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Na volta aos escritórios, o novo normal é passar o dia no Zoom

À medida que voltam para o escritório, os trabalhadores estão se deparando com uma realidade bizarra: eles ainda passam a maior parte do tempo isolados e grudados em seus computadores para reuniões virtuais

17 out 2021 05h12
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Nick Kneer estava animado para voltar ao escritório. Depois de trabalhar de casa por quase um ano e meio, ele sentia falta do clima de camaradagem com seus colegas na biblioteca de uma universidade em Ohio, onde trabalha como coordenador de comunicação. Kneer estava contando os dias para quando poderia estar entre os estudantes e os funcionários novamente.

Mas a animação dele rapidamente desapareceu depois que a realidade do trabalho presencial revelou-se bem diferente do que ele esperava.

No fim, para evitar contrair a variante Delta, ele acabou trancado em uma "sala de concreto sem janela" - seu escritório temporário - participando da maioria de suas reuniões por Zoom.

"Sem dúvidas foi uma decepção", disse ele.

À medida que muitos funcionários voltam para o escritório — mesmo com a variante Delta se espalhando pelos Estados Unidos — os trabalhadores estão se deparando com uma nova realidade bizarra: eles ainda passam a maior parte do tempo isolados e grudados em seus computadores para reuniões via Zoom, checando o e-mail e usando o Slack. Com mais empresas implementando opções de trabalho híbrido permanente — em que alguns funcionários trabalham em casa e outros no escritório —, o trabalho remoto talvez dure mais do que a pandemia. E com ele, talvez também as particularidades do novo ambiente de trabalho.

"Há uma tensão estranha", disse Brian Kropp, chefe de pesquisa de Recursos Humanos da empresa de consultoria Gartner. "Queremos todo mundo de volta ao escritório, mas ainda queremos que todos trabalhem por vídeo."

A maneira como as pessoas trabalham nos escritórios atualmente não se parece com a de antes da pandemia. E a tecnologia que permitiu que muitos funcionários trabalhassem de casa os acompanhou na volta ao escritório, desde as videoconferências até os serviços de mensagens e os programas de trabalho colaborativo.

Os mais recentes faturamentos do Zoom sugerem que a videoconferência continua em alta demanda, apesar do retorno aos escritórios e de os funcionários estarem trabalhando presencialmente. Durante o segundo trimestre, a empresa informou que a receita aumentou 54% em relação ao ano anterior, para US$ 1,02 bilhão; embora seja uma desaceleração em comparação a disparada dos 191% que a empresa divulgou no trimestre anterior. Ainda assim, o Zoom alcançou seu primeiro trimestre com receita de US$ 1 bilhão e teve mais de 504 mil clientes usando seu serviço.

"As reuniões de vendas foram transferidas das salas de reuniões para o Slack e o Zoom", disse o presidente e COO da Salesforce, Bret Taylor, durante uma recente divulgação de resultados. No ano passado, a Salesforce comprou a Slack por US$ 27,7 bilhões.

A empresa-mãe do Google, a Alphabet, disse durante sua última divulgação de resultados que seu produto de ferramentas digitais para negócios chamado Google Workspace, que inclui Gmail, Google Docs e o serviço de videoconferência Google Meet, "continua a mostrar um forte crescimento".

Solidão coletiva

Emily Wagner, gestora do programa de educação para a empresa de aulas particulares e preparação para provas Summit Educational Group, em Newton, Massachusetts, comparou sua volta ao trabalho ao modo como os cães se comunicam. De vez em quando, ela e seus colegas saem de seus cubículos no escritório para falar uns com os outros do outro lado da sala. Mas, na maior parte do tempo, ela está trabalhando via Zoom com sua equipe, que vai ao local de trabalho em dias diferentes por segurança.

Além da experiência "estranha" de tudo isso, Emily diz que o maior problema é quando duas pessoas que estão próximas no escritório participam da mesma reunião por Zoom. Se ambas estiverem com os microfones ligados, o som ambiente criará um eco na chamada. A única maneira real de resolver isso é garantir que as outras pessoas por perto não estejam com seus microfones ligados ao mesmo tempo.

"É um completo pesadelo", disse ela. "Fiquei muito chateada na primeira vez que tive que lidar com isso. Foi, tipo, 'Isso é horrível! Por que estamos fazendo isso?'"

O terrível eco durante a videoconferência é uma reclamação comum entre os trabalhadores que participam de reuniões por vídeo no escritório. Uma funcionária, que trabalha em um sistema de ensino público em Illinois e falou sob condição de anonimato para evitar conflitos com seu empregador, disse que tem o mesmo problema com o Microsoft Teams e o Google Meet. A tecnologia causa muitas frustrações, entre elas, a conexão de internet instável no escritório, onde ela é obrigada a ficar cinco dias por semana, que às vezes não consegue dar conta do volume de pessoas em chamadas de vídeo.

Trabalhar no escritório parece "basicamente a mesma coisa" que ela estava fazendo em casa. O máximo de socialização que ela consegue no trabalho é um ocasional "oi" ao esbarrar com um colega no corredor, disse ela.

"Eles ainda estão verificando se as pessoas realizam distanciamento social e não ficam todas aglomeradas em uma sala de reuniões", disse ela sobre seu empregador, reconhecendo que o procedimento faz sentido do ponto de vista da segurança. Ela disse que parecia "completamente sem sentido" estar ali.

Alguns trabalhadores estão no escritório por vontade própria. Harlan Crystal, cofundador e CFO da empresa de jogos para celular Pocket Gems, voltou ao seu escritório em São Francisco em maio, cerca de um mês depois de a empresa reabrir o espaço para aqueles que desejassem retornar voluntariamente. Para Crystal, voltar ao escritório permitiu que ele entrasse em um estado de espírito em que consegue se concentrar mais. Também o ajudou a separar melhor sua vida profissional e pessoal.

Mas ele diz que o sistema de trabalho híbrido da Pocket Gems tem sido " sem dúvidas, confuso". Quando as equipes têm reuniões via Zoom, os poucos que estão no escritório se juntam em uma sala de reuniões e entram na chamada como um grupo usando uma câmera. Como consequência, as pessoas na chamada têm dificuldade em entender as emoções e reações das pessoas que participam da reunião em grupo, porque seus rostos aparecem muito pequenos, disse Crystal. E se qualquer funcionário trabalhando remotamente compartilhar sua tela pelo Zoom, aqueles que estão no escritório pensarão que as imagens são de baixa resolução, quase impossíveis de ler, já que estão vendo a apresentação por meio de um projetor na sala.

"Parece mais com ir ao Starbucks e trabalhar lá", disse ele. "Você está indo para um lugar compartilhado, mas a maioria das pessoas com quem você está trabalhando diretamente não está lá com você."

'Novo normal'?

Gerry Martini, diretor associado de admissões do Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York, disse que a falta de interação presencial com seus colegas de trabalho e futuros alunos o faz "ter pavor" de ir ao escritório duas vezes por semana. Além disso, ele se desloca 40 minutos para ir e, depois, para voltar, de metrô, apenas para aparecer no local de trabalho e realizar a maior parte de suas interações virtualmente. Enquanto isso, a lanchonete e a cafeteria do prédio estão fechadas, limitando as chances de ele ter conversas não planejadas.

"Estou ansioso para voltar ao campus quando puder fazer coisas que geralmente se faz no campus", disse Martini. "São as pessoas que fazem isso ter sentido. Esse tipo de coisa não está acontecendo. "

Martini disse acreditar que ele e seus colegas foram mandados de volta para o escritório em grande parte por razões econômicas.

"Há uma impressão de que devemos voltar porque isso é bom para a cidade versus o que é bom para o funcionário", disse ele.

Matt, um desenvolvedor web em uma universidade em Nova Jersey, que falou sob a condição de não usar seu sobrenome, disse que voltar ao escritório para usar o Zoom torna difícil dizer quem está disponível ou ocupado. Antes da pandemia, era óbvio quando as pessoas estavam ocupadas em uma reunião, já que todas estariam juntas em uma sala. Ele ainda não descobriu a melhor maneira de resolver o problema.

"Quando todos estão usando o Zoom de suas mesas, é impossível saber quem está em uma reunião", afirmou, acrescentando que colegas de trabalho já entraram em seu escritório enquanto ele estava em reunião. "É muito estranho."

Os trabalhadores dizem que aqueles de volta aos escritórios precisam estar preparados para algumas coisas: é preciso ter um bom fone com cancelamento de ruído ou protetores auriculares e estar pronto para o isolamento presencial.

Para Kneer, a estranha sensação de trabalhar no escritório e fazer a mesma coisa de quando estava em casa poderia ser resumida ao que acontece com ele na hora de almoço. Ele tira o que vai comer de sua geladeira em casa para levar ao local de trabalho. Depois, traz de volta o que pegou para preparar seu almoço e coloca tudo de volta na geladeira de casa.

"É surreal", disse Kneer. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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