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Perseverance envia os mais incríveis vídeos de Marte

Os vídeos de Marte que a NASA divulgou são históricos, pois nunca antes havíamos transmitido vídeos da superfície de outro planeta

23 fev 2021
03h35
atualizado às 10h35
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A Perseverance acabou de enviar os primeiros vídeos de Marte, mas a estrada que levou até eles foi muito longa, começando em 14 de Julho de 1965, quando a Mariner 4 se tornou a primeira sonda do Planeta Terra a chegar com sucesso em Marte.

There are no strings on me...
There are no strings on me...
Foto: NASA/JPL / Meio Bit

Durante a manobra de pouso a as câmeras da Perseverance (23 no total, 19 só no robô) fizeram quase 30 mil imagens, gerando 30GB de informação. 56 anos atrás a Mariner 4 tinha bem menos recursos.

Com sensores de imagem equivalentes a uma resolução de 200 x 200 pixels, a Mariner 4 teve pouco tempo durante sua passagem para fazer imagens, já que não entrou em órbita. Os dados, armazenados em um gravador de fita com capacidade total de pouco mais de megabits foram transmitidos lentamente, a uma velocidade de 33⅓ bits por segundo.

Quando a primeira imagem finalmente terminou de ser baixada, dia 20 de Julho, os cientistas perceberam que o computador levaria uma eternidade para processar os dados, com 6 bits de tonalidade por pixel. Alguém teve a idéia de imprimir apenas os valores numéricos, em uma grande tabela.

Uma das 22 fotos feitas pela Mariner 4.
Uma das 22 fotos feitas pela Mariner 4.
Foto: NASA/JPL / Meio Bit

Com isso um estagiário correu para uma papelaria, comprou um kit de lápis de cor e um bando de PhDs da NASA sentou em volta de uma impressão de computador e começaram a pintar os números, gerando uma primeira versão da imagem bem mais rápido que o computador.

A primeira imagem de Marte. Clique para engrandalhecer.
A primeira imagem de Marte. Clique para engrandalhecer.
Foto: NASA/JPL / Meio Bit

Na Perseverance o processo é mais rápido. Ainda bem.

Durante a descida câmeras acompanhavam todo o processo. Só apontando para o paraquedas, havia três, filmando a 75fps. Os dados das câmeras do módulo de pouso eram armazenados em um computador específico para isso, com um SSD de 480GB rodando Linux. As câmeras usavam conexão USB 3.0. Esse computador só não funcionou para captar o som do pouso, o que como bem lembrou Scott Manley, era de se esperar, em se tratando de Linux.

A Mariner 4 enviou no total 22 fotos para a Terra. Cada uma dela levou 6 horas para ser transmitida. A Perseverance acumulou 30GB de dados, mais de 23 mil imagens durante a manobra de pouso. Essas imagens foram acumuladas em um dos computadores de armazenagem de dados, ao mesmo tempo que eram duplicadas em um computador idêntico, no robô. Os dois são conectados por Gigabit Ethernet.

Ao contrário da Mariner 4, a Perseverance pode se dar ao luxo de usar os vários satélites em órbita de Marte para acumular e retransmitir seus dados. Eles passam sobre a Perseverance várias vezes ao dia, em cada passagem é possível transmitir quase 1Gbit de informação, que é enviada para a Terra em alta velocidade, dependendo do satélite/sonda usado. Se for o Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), em teoria é possível receber dados a até 6Mbits/s.

Primeiro panorama enviado pela Perseverance. Em vermelho, 200x200 o tamanho de uma imagem da Mariner 4
Primeiro panorama enviado pela Perseverance. Em vermelho, 200x200 o tamanho de uma imagem da Mariner 4
Foto: NASA/JPL / Meio Bit

Mesmo assim transmitir vídeos de Marte em formato RAW, frame a frame seria inviável. Por isso os computadores usados para armazenar dados possuem scripts que usam o bom e velho ffmpeg para converter os frames em vídeos compactados com um CODED decente.

Foram esses vídeos de Marte que a NASA estava "escondendo", e guardou para a coletiva de imprensa, afinal não é todo dia que você pode mostrar ao mundo o primeiro vídeo feito na superfície (e acima dela) de outro planeta.

Os vídeos das várias câmeras é algo épico, literalmente de outro mundo.

A começar pela abertura do paraquedas. Lembre-se, estamos falando de uma estrutura de tecido 21 metros de diâmetro que é ejetada de uma cápsula se movendo a 1600Km/h e que se abre em 0.7s. Não é NADA trivial projetar algo assim.

É grande.
É grande.
Foto: NASA/JPL / Meio Bit

Depois o vídeo mostra a ejeção do escudo térmico, com direito a uma mola que se soltou mas era do sistema de ejeção então não vai fazer falta. O escudo térmico aliás é tão PICA das galáxias que mesmo depois de enfrentar temperaturas de 1300 graus na entrada atmosférica, na parte de dentro ele chegou a concentrar gelo em algumas partes.

Vemos também a soltura da cápsula externa, com o trenó/guindaste voando com seus motores, identificando o melhor local de pouso e manobrando.

Há um momento LINDO quando vemos o ponto de vista do robô olhando para cima, e ele se desprendendo do trenó. A mesma imagem mas do ponto de vista invertido também foi feita.

A Perseverance então é baixada cada vez mais próxima ao solo até que... TOUCHDOWN. Confirmado o contato, guilhotinas cortam os cabos e o trenó-foguete é lançado para se espatifar a 1Km dali.

Aqui o vídeo com tudo combinado.

Óbvio que temos os vídeos de Marte separados. Aqui a Percy sendo baixada do trenó-foguete. Essa é uma imagem que nem os projetistas já tinham visto, por causa da gravidade da Terra é impossível testar esse sistema em condições reais.

Outro ponto interessante: Muita gente reparou que os motores não aparentam estar funcionando, mas a explicação é simples: Os oito motores do trenó-guindaste usam hidrazina, um monopropelente que quando é exposto a um catalisador de Irídio, se converte em Amônia, Hidrogênio e Nitrogênio. E como a concentração de oxigênio no ar marciano é muito baixa, não há como a Amônia ou o Hidrogênio entrarem em combustão, então os gases ejetados são invisíveis, mas seus efeitos são bem reais.

No vídeo com a Percy sendo descida do guincho (guindaste fica estranho, né?) dá pra ver em detalhes os três cabos de sustentação e o umbilical. Todos os dados e o próprio vídeo sendo feito estão sendo transmitidos por aquele cabo. É interessante notar que a escala do solo é totalmente enganosa.

Isso fica evidente no vídeo sem interrupções da descida. Até o último momento não dá pra saber se as plumas dos motores estão perturbando uma área de alguns centímetros ou dezenas de metros.

De todos os vídeos de Marte esse é o mais impressionante. É a mais pura geologia alienígena, "ao vivo", com uma máquina tecnicamente mais burra que a maioria dos celulares realizando manobras sem nenhuma intervenção humana.

Nossos embaixadores de metal passando com louvor por uma série de passos que qualquer humano com bom-senso se recusaria a participar. Agora, está feito. A Percy pousou no leito de um lago que pode ter sido um berço de vida marciana, e agora está se preparando para executar sua missão: Ampliar nossos horizontes e instigar o desejo de seguir nossos batedores e ver com nossos próprios olhos o que nenhum olho humano jamais viu.

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