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Economia hoje é baseada em experiências, não em produtos, diz presidente da Dassault Systèmes

Para Bernard Charlès, da Dassault Systèmes, valor para empresa está em saber bem o que seu consumidor busca

13 mar 2019
05h10
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Pedir um Uber e deixar o carro na garagem é algo que muita gente já faz nas grandes cidades do País. Mas para Bernard Charlès, presidente executivo da francesa Dassault Systèmes, é mais do que um gesto corriqueiro: é um sinal de que a economia está se transformando, deixando de vender produtos e serviços para oferecer experiências ao consumidor. "O valor hoje é captado por quem conhece o consumidor e consegue oferecer algo diferente a ele", afirma o francês. "É o caso da Apple: ao conhecer o usuário, ela orienta a inovação e manda a Foxconn fabricar o iPhone na China."

Escolhido como um dos principais presidentes executivos do mundo pela Forbes, Charlès é um intermediário importante na transformação digital de muitas corporações. A Dassault faz sistemas para criação de projetos em 3D - é nos programas da companhia que são projetados todos os aviões do planeta, bem como cerca de 70% dos carros do mundo. Assim, Charlès é parte importante em ajudar companhias a pensar em seus negócios de forma digital. "É uma mudança drástica: não basta só usar computadores, mas sim mudar como se desenha, produz, entrega e se vende um produto", diz ele.

Ao Estado, Charlès falou sobre os desafios da transformação digital no Brasil e no mundo. Para ele, mais do que mudar métodos, é preciso fazer as pessoas confiarem nos benefícios das mudanças. Também é preciso refletir como preparar trabalhadores para empregos do futuro - para eles, técnicos poderão repetir tarefas de engenheiros, que passarão a ter uma visão holística dos negócios.

Transformação digital é um termo que está na moda, mas, para o sr., o que ele significa?

Muita gente acha que transformação digital é usar computadores para fazer o que fazíamos antigamente, com métodos tradicionais. Não: transformação digital é algo que se aplica a toda a economia. Em negócios, é uma mudança drástica na forma como se desenha, produz, entrega e vende um produto ou serviço, como se constrói um ecossistema em torno disso. Hoje, todos os aviões do mundo são criados digitalmente. Eles são projetados em 3D e passam por simulações e testes digitais antes de serem produzidos. Digitalização é expandir o mundo real, a partir de uma versão virtual.

Sua empresa tem a tarefa de ajudar outras companhias a se transformar. Quais são os desafios mais comuns?

Há algo complicado: as pessoas precisam confiar na ideia de que o que está numa tela é real e vai influir na realidade. Ninguém mais faz um projeto virtual em 3D para depois fazer uma maquete e tomá-la como molde para produção; hoje o virtual é quem comanda. Além disso, é preciso mudar métodos: muitas empresas passam as responsabilidades de uma área para outra, não trabalham de forma integrada. Integração reduz custos, tempos e até deslocamentos. É preciso treinar as pessoas para o futuro.

Os desafios dos clientes do Brasil são diferentes dos globais?

Depende. Há exemplos extremos: uma empresa como a Embraer, que cria e fabrica seus produtos aqui, tem desafios similares aos de qualquer empresa global. É uma questão de aplicar métodos, simular, treinar pessoas. No entanto, há muitas empresas aqui que só recebem um projeto pronto do exterior. Antes, era um jeito de desenvolver a economia. Hoje, ainda é relevante, mas o conhecimento local não é construído da mesma forma. Isso gera consequências, claro: afinal, quanto do que é produzido no Brasil se define aqui? Hoje, o que vale para uma empresa é conhecer bem o seu consumidor.

Como assim?

Pense na Apple: ela sabe muito bem o que o consumidor precisa em um celular. Assim, pode orientar a inovação e encomendar à Foxconn o iPhone do jeito que quiser. Quem tem o poder de conhecer o consumidor pode achar fornecedores para cuidar do que não quer perder tempo fazendo. Não estamos mais em uma economia de produtos, mas sim numa economia de experiências. O valor vem da experiência - e o produto passa a ser um custo embutido no meio disso. É o que acontece no caso do Uber: o carro e o motorista são um custo para ir do ponto A ao ponto B.

Ainda assim, alguns produtos são necessários. Empregos e fábricas, porém, estão fechando e muita gente imagina robôs tomando nosso lugar. Como as pessoas vão trabalhar no futuro?

Serão necessárias pessoas capazes de entender o mercado e criar ofertas competitivas. É algo ligado à educação, claro, mas tudo começa com uma convicção: qualquer um pode aprender algo novo. Hoje, um operário, munido de impressão 3D, pode fazer uma simulação técnica sofisticada que, há anos, só podia ser feita por um time de engenheiros. É interessante: um engenheiro pode ser trocado por um técnico, reduzindo custos. Tenho dúvidas sobre o futuro, não do trabalho, mas dos engenheiros. O engenheiro do futuro terá de entender de negócios. Terá de falar com consumidores e ter ideias diferentes. Quem entender isso agora pode progredir rápido.

Como vê o mundo em 10 anos?

Haverá muitas transformações. Destaco duas. O 3D vai estar em todo lugar. Hoje, não compramos nada sem uma foto do produto. No futuro, será igual com o 3D - até mesmo para uma caixa de cereal. A outra coisa é que, quando qualquer pessoa for comprar um produto, o serviço será personalizado: ao entrar numa loja, o vendedor não vai perguntar o que você quer, mas sim trará uma consultoria específica - ele já vai saber o que você busca e gosta. Isso ocorrerá para equipamentos de casa, roupas ou qualquer outro produto: tudo será personalizado. Haverá produtos de alta qualidade, que se encaixam perfeitamente no corpo ou na sua necessidade, com preço mais eficiente, a qualquer momento, em qualquer lugar.

Estadão

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