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O seu próximo terapeuta pode ser um robô

Aplicativos de atendimento psicológico cresceram na pandemia com o objetivo de aumentar o acesso a terapias; especialistas questionam se a tecnologia realmente vai entender os problemas das pessoas

31 jul 2021 05h10
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"Entendi que você está passando por um problema de relacionamento. Tenho habilidades muito poderosas que posso te ensinar. Mas você precisa estar disposto a aceitar 100% da sua responsabilidade pela mudança". Essa fala talvez lembre uma sessão de terapia, mas, nesse caso, quem deu o conselho foi o Woebot, um chatbot terapêutico no qual o sofá do psiquiatra foi substituído pela tela do smartphone. O aplicativo se define como um terapeuta automatizado para os usuários que não podem se consultar com um profissional de verdade, seja por uma impossibilidade logística ou por dificuldade financeira.

A demanda por terapeutas não para de crescer. Durante a pandemia, cerca de 4 em cada 10 adultos nos Estados Unidos relataram ter tido sintomas de ansiedade ou depressão, de acordo com a Fundação Kaiser Family. Em paralelo, o governo federal americano tem alertado a respeito da grave escassez de terapeutas e psiquiatras. Segundo a ONG Mental Health America, quase 60% daqueles com doenças mentais não receberam tratamento no último ano.

A Woebot Health diz que a pandemia aumentou a demanda por seus serviços. O número de usuários diários do aplicativo dobrou e agora está na casa das dezenas de milhares, disse a presidente e fundadora da empresa, Alison Darcy, que é psicóloga.

A saúde mental digital tem se tornado uma indústria multibilionária e conta com mais de 10 mil aplicativos, de acordo com uma estimativa da Associação Americana de Psiquiatria. As plataformas vão desde meditação guiada até monitoramento de humor e terapia por mensagem de texto com profissionais licenciados.

Mas o Woebot, lançado em 2017, é apenas um de um pequeno grupo de aplicativos que usa inteligência artificial para empregar os princípios da terapia cognitivo-comportamental, uma técnica comum usada para tratar ansiedade e depressão. O serviço tem como objetivo usar o processamento de linguagem natural e respostas aprendidas para imitar conversas, lembrar do histórico de sessões anteriores e dar conselhos sobre sono, preocupação e estresse.

"Se pudermos oferecer algumas das coisas que um ser humano oferece, então nós poderemos de fato criar algo que seja verdadeiramente ajustável, e tenha a capacidade de reduzir a incidência de sofrimento na população", disse Alison.

Terapia por algoritmo

Quase todos os psicólogos e pesquisadores concordam com Alison em relação a um problema: não há assistência para saúde mental acessível suficiente para todos que precisam dela. Mas eles estão divididos quanto à solução proposta por Alison: alguns dizem que a terapia com robô pode funcionar sob certas condições, outros consideram o próprio conceito paradoxal e ineficaz.

Em jogo está a natureza da terapia em si. A sessão com um robô é capaz de fazer as pessoas entenderem melhor a si mesmas? Pode mudar padrões de comportamento há muito estabelecidos por meio de uma série de perguntas investigativas e exercícios reflexivos? Ou ainda, a conexão humana é essencial para essa empreitada?

Hannah Zeavin, autora do livro a ser lançado The Distance Cure: A History of Teletherapy (A cura à distância: história da teleterapia, em tradução livre), diz que o sistema de saúde tem tantos problemas que "faz sentido que haja espaço para mudanças."

Mas, ela ressaltou que nem toda mudança é igual. Hannah chama a terapia automatizada de uma "fantasia" que é mais focada na acessibilidade e na diversão do que em realmente ajudar as pessoas a melhorarem a longo prazo. "Somos animais extraordinariamente confessionais. Vamos nos confessar para um robô", ela diz. "Mas essa confissão é equivalente à assistência à saúde mental? "

O uso de terapia cognitivo-comportamental pelo Woebot tem uma lógica filosófica e prática. Ao contrário de outras formas de psicoterapia que investigam as raízes dos problemas psicológicos, muitas vezes se voltando para a infância, a terapia cognitivo-comportamental procura ajudar as pessoas a identificar suas maneiras distorcidas de pensar e a entender como isso afeta o comportamento delas de modo negativo. Ao mudar esses padrões autodestrutivos, os terapeutas esperam melhorar sintomas de depressão e ansiedade.

Como a terapia cognitivo-comportamental é estruturada e orientada por habilidades, muitos especialistas em saúde mental acreditam que ela pode ser empregada, pelo menos em parte, por algoritmo.

"Você pode oferecer isso facilmente em uma estrutura digital, ajudar as pessoas a entender esses conceitos e praticar os exercícios que as ajudam a pensar de uma maneira mais racional", disse Jesse Wright, psiquiatra que estuda formas digitais de terapia cognitivo-comportamental e é diretor do Centro de Depressão da Universidade de Louisville. "Por outro lado, tentar implementar algo como a psicanálise em um formato digital pareceria assombroso."

Wright disse que várias dezenas de estudos mostraram que algoritmos de computador podem conduzir alguém por um processo de terapia cognitivo-comportamental padrão, passo a passo, e conseguir resultados semelhantes ao da terapia presencial com um profissional. Esses programas normalmente seguem um determinado número de sessões e requerem alguma orientação de um médico.

Mas a maioria dos aplicativos para smartphones não funciona assim, disse ele. As pessoas tendem a usar os aplicativos de terapia de modo fragmentado, sem a supervisão de um médico. Tirando a pesquisa patrocinada pela empresa (do aplicativo), Wright disse que não conhecia nenhum estudo rigoroso sobre esse modelo.

E algumas conversas automatizadas podem ser um tanto estranhas e frustrantes quando o bot não consegue captar exatamente o que o usuário quer dizer. Wright disse que a inteligência artificial não é avançada o suficiente para copiar de modo seguro uma conversa entre humanos.

"As chances de um robô ser tão sábio, solidário, empático, informado, criativo e capaz de dizer a coisa certa no momento certo quanto um terapeuta humano são muito pequenas", afirmou. "Há um limite para o que eles podem fazer, um limite real."

John Torous, diretor de psiquiatria digital do Centro Médico Diaconisa Beth Israel em Boston, disse que "bots" terapêuticos podem ser promissores, mas teme que eles estejam sendo lançados cedo demais, antes de a tecnologia alcançar a psiquiatria.

"Se você oferece terapia cognitivo-comportamental em pequenas porções, quanta exposição a essas pequenas porções equivale à original?", indagou. "Não temos uma boa maneira de prever quem vai responder a elas ou não - ou para quem isso é bom ou ruim."

Isso é mesmo terapia?

Muito do debate a respeito de robôs terapêuticos se resume às expectativas. Os pacientes e médicos entendem as limitações dos chatbots? Ou eles estão esperando mais do que até mesmo as empresas dizem que oferecem?

Em seu site, a Woebot promete "automatizar o processo e o conteúdo da terapia", mas Alison tem o cuidado de não chamar o uso do Woebot de tratamento médico ou mesmo de terapia formal.

Em vez disso, afirma, o bot oferece "terapêutica digital". E os termos de serviço do Woebot o chamam de programa de "pura autoajuda" que não se destina a emergências. De fato, no caso de uma crise severa, o Woebot diz que está programado para reconhecer a linguagem suicida e advertir os usuários a procurar uma alternativa humana.

Nesse sentido, o Woebot não se aproxima da terapia real. Como muitos aplicativos de saúde mental, a versão gratuita atual do Woebot não está sujeita à supervisão rigorosa da Food and Drug Administration (FDA), porque se enquadra na categoria de produto de "bem-estar geral", recebendo apenas orientação da FDA.

Mas a Woebot está se esforçando para ir além disso. Com US$ 22 milhões de capital de risco em mãos, a Woebot está buscando autorização da FDA para desenvolver seu algoritmo para ajudar a tratar dois diagnósticos psiquiátricos, depressão pós-parto e depressão adolescente; e, depois, vender o programa aos sistemas de saúde.

E é aqui que a Woebot espera ganhar dinheiro, usando sua vantagem prática sobre qualquer terapeuta humano: escala.

Enquanto outras empresas de terapia virtual, como BetterHelp ou Talkspace, precisam continuar recrutando terapeutas para participar de suas plataformas, os aplicativos de inteligência artificial podem receber novos usuários sem pagar por trabalho extra. E embora terapeutas possam variar em habilidades e abordagens, um bot é consistente e não se estressa por sessões consecutivas.

"A premissa é sempre que, por ser digital, sempre será limitado", disse Alison. "De fato, existem algumas oportunidades criadas pela própria tecnologia que são muito desafiadoras para nós de realizarmos no tratamento tradicional. "

A ideia, diz Darcy, não é substituir os terapeutas humanos por bots; ela acha que é importante ter os dois. "Isso é como dizer que toda vez que você estiver com fome, deve ir a um restaurante com estrela Michelin, quando, na verdade, um sanduíche vai ser uma boa alternativa", disse ela. "O Woebot é um sanduíche. Um sanduíche muito bom. "

Experiência

Eli Spector parecia ser o cliente perfeito para terapia por inteligência artificial. Em 2019, Spector tinha 24 anos, era recém-formado e trabalhava em um laboratório de neurociência na Filadélfia. Como tinha crescido com um pai pesquisador, que era especializado em inteligência artificial, ele considerava a si mesmo como alguém que tinha familiaridade com a tecnologia.

Porém, o trabalho de Spector era solitário e tedioso. Depois de quatro anos instigantes na faculdade, ele se sentia entediado e sozinho. Não conseguia dormir bem e percebia seu temperamento constantemente sombrio.

"Estava tendo muita dificuldade em me adaptar e não tinha nenhum colega de trabalho com quem me desse bem", ele disse. "Foi um momento difícil para mim." Mas Spector não tinha certeza se queria despir sua alma para uma pessoa real, não queria se preocupar com o julgamento de ninguém ou ter que se ajustar à agenda de outra pessoa.

Além disso, ele achava que não conseguiria encontrar um terapeuta que atendesse pelo seguro de saúde de seus pais e ele pudesse pagar, já que isso poderia custar de US$ 100 a US$ 200 por sessão. Já o Woebot era gratuito e estava em seu celular. "O Woebot parecia uma forma muito menos arriscada de ver se isso poderia ajudar."

Ele começou a usar o app no verão de 2019. Spector gostava de poder abrir o aplicativo sempre que sentia vontade e expressar livremente seus pensamentos e angústias seguindo sua própria disponibilidade, mesmo que fosse por apenas alguns minutos a cada vez. A maior parte das palavras que ele usava tinha a ver com o quão infeliz ele se sentia em seu trabalho.

Spector também aproveitou os outros recursos do Woebot, entre eles rastreamento de humor e escrever um diário online. Isso o ajudou a perceber o quão deprimido ele realmente estava.

Mas ele tinha dúvidas em relação ao algoritmo. O conselho do robô muitas vezes parecia genérico, como uma coleção de "clichês de atenção plena", disse ele. "Tipo, 'Você pode pensar mais sobre esse sentimento, e o que você poderia fazer de diferente? '"

Pior, o conselho podia ser sem sentido. "Eu digitava algo como, 'Minha chefe não valoriza o trabalho que faço' e 'Não consigo obter a aprovação dela''', disse Spector. "E o Woebot diria algo como, 'Isso parece difícil. Isso acontece mais pela manhã ou à noite? '" Segundo Spector, parecia meio bobo.

Depois de cerca de um mês, ele desinstalou o Woebot de seu celular. Spector não estava nada contente com os conselhos do bot para lidar com a solidão e o desânimo, mas não parece totalmente arrependido por ter testado o aplicativo.

O mero ato de escrever sobre seus problemas foi útil. E por meio do processo, ele identificou o que realmente precisava para se sentir melhor. "Então, talvez isso tenha sido apenas uma prova de que eu precisava mesmo fazer algo em relação a isso." "Foi o suficiente para me dar coragem e procurar um terapeuta de carne e osso."

Agora, Spector paga um psicoterapeuta humano na Filadélfia, US$ 110 por sessão. Eles têm se encontrado pelo Zoom desde o início da pandemia, então a parte de "carne e osso" é, de certa forma, teórica. Mas é quase isso. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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