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Startups de seguros ganham novo impulso com pandemia e avanços regulatórios

Digitalização, consumidor mais sensível e agenda de modernização estão entre os principais fatores para o avanço do setor de 'insurtechs' nos últimos meses

30 jun 2021 17h01
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Durante a pandemia, startups de diversos segmentos foram impulsionadas: logística, comércio eletrônico, educação e saúde são alguns deles. Menos badaladas, porém, as startups de seguro (conhecidas como "insurtechs") também surfaram na onda e ganharam espaço no último ano.

O crescimento durante a pandemia veio por duas razões: empresas e consumidores acostumaram-se com a ideia de procurar e contratar serviços de forma totalmente digital, dispensando a necessidade de presença física. Além disso, da parte das pessoas, cresceu a preocupação com "o amanhã". Houve aumento na procura por seguros de automóveis, de residências e de vida - representantes do setor afirmam que houve "boom" nessa última categoria.

"As pessoas procuraram mais por esse produto na pandemia. O seguro de vida é um seguro de morte porque só vai ser acionado no dia em que o cliente morrer. Mas é um seguro de família porque quem contrata pensa em como os parentes ficariam sem a pessoa", explica o presidente executivo da ThinkSeg, André Gregori.

Fundada em 2016, a ThinkSeg diz que viu quintuplicar a procura pelos produtos da startup, enquanto as vendas cresceram 270% na comparação de abril de 2020 com o mesmo mês deste ano. Com a aceleração, a startup anunciou que irá fazer listagem direta de ações nos EUA. Hoje, o principal produto dela é direcionado para o setor automotivo, com apólices no modelo "liga-desliga", em que o seguro só vale para quando o carro do cliente está em movimento - algo que veio a calhar na pandemia, quando a movimentação esteve em baixa.

"Precisou de uma pandemia para o brasileiro notar que precisa de um seguro de vida e que ele não é imortal. E, em home office, para notar que precisa de amparo em caso de curto circuito, alagamento ou roubo em casa", explica Marcelo Blay, fundador da Minuto Seguros. Criada em 2011, a startup comercializa seguros de carro, de vida e residenciais. Segundo ele, houve uma "explosão de demanda" nos últimos dois segmentos.

De forma geral, essas startups lidam com diversas seguradoras simultaneamente e fazem a corretagem de forma a baratear os planos, tirando o que chamam de "gorduras". Por exemplo, é possível cortar do preço de uma apólice residencial de apartamento a cobertura a danos da caixa d'água, já que isso deve ser arcado pelo prédio, e não pelo dono do imóvel. Ou, ainda, retirar a cobertura quando um carro está parado no estacionamento de shopping, onde, por lei, o espaço é responsável pelo veículo.

Além disso, as insurtechs também ajudam seguradoras a se digitalizar. Segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), das 61 insurtechs que existem no Brasil (eram apenas 44 em 2017), cerca de 38% são voltadas para serviços para outras empresas, o chamado "B2B". A maioria, 45%, vende para empresas com o foco na pessoa física (ou B2B2C).

André Neder, especialista em seguros da consultoria KPMG, explica que esses dois segmentos foram especiais para o impulso das insurtechs especializadas em complementar a cadeia de valor de seguradoras - estão inclusas aqui startups que atuam digitalizando registros e aberturas de sinistros e fazendo vistorias. "Elas ganharam bastante relevância por entregarem um serviço digital", afirma.

Regulação à moda Banco Central

Enquanto a pandemia abriu uma janela de oportunidade para o segmento de seguros, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) tentou avançar uma agenda de modernização inspirada nos movimentos que o Banco Central (BC) faz há uma década para desconcentrar o mercado financeiro.

Responsável por regular os seguros no Brasil desde 1966, o órgão vem simplificando regras, eliminando barreiras para a entrada de novos agentes e permitindo a implementação de modelos, como "liga-desliga", em que o usuário paga apenas quando usa o produto - se o carro está na garagem de casa, por exemplo, não existe risco de batida ou acidente.

"Havia baixa inovação e estava reduzida a capacidade do mercado competitivo", explica o diretor da Susep, Rafael Scherre. A entidade também criou um "sandbox" regulatório para que empresas criem e testem projetos inovadores em condições favoráveis com tempo determinado. "Fomentar a inovação é importante porque força as empresas tradicionais a melhorar o produto que oferecem."

Neste cenário, o mercado de insurtechs brasileiro tem potencial para parir um gigante do setor. "Temos potencial para termos um 'Nubank dos seguros' por causa dessas combinações de fatores. É um mercado com escala e é uma boa plataforma para a América Latina", afirma Gesner Oliveira, coordenador do Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros da Fundação Getúlio Vargas (FGV IISR).

Atração de olhares

Como todo setor que começa a deslanchar, há muitos olhares voltados para ele. Fintechs gigantes, como Nubank e Creditas, passaram a vender seguros. Já a gestora Bossanova anunciou um fundo para investir apenas insurtechs em estágio inicial. A firma pretende aportar até R$ 5 milhões em dez a 15 empresas inovadoras do segmento.

"Finalmente chegou a hora das insurtechs, depois de uma crescente nos mercados de fintechs e edtechs (de educação)", afirma o chefe de operações da Bossanova, Rafael Ribeiro. Para o fundo, o potencial de digitalização do setor é imenso e, em especial, modelos de planos "liga-desliga".

Além disso, startups estrangeiras do segmento passaram a aterrissar no País. É o caso da chilena Betterfly, que em 16 de junho anunciou uma rodada de investimento de US$ 60 milhões para embarcar no Brasil. Além dela, veio para cá o novo unicórnio britânico Tractable, que usa inteligência artificial para avaliar danos a carros e ajudar seguradoras a avaliar o sinistro.

A Susep notou também esse olhar "gringo" para o Brasil, com a procura de empresas estrangeiras para saber mais do sandbox regulatório e da simplificação de regras para a entrada de novos agentes. "Certamente, o Brasil é onde tem um conjunto de oportunidades mais relevantes e favoráveis à inovação no setor de seguros", afirma Scherre.

*É estagiária sob a supervisão do editor Bruno Romani

Estadão
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