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Aulas de empreendedorismo chegam às escolas brasileiras

Programas sociais ensinam jovens a criar planos de negócios; projetos já são tocados fora da sala de aula

7 nov 2018
05h11
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A pernambucana Laís Firmino, de 14 anos, percebeu há alguns meses que a mãe, costureira, não conseguia não ganhar novos clientes. Para resolver o problema, ela pôs a mão na massa: com ajuda de quatro colegas de escola, criou o Seam, um aplicativo que une clientes e costureiras, tal como um Uber do conserto de roupas. "Sempre quis empreender, mas não tinha ninguém para me ensinar", conta a jovem, que só conseguiu começar seu negócio graças ao JA Startups, um curso de empreendedorismo digital oferecido em seu colégio.

Aulas sobre como montar uma startup ainda são algo incipiente no Brasil. Com cerca de 300 estudantes atendidos, o JA Startups é uma parceria da centenária ONG americana Junior Achievement Brasil, em parceria com a plataforma de empreendedorismo StartSe.

Não é o único, mas são poucos: programas de ONGs como Fundação Telefônica Vivo e Fundação Limiar, além de uma iniciativa do governo estadual de Minas Gerais, buscam colocar na cabeça dos jovens conceitos como investimento-anjo e produto mínimo viável. "Há forte demanda em conhecimento sobre empreendedorismo no mercado de trabalho, mas pouca atenção para o tema em sala de aula", diz a diretora da Junior Achievement Brasil, Bety Tichauer, ao Estado.

Formato. Dentro da sala de aula, os programas têm moldes parecidos. Com duração média de dois meses, eles se dividem em três fases. A primeira é dedicada a desmistificar o empreendedorismo. "Empreender ainda é um tabu no Brasil e muitos alunos veem o tema com desconfiança", diz Bety. Depois disso, professores capacitados e especialistas ligados às ONGs começam a mergulhar no tema, dando aos jovens noções sobre assuntos como plano e modelo de negócios, impacto na sociedade e tipos de investimento.

Ao mesmo tempo, eles também orientam os alunos para olhar ao seu redor para identificar problemas e criar soluções para tais questões. Após um acordo entre o grupo de estudantes, a ideia pode ser desenvolvida até um projeto final, quando é apresentado para especialistas num dia de demonstrações (ou demo day, no jargão do setor). No caso de alguns programas, como no programa mineiro Meu Primeiro Negócio, o estudante também é ensinado a fechar a empresa. Quem quiser continuar com as atividades da startup fora da sala de aula, porém, também pode.

É o caso também do carioca Teylor Alencar, de 16 anos. Estudante da FAETEC Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, ele criou um app que serve como "Tinder de escolas". Pais entram no sistema e inserem informações que julgam essenciais para uma escola, como valor da mensalidade e distância. A partir daí, o app sincroniza com dados previamente cadastrados de colégios da região e, assim, oferece opções aos responsáveis. Apesar de ainda ser um protótipo, o app já tem investidores interessados - Dalmo de Souza, da startup de cerveja Bierteria, e Márcio Torres, da startup de educação OPA. Alencar não revela valores.

"Uma das principais causas da evasão escolar é a má escolha feita pelos pais", diz o estudante. Além de querer mudar o comportamento dos pais, o rapaz vê na startup a chance de mudar seu futuro. "Quero me estabelecer no mercado carioca para depois seguir para outros estados. Agora, a startup está entrelaçada aos meus objetivos e mudou o que eu tinha planejado."

Voltado para jovens da periferia, o Pense Grande, da Fundação Telefônica Vivo, já capacitou 60 mil jovens em cerca de 30 escolas parceiras. Além das aulas, o programa oferece a oportunidade do aluno apresentar sua ideia à operadora e seus parceiros - entre as ideias que já saíram dele, está o Embarcar. Criado por alunos de uma escola técnica em Santarém, no Pará, ele serve como um guia das barcas que transitam pelos rios da região, com horários de partida, chegada e lotação.

Para especialistas ouvidos pelo Estado, levar o empreendedorismo para dentro da sala de aula pode ajudar o ecossistema de startups brasileiros a se tornar mais diverso e acessível. "Hoje, é um mundo com ferramentas codificadas. Não há um nível pleno e horizontal pelo País", defende Maximiliano Carlomagno, sócio-fundador da consultoria Innoscience.

Na visão de Felipe Alves, especialista em empreendedorismo social da ONG Artemísia, é preciso, porém, tomar cuidado com a forma com que projetos como esse são tocados. "Não adianta centrar esse tipo de ensino apenas na figura de um professor. É preciso trazer pessoas da área de startups para transmitir conhecimento e inspirar os jovens."

Já o presidente executivo da startup Geekie, um dos principais nomes do ecossistema de educação do País, acredita que exemplos como esse podem ajudar a indicar a educação do futuro. "Precisamos repensar a base curricular para que o aluno participe mais do processo. O empreendedorismo é uma ótima saída."

Estadão Conteúdo

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