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Startups do mercado editorial ganham espaço na pandemia com 'novas formas de ler'

Mudança no hábito da leitura estimula o uso de tecnologia para distribuir obras aos leitores em diferentes formatos

18 ago 2021 17h01
| atualizado em 19/8/2021 às 16h55
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O consumo de livros, depois de vários anos de dificuldade, viu o total de exemplares vendidos crescer 50% no primeiro semestre, para um total de 28 milhões de unidades, segundo o painel Nielsen para o setor. Embalada pelo renovado interesse pela leitura trazido pela pandemia de covid-19, uma nova onda de startups está trabalhando para entregar o prazer da leitura aos brasileiros também em formato de áudio, diretamente no aparelho preferido das pessoas: o celular.

Um dos nomes do segmento é a startup carioca Ubook, que oferece um serviço de assinatura para audiolivros - a ideia é ofertas obras em áudio para incluir a literatura em momentos de deslocamento ou de lazer, como a ida ao trabalho ou à academia. Fundada em 2014 por Flávio Osso e Eduardo Albano, a startup já recebeu mais de R$ 23 milhões em aportes.

O trabalho da Ubook é feito com o licenciamento de obras e a produção local das peças. A empresa aposta no investimento em plataformas de áudio e na estrutura de gravação, narração e distribuição dos livros pelo aplicativo. As obras chegam aos clientes por R$ 19 mensais, em um plano que dá acesso a cerca de 60 mil títulos, que estão disponíveis em modelos de áudio e também de e-book.

Os últimos dados divulgados pela empresa mostram que houve um salto no consumo durante a pandemia: o primeiro semestre de 2020 superou em 50% a audiência total da Ubook em 2019. "Hoje, fazemos tudo na frente da tela, então o áudio insere esse momento na vida quando você não quer ficar encarando um aparelho", explica Cris Albuquerque, gerente de conteúdo editorial e produção de audiolivros da Ubook.

O livro "ouvido" também é a aposta da Storytel, startup sueca que desembarcou no Brasil em 2019. Além de transformar livros em áudios, a empresa une a curadoria humana a um algoritmo. A ferramenta, com base em leituras prévias, pode sugerir novos títulos para os usuários da plataforma - técnica já usada amplamente em redes sociais e plataformas de streaming como a Netflix. "O público brasileiro é bastante adepto a testar novidades em tecnologia. Acreditamos que há interesse em conteúdo de todos os formatos", afirma André Palme, diretor da Storytel no Brasil. A empresa já possui mais de mil obras traduzidas para o português.

Na assinatura da Storytel, os leitores podem encontrar planos a partir de R$ 28 mensais, com direito a todos os produtos da plataforma, além de um plano gratuito com 6 horas disponíveis por mês, em títulos que poderão, nos próximos meses, ser encontrados também no serviço de streaming de música Spotify - a empresa, também sueca, é parceira da startup. A modalidade gratuita, lançada em fevereiro, já tem mais de 300 mil assinantes no Brasil.

Para Pedro Pontes, diretor executivo da Accenture, a expansão durante a pandemia não é só fruto da aceleração dos meios digitais: a quarentena adicionou no hábito do brasileiro o consumo de novas formas de conteúdo. "A praticidade, o isolamento e a experimentação ajudaram a alavancar mercados como o do audiolivro por aqui."

Entrega

Ainda repensando modelos de distribuição das obras, algumas startups têm apostado em formatos de clube de assinatura. É o caso da Skeelo, que possui investimento da apresentadora Ana Maria Braga. A startup funciona como um clube de benefícios para empresas e se concentra em oferecer experiências literárias com outros vales tradicionais como academia, saúde e alimentação. Fundada em 2018, em São Paulo, a empresa recebeu um aporte de R$ 20 milhões no fim do ano passado.

A Skeelo distribui os exemplares por meio de parcerias com operadoras de celular e outras empresas com grandes bases de clientes. Hoje, o app faz parte da rede de benefícios para clientes Claro, TIM, Oi, Nextel, Algar Telecom, Banco do Brasil e Sky. A Skeelo oferece um best-seller por mês, em formato de e-book, aos beneficiários do programa.

Além disso, como os livros físicos ainda têm seu espaço na prateleira, a inovação não está restrita a formatos digitais. A startup Tag Livros, por exemplo, oferece serviços de assinatura de obras em papel. Trata-se de um clube do livro à moda antiga, fortalecido pela tecnologia: o usuário assina o pacote e todo mês recebe um livro em versão editada e publicada pela própria Tag, além de alguns "mimos" literários, como revistas e bolsas ecológicas.

A Tag já tem mais de 70 mil assinantes e projeta terminar 2021 com faturamento de R$ 63 milhões. Quase como um item colecionável, os planos podem ser escolhidos de uma curadoria de autores renomados ou na categoria inéditos, que traz títulos ainda não publicados no País. "Também temos uma loja online em que as pessoas podem comprar edições exclusivas avulsas e itens relacionados à literatura. A loja é aberta, mas nosso foco são os assinantes", explica Arthur Dambros, vice-presidente da Tag.

O trunfo da startup, para se manter enraizada na tecnologia, é a logística: na entrega, a empresa usa um algoritmo de otimização, chamado Raskon. Criado pela Tag, o sistema faz cotações de custos e rotas e elege as transportadoras para cada destino automaticamente.

Na visão de Pontes, da Accenture, para crescerem, as startups voltadas ao mercado editorial terão de mostrar que podem ir além da simples transformação de obras físicas em artigos eletrônicos.

Isso porque as editoras tradicionais ainda mantêm um papel de chancela de conteúdo, enquanto se espera que as startups possam preencher uma lacuna tecnológica. É inclusive o desafio para que essas empresas tenham um setor para chamar de seu no ecossistema brasileiro de inovação - atualmente, elas ainda são consideradas um nicho dentro das "edtechs".

"A digitalização não é transformar o conteúdo físico em conteúdo eletrônico: é uma mudança no modelo de negócios. E há muitas possibilidades nesse caminho", diz.

Estadão
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