmente, deveriam investigá-lo.

(A Reuters noticiou que o governo chinês está considerando multar a Tencent em pelo menos US$ 1,54 bilhão em razão de falhas em relatar apropriadamente aquisições e investimentos passados para análises antitruste. Se a informação for verdadeira, a punição será menor do que a multa-recorde aplicada contra o Alibaba, em abril, de US$ 2,8 bilhões.)

Uma razão para isso pode ser que o setor não está mais clamando para alguém derrubar o Tencent. Na verdade, a empresa se tornou, de muitas maneiras, a principal e mais rica incentivadora da indústria. A Tencent conseguiu redefinir sua imagem injetando dinheiro em pequenos empreendimentos e comprando empresas competidoras, em vez de tirá-las dos negócios.

Longe de ser uma inimiga pública número 1, a Tencent agora ostenta a imagem similar à de um déspota esclarecido, que governa um mercado de tecnologia em expansão. Uma grande fatia do setor chinês de internet pertence agora ao que é conhecido como ambiente Tencent. Isso inclui as centenas de empresas em que a Tencent investiu, incluindo a de Wang — a Tencent é atualmente o maior acionista da Meituan, detendo 21% da companhia (a Meituan não respondeu a um pedido de comentário).

As empresas chinesas de tecnologia "resistiram quando a Tencent as copiava", diz um post de blog amplamente compartilhado. "Mas perderam a vontade de lutar e se renderam quando a Tencent mostrou o talão de cheque."

As relações amigáveis entre a Tencent e múltiplos atores do setor podem servir bem aos propósitos da empresa. Mas ainda poderia limitar a competição e, finalmente, prejudicar 1 bilhão de usuários de internet da China.

"Tanto o Alibaba como o Tencent controlam muitos recursos online", afirmou Yin Sheng, consultor do setor de tecnologia de Pequim. "Ambos são capazes de causar danos tremendos à nossa sociedade se decidirem fazer o mal."

A Tencent recusou-se a conversar com a reportagem. No passado, a empresa disse que investe em companhias inovadoras e de alta qualidade e que é favorável à concorrência justa.

Poucos investidores ou executivos do setor de tecnologia falam publicamente a respeito dessas empresas. Mas confidencialmente, quando solto a caneta e o bloquinho, escuto muitas reclamações a respeito de como o Alibaba trata as companhias em que investe e os mercados que usam suas plataformas - alegações que o Alibaba contesta veementemente. Em contraste, essas mesmas pessoas frequentemente descrevem a decência, a humildade e as boas maneiras da Tencent e seus fundadores.

Parte dessa afabilidade vem de sua utilidade nos negócios. Relações amigáveis ajudam a Tencent a consolidar seu poder na China.

Não há nenhuma empresa no mundo como a Tencent, que é um verdadeiro monopólio em muitos níveis. A Tencent exerce um tipo de influência na China que Facebook, Amazon, Apple e Google podem somente almejar.

A Tencent é uma megaplataforma de entretenimento. É a maior empresa de jogos on-line do mundo, possui participações na Riot Games e na Epic Games. É também dono dos maiores negócios online de vídeos, música e livros da China.

A Tencent investe no mercado. Em 2020, ficou atrás somente da Sequoia Capital, uma firma de investimentos do Vale do Silício, em relação ao número de unicórnios — as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — em que investiu, de acordo com a Hurun Report, uma consultoria de Xangai. Segundo seus próprios relatórios, a Tencent investe em mais de 800 empresas, incluindo uma participação de 12% na Snap e 5% na Tesla. Em comparação, a GV, conhecida anteriormente como Google Ventures e considerada o braço mais ativo de investimento em ações nos Estados Unidos, investe em cerca de 500 empresas.

Mais importante, a Tencent é um operador de plataformas. Ele mantém o WeChat, um aplicativo de mensagens de celular com recursos de rede social e serviços financeiros. No mercado do WeChat é importante fazer amigos.

O WeChat precisa que outras empresas mantenham seu 1 bilhão de usuários grudados no aplicativo. Ao mesmo tempo um sistema operacional autônomo e uma loja de aplicativos, o WeChat permite aos usuário executar miniprogramas criados e mantidos por outras empresas. Esses usuários podem fazer compras usando o sistema de pagamentos do WeChat. Tesla, Airbnb e Starbucks possuem seus próprios miniprogramas de WeChat — assim como a maioria dos sites chineses; exceto os barrados pelo WeChat.

Por isso que ter boas relações no setor passou a ser importante para a Tencent. Empresas amigas desenvolveram miniprogramas para WeChat. O Tencent investiu em empresas chinesas de transporte privado com carros e bicicletas porque os usuários desses serviços fazem pagamentos frequentes, e a Tencent queria que eles usassem o WeChat Pay.

O diretor executivo da Tencent, Pony Ma, gosta de afirmar que metade da vida da Tencent está nas mãos de seu portfólio de empresas e parceiros. "Quando vocês crescem, nós crescemos juntos. Quando vocês perdem, nós, enquanto plataforma, perdemos também", disse ele em um programa de entrevistas na TV, em 2016.

Não importa quão decente ou humilde a Tencent possa parecer, ele ainda é um gigantesco conglomerado corporativo que obteve um lucro de US$ 24 bilhões no ano passado e investe grande parte disso. A Tencent escolhe vencedores e perdedores, mas os vencedores nem sempre são os melhores do mercado, por isso a inovação e a eficiência são prejudicados.

A Tencent limita o acesso de usuários a outros produtos e serviços. Seu aplicativo WeChat não permite que usuários compartilhem links do Taobao, um site de compras online do Alibaba, nem dos vídeos curtos da Douyin, a empresa-irmã do TikTok na China. (Outras plataformas bloqueiam serviços do Tencent.) Quando três aplicativos de mensagens foram lançados em janeiro de 2019, eles foram bloqueados imediatamente no WeChat.

A ByteDance, dona do TikTok, demonstra as possibilidades de uma empresa que caminha sozinha. No seu início, o fundador da empresa, Zhang Yiming, recebeu um pequeno investimento da Tencent para proteger seu negócio, mas resistiu a laços mais profundos. Em resposta a rumores de que a Tencent investiria na ByteDance em 2016, Zhang escreveu que não fundou a ByteDance para virar empregado da Tencent. Ele postou a letra da canção "Go Big or Go Home".

A independência da ByteDance compensou. Agora a empresa está avaliada em aproximadamente US$ 400 bilhões, com alguns aplicativos de conteúdo online enormemente populares, incluindo o TikTok, o primeiro produto digital criado na China a se tornar um fenômeno global. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Estadão
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