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'Joia do SoftBank' na Índia, Oyo é marcada por incidentes perturbadores

Parte do crescimento da startup de hospedagem repousa em práticas que levantam dúvidas sobre a saúde do negócio

11 jan 2020
05h10
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A Oyo, startup que oferece quartos de hotel a preços acessíveis, tornou-se uma das mais valiosas empresas privadas da Índia e pretende ser a maior rede mundial de hotéis até 2023. Mas, pelo menos parte do crescimento da Oyo repousa em práticas que levantam dúvidas sobre a saúde do negócio, segundo relatórios financeiros, documentos jurídicos e entrevistas com 20 ex e atuais funcionários.

De acordo com esses funcionários, a Oyo tem em sua lista hotéis indisponíveis - alguns abandonaram seus serviços - para inflar o número de quartos listados no site da empresa. Milhares de quartos são de hotéis sem licença de funcionamento e casas de hóspedes, admitem executivos da Oyo. Para suavizar a interferência das autoridades do setor de locações online, a empresa às vezes oferece acomodações gratuitas a policiais e outros funcionários, segundo os entrevistados.

A Oyo também impõe tarifas extras a hotéis e se recusa a pagar o total devido a eles, segundo proprietários e empregados. Alguns operadores de hotéis entraram com queixas-crime contra a organização - que disse reter os pagamentos por causa de deficiências nos serviços. "É uma bolha prestes a estourar", disse Saraubh Mukhopadhyay, ex-gerente de operações da Oyo no norte da Índia que deixou a empresa em setembro.

A Oyo é parte de um grupo de proeminentes startups empenhadas em crescer rápido, alimentadas com dinheiro de grandes investidores, como o conglomerado japonês SoftBank. Agora, algumas dessas novas empresas - da locadora de escritórios WeWork, de Nova York, à empresa de serviços de entrega Instacart, de São Francisco - começaram a mostrar problemas em seus negócios.

Qualquer falha da Oyo pode afetar o mundo das startups indianas, que receberam bilhões de dólares de capital estrangeiro em anos recentes. Seria também um golpe para o SoftBank, maior investidor na Oyo e dono de metade das ações da empresa.

Masayoshi Son, principal executivo do SoftBank, chamou a Oyo de "joia do Vision Fund" do banco, de US$ 100 bilhões. É a única empresa indiana a se tornar global nessa escala", justificou Satish Meena, pesquisador da empresa Forrester em Nova Délhi referindo-se à Oyo. "Mas no momento há sérias dúvidas sobre seu modelo de negócios."

O SoftBank não comenta

Ritesh Agarwal, principal executivo da Oyo, concordou numa entrevista recente que algumas listas de quartos da empresa incluíam hotéis com os quais ela não trabalhava mais. Ele disse que a Oyo estava procurando trazer esses hotéis de volta.

Adtya Ghosh, chefe de operações da Oyo na Índia, afirmou que muitos hotéis não tinham as licenças necessárias, o que os tornava vulneráveis a ocasionais inspeções do governo. Ele negou que a Oyo fornecesse quartos de graça a funcionários públicos.

Ghosh minimizou o que chamou de "chiadeira" de hotéis sobre tarifas extras e não pagamento de débitos. "A discordância é sobre as penalidades que impomos por serviços deficientes", disse ele.

Fundada em 2013 por Agarwal, então um estudante de 19 anos, a Oyo se empenhou em organizar o serviço de hotéis de preços acessíveis, tradicionalmente dominado por pequenas empresas familiares. A empresa procurou trazer hotéis para sua marca e os anuncia exclusivamente por meio de seu site, cobrando uma taxa por cada estadia. A startup também possui alguns hotéis próprios.

A Oyo oferece hoje mais de 1,2 milhão de quartos em 80 países, incluindo os Estados Unidos. Emprega 20 mil pessoas e já levantou mais de US$ 2,5 bilhões em financiamentos. Agarwal tornou-se uma estrela dos negócios e íntimo do primeiro-ministro, Narendra Modi.

A empresa prevê perder dinheiro pelo menos até 2021. Esforços para expandir os serviços para países como o Japão falharam. Mas, em dezembro, o Softbank e Agarwal investiram mais US$ 1,5 bilhão na Oyo.

Os investimentos elevaram o valor da empresa em US$ 8 bilhões. Ao mesmo tempo, dois outros grandes investidores, Sequoia Capital e Lighitspeed Venture Partners, reduziram sua participação.

As duas empresas de investimentos de risco venderam US$ 1,5 bilhão de suas ações - cerca de metade da carteira - para Agarwal. Ele tomou dinheiro emprestado para comprar as ações e a Oyo valorizou-se em US$ 10 bilhões.

?Lugar difícil de trabalhar

Os ex e atuais funcionários disseram que a Oyo nunca foi um lugar fácil para se trabalhar, mas no último ano as pressões aumentaram ainda mais.

Mohammad Jhanzeb Gujl, que entrou na empresa em 2019 e supervisionava 23 propriedades da Oyo, disse que, nos nove meses que ficou lá, às vezes passava dias e noites em frente a um computador para cumprir prazos. "É uma cultura realmente tóxica", ressaltou.

Mukhopadhyay disse que os funcionários sofrem tanta pressão para captar novos quartos que adicionam locações sem ar condicionado, aquecedores de água ou mesmo eletricidade. Segundo Mukhopadhyay, os gerentes acrescentavam nas listas propriedades indisponíveis, completando com fotos falsas para impressionar investidores.

Em queixa na polícia em novembro, Betz Fernandez, dono do Roxel Inn em Bangalore, disse que a Oyo lhe deve US$ 49 mil, por cobrar dele por hóspedes inexistentes e recusar-se a pagar o mínimo mensal estipulado em contrato. A Oyo disse que o caso está sob arbitragem. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Estadão
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