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O efeito SoftBank: como os US$ 100 bi deixaram trabalhadores em uma difícil situação

De Nova Délhi a Medellín, startups apoiadas pelo grupo japonês prometem maravilhas, mas depois deixam pessoas à míngua

15 dez 2019
05h12
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Por cinco anos, o capitão reformado do exército indiano Sunil Solankey administrou o Four Sight, um hotel de 20 quartos em um subúrbio de Nova Délhi. Os negócios estavam bem, mas ele queria fazer o local crescer. Em 2018, uma startup de hospitalidade chamada Oyo disse a Solankey que o ajudaria a transformar o espaço em um hotel para clientes corporativos. A empresa prometeu ainda pagamentos mensais de US$ 10 mil, independentemente de se os quartos estivessem ocupados, desde que ele inserisse o nome da Oyo no do hotel e alugasse os quartos só pelo site da empresa. Ele investiu US$ 8,4 mil na mudança, mas os hóspedes não vieram. Agora, está à beira do despejo.

Solankey é um dos milhões de trabalhadores e pequenos empresários que foram afetados diretamente pelos bilhões do Vision Fund, o maior fundo de capital de risco da história, administrado pelo conglomerado japonês SoftBank. Fundado pelo bilionário Masayoshi Son, o grupo japonês teve uma tacada de mestre ao investir na chinesa Alibaba, ainda nos anos 1990.

Ao longo das décadas seguintes, ele quis mais, investindo em empresas como o Uber, que apostava na chamada "economia compartilhada", com o uso de trabalhadores terceirizados. A estratégia chegou ao auge com o Vision Fund, avaliado em US$ 100 bilhões e com participantes como a Apple e os fundos soberanos da Arábia Saudita e de Abu Dhabi. Além do Uber, que recebeu mais aportes, startups como Oyo, Rappi e a brasileira 99 fizeram parte do grupo de apostas do SoftBank na "nova economia".

Muitas dessas companhias usaram os dólares do Softbank para compensar incentivos e outros tipos de pagamentos para atrair rapidamente o maior número possível de usuários e parceiros. Mas quando as startups começavam a falhar em crescer, as empresas cortavam ou descumpriam os incentivos, o que deixou terceirizados como Solankey na mão, financeira e pessoalmente devastados. O New York Times analisou contratos e documentos internos da empresa e entrevistou mais de 50 pessoas que trabalham junto às startups investidas pelo SoftBank. O que emergiu foi um padrão, uma versão distintamente moderna da propaganda enganosa - e que pode se repetir no Brasil, dados os 10 investimentos feitos pelos japoneses no País ao longo deste ano.

"Essas startups tentam atrair trabalhadores para eles e trazê-los para um grupo", disse Uma Rani, pesquisadora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que pesquisa empresas contratadas em economias emergentes. "Quando os trabalhadores se apegam à coisa toda e são altamente dependentes dela, então as startups cortam o sistema." Ao New York Times, um Jeff Housenbold, sócio-gerente do Vision Fund do SoftBank, se defende: "Esta é uma questão importante e complexa que antecede o Vision Fund e afeta muitas empresas que não apoiamos, em igual medida". Isso é de pouco conforto para empreiteiros como Solankey. "Estou no fundo do poço", disse o indiano.

Fogueira laranja

O tipo de desilusão que Solankey viveu se repetiu em outras partes do mundo, com outros trabalhadores parceiros das startups investidas pelo SoftBank. Na Colômbia, por exemplo, há um mar de ciclistas e motociclistas trafegando pelas grandes cidades com caixas laranjas nas costas. São os entregadores do Rappi, startup colombiana que recebeu aporte de US$ 1 bilhão dos japoneses neste ano. Ao anunciar o financiamento, o grupo SoftBank declarou que a startup, avaliada em US$ 2,5 bilhões, seria responsável por "melhorar a vida de milhões na região".

Mas nem todos concordam. Farley Molina, um rapaz de 21 anos, estava entregando uma pizza da Papa John's pelas ruas de Medellín, em outubro, quando um motoqueiro se apoderou de seu celular, de seu dinheiro e da sacola laranja que ele usa para transportar pacotes para a Rappi. Molina denunciou o roubo à startup. Molina denunciou o roubo à Rappi. A empresa disse-lhe para pagar os US$ 35 que ele havia recebido de clientes e comprar por conta própria um celular novo.

Para voltar às ruas, ele tomou dinheiro emprestado de sua mãe. "Eles nunca nos dão apoio", disse o entregador sobre a Rappi. Como muitas startups financiadas pelo grupo SoftBank, o Rappi não depende apenas dos terceirizados para prestar seus serviços, mas também transfere seus custos fixos - e os riscos do trabalho - para eles. Criada em 2016, a startup usa entregadores para fazer delivery de tudo, de flores a dinheiro vivo. Somente na Colômbia, possui 20 mil entregadores - entre eles, Walter Salazar, um rapaz de 26 anos que começou a trabalhar para a empresa em tempo integral no ano passado.

Inicialmente, a empresa ofereceu a seus entregadores cerca de US$ 1 por entrega - o suficiente para que muita gente ganhasse mais que o salário mínimo local, estimado em US$ 8 por dia. Em troca, os entregadores tinham de usar seus próprios celulares e veículos, além de comprar uma sacola de entrega, em torno de US$ 25. Também precisavam arcar com os riscos da atividade - em entrevista ao NYT, o cofundador Simón Borrero diz que a empresa tem seguro para pagar contas de hospital de quem se machuca, mas não para roubos durante as entregas como os que ocorreram com Molina.

Para os entregadores, os riscos aumentaram conforme vieram os cortes nos pagamentos. No ano passado, a Rappi reduziu seu pagamento mínimo por entrega em 45%, na mesma época em que seu prejuízo anual saltou para US$ 45 milhões, segundo documentos entregues ao governo local. "Às vezes, tenho de trabalhar turnos de 17 horas só para sobreviver", disse Walter Salazar, um rapaz de 26 anos que começou a fazer entregas para a Rappi em 2018. Hoje, ele trabalha sete dias por semana para pagar por uma cama em um apartamento de seis quartos.

Ao NYT, Borrero disse que a Rappi foi criada para complementar renda, não para quem busca um salário completo. É algo que não tem funcionado - e provoca a ira dos colaboradores. Em julho, cerca de 100 trabalhadores protestaram na frente da sede da Rappi em Bogotá. Eles fizeram uma fogueira com as sacolas laranja de entrega.

Corretora de ponta

O estrago também acontece nos Estados Unidos. No ano passado, Robert Reffkin, fundador da imobiliária online Compass, pediu desculpa aos seus parceiros pelo crescimento instável de sua empresa. Fundada em 2012, a startup recebeu US$ 1 bilhão do grupo SoftBank no ano passado. Após o aporte, a empresa saltou de 2,1 mil para 8 mil corretores de imóveis parceiros. Mas o crescimento vertiginoso provocou rachaduras: no e-mail, Reffkin disse que a empresa não estava preparada para integrar as agências que comprou e pressionou os corretores a usar uma tecnologia que não estava pronta.

"Aprendi que andar rápido demais", escreveu Reffkin na carta, obtida pelo The Times, "pode ser tão perigoso quanto se mover muito devagar". Avaliada em US$ 6,4 bilhões, a Compass possui atualmente 13 mil agentes, todos contratados, em 238 escritórios nos Estados Unidos. Ela cresceu prometendo bônus a alguns agentes e 90% das comissões em negócios futuros, em um setor no qual o padrão é de 70% a 80%. Após os problemas, a empresa viu a saída de vários executivos de alto escalão. Enquanto isso, os corretores que chegaram recentemente à plataforma tinham problemas.

Um deles era Tricia Ponicki, 44, que começou no escritório da Compass em Chicago em fevereiro. Ela diz que se sentiu atraída pelo generoso pagamento. Além disso, a empresa também prometeu mais recursos para ajudar nas vendas de imóveis. Mas, durante seis meses na Compass, Ponicki vendeu um imóvel, ganhando US$ 4,3 mil. Um ano antes, ela havia arrecadado cerca de US$ 100 mil em comissões por vendas de casas em uma imobiliária local.

Em agosto, a mãe de quatro filhos inscreveu-se para receber cupons para alimentação, um programa estadual. Ela também voltou à sua antiga agência, a At Properties, onde suas vendas aumentaram, disse. Ponicki disse que se indagava quanto tempo os gastos da Compass poderiam durar. "Eu percebi que as ilusões que você vê no espelho não são o que parecem ser", disse ela. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Estadão
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