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Plataforma KaiOS traz WhatsApp, YouTube e 4G para celulares básicos

Já disponível no País em celulares da Positivo e da Multilaser, sistema KaiOS põe assistente de voz e loja de aplicativos a aparelhos simples; meta de startup é conectar bilhões ainda fora da internet

8 set 2019
05h10
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Um smartphone com 4G, WhatsApp, Wi-Fi, Bluetooth e até assistente de voz já faz parte do cotidiano de muita gente. Há, porém, milhões de brasileiros que ainda dependem de celulares básicos, com teclado alfanumérico e capazes apenas de fazer chamadas de voz e enviar mensagens de texto. São aparelhos com pouco ou nenhum acesso à internet. É de olho nesse público que começam a chegar ao País modelos com o sistema operacional KaiOS. Feito pela startup americana homônima, a plataforma permite que aparelhos simples - daqueles que só serviam para o jogo da cobrinha - possam estar conectados e usar recursos como redes sociais, mensagens instantâneas e uma loja de aplicativos própria.

"Nossa meta é conectar os 3 bilhões de pessoas no mundo que hoje não têm acesso à internet", diz David Bang, vice-presidente da KaiOS Tech para as Américas. Para cumprir essa missão, a startup fundada em 2016, na Califórnia, aposta em um sistema leve, cujos aplicativos são baseados na linguagem HTML5 - a mesma usada pelas páginas de internet mais modernas. É dessa forma que mesmo aparelhos simples, com memória e armazenamento abaixo de 1 GB (gigabyte) conseguem rodar apps como WhatsApp, Facebook e YouTube.

À disposição dos usuários, há ainda uma loja com cerca de 70 aplicativos e jogos. Pensado para as necessidades atuais do usuário - ao contrário de sistemas antigos ainda usados pelas fabricantes de celulares nos "basicões" -, o KaiOS tem funcionalidades como Wi-Fi, Bluetooth e compatibilidade com chips 3G e 4G.

A receita pode parecer pretensiosa, mas mais de 100 milhões de celulares com o sistema já funcionam em todo o mundo. Na Índia, um dos mercados-alvo da startup, o KaiOS tem 3,1% do mercado. É o segundo sistema operacional móvel mais popular por lá, à frente do iOS da Apple (2,65%), segundo a consultoria StatCounter. "Na Índia, o mercado de celulares simples gira em torno de 30%, é bem grande. Os celulares com KaiOS custam em torno de US$ 50, são alternativa barata para quem precisa se conectar", diz Anshul Gupta, diretor de análises da consultoria Gartner.

Uma das investidoras da KaiOS Tech é a operadora indiana Reliance Jio. Outra é o Google, que colocou US$ 22 milhões na empresa em 2018, a despeito da competição dela com o Android em aparelhos de entrada. "O KaiOS tem papel importante em dar acesso à internet para milhões de novos usuários, por um baixo custo - especialmente em países onde ainda há um mercado para celulares básicos, como no Brasil", disse um porta-voz do Google ao Estado.

Assim como o Android, o KaiOS pode ser usado por qualquer fabricante, por ter licença livre. A empresa ainda não tem faturamento, mas estuda modelos como publicidade e comissão por downloads feitas na loja de aplicativos. Na Europa, o sistema tem sido usado ainda para lançamentos retrô - a Nokia, por exemplo, ressuscitou aparelhos de flip e com o jogo da cobrinha usando o novo sistema.

Celulares podem ajudar operadoras a desocupar 2G

No Brasil, há apenas um modelo com o sistema disponível nas lojas: é o Positivo P70S, com preço sugerido de R$ 280. "Quem compra hoje um celular simples (ou feature phone, nome dado à categoria pela indústria) tem recursos muito limitados. O KaiOS vem para mudar isso", diz Norberto Maraschin, vice-presidente de mobilidade da fabricante paranaense Positivo.

Até o fim do mês, chega ao varejo o Zapp, da Multilaser, com preço sugerido de R$ 259. Os dois modelos têm apenas conectividade 3G, mas devem ganhar em breve versões 4G - segundo os executivos, falta a homologação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Para Maraschin, da Positivo, a chegada ao 4G pode atrair um novo aliado do sistema KaiOS: as operadoras, que querem desocupar as faixas de frequência hoje usadas pelo 2G. "Para elas, manter essas redes ativas não é um bom negócio, porque são usadas por um público que gasta pouco", diz. No momento, a KaiOS não tem nenhuma parceria com as operadoras locais - embora Bang diga estar em contato com as empresas.

Os dois aparelhos brasileiros com o KaiOS trazem ainda dois botões especiais: um deles ativa comandos de voz pelo Google Assistant, assistente pessoal da gigante americana. Outro começa a gravar uma mensagem de áudio no WhatsApp ao ser apertado. "São recursos que compensam a dificuldade de se digitar em um teclado alfanumérico", afirma Bang. "Ao mesmo tempo, também é uma tecnologia fácil de ser usada."

KaiOS pode ser celular 'da balada e do bloquinho', diz executivo

Juntas, Positivo e Multilaser pretendem atacar um mercado com potencial de crescimento. Segundo dados da Anatel, hoje há mais de 20 milhões de linhas ativas no Brasil ainda com conexão 2G. Além disso, 2,5 milhões de celulares básicos foram vendidos no País em 2018, de acordo com a consultoria IDC Brasil. Para 2019, a previsão é de que as vendas girem em torno de 3 milhões de unidades.

"São produtos baratos, em torno de R$ 200. É um mercado que não é desprezível", diz Renato Meireles, analista da IDC Brasil. "E o público é fiel: a maioria dos usuários é de baixa renda ou idosos que não se adaptaram bem aos smartphones e preferem o teclado antigo."

A aposta, com os novos recursos do KaiOS, é que os celulares básicos sirvam também como "segunda opção" para um público mais exigente. "Com WhatsApp e redes sociais, esse aparelho pode virar o celular para levar para a balada, o jogo de futebol ou o bloquinho de carnaval", aposta Fabiano Favero, gerente de produto da Multilaser.

O desafio da KaiOS será provar que sua proposta vale mais a pena do que um produto que, à primeira vista, é superior tecnologicamente: o smartphone de entrada, que usa o sistema Android, com uma loja com milhões de aplicativos e funcionalidades como tela sensível a toque. Segundo Meireles, da IDC, aparelhos desse tipo podem custar cerca de R$ 400. A diferença de valor pode parecer pequena, mas é considerável para o público de baixa renda.

"Conseguir um preço competitivo para o Zapp é algo que tirou nosso sono", diz Favero, da Multilaser. "Por outro lado, creio que o software do KaiOS traz uma experiência mais fluida que a de um smartphone de entrada." É no que aposta David Bang. "Hoje, um Android barato é um celular lento, que não funciona bem e tem bateria que acaba rápido", diz o executivo da KaiOS. "Mas não temos pressa: nossa meta agora é mostrar o sistema aos brasileiros."

Estadão
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