PUBLICIDADE

Nova geração de fundos no Brasil amplia investimentos em startups

Amadurecimento do ecossistema permite a entrada de investidores que vão além dos nomes tradicionais

9 jun 2021 17h01
ver comentários
Publicidade

Tradicionalmente, o financiamento de startups brasileiras esteve nas mãos de poucos nomes - gigantes como SoftBank, Monashees, Kaszek e Tiger Global ajudaram a construir um cenário que já conta com 14 unicórnios (empresas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão) e outra dezena de fortes candidatos. Os tempos, no entanto, mudaram. O nosso mercado de startups amadureceu e, nos últimos dois anos, uma nova geração de fundos começou a brotar por aqui.

Na nova turma, existem visões e objetivos variados, como preferência por startups de regiões específicas do País ou interesse em áreas específicas, como mercado financeiro, varejo e educação. Os números mostram o avanço dos fundos de investimento: somente em 2021, US$ 3,9 bilhões foram investidos em nossas startups, 11% a mais do que todo o ano de 2020, segundo a empresa de inovação Distrito. Muitos dos nomes da nova geração, como Maya, Volpe, Caravela, Norte, Big Bets e ScaleXOpen já começam a aparecer nesses aportes.

Ao contrário dos nomes tradicionais, os novos fundos costumam olhar para startups em estágio inicial, nas quais o risco do investimento é maior, mas, no longo prazo, o retorno costuma ser mais alto. Para diminuir os riscos, eles costumam mentorear as empresas investidas, ajudando e aperfeiçoando o negócio — no setor, a prática ganhou o nome de "smart money": o dinheiro vem acompanhado de um aconselhamento empresarial.

É essa a especialidade da Caravela Capital, fundo criado em agosto de 2019 em Curitiba. "A jornada empreendedora é muito solitária, então é importante ter com quem compartilhar os problemas e trocar ideias. No final, queremos que o investimento dê certo, então essa foi a maneira que encontramos de ajudar o empresário", afirma ao Estadão Mario de Lara, um dos sócios da Caravela.

Em alguns casos, a experiência da equipe acaba virando vitrine para que o fundo atraia investidores e startups. É o que faz a Volpe Capital, gestora criada no fim de 2020 por André Maciel, um dos principais nomes do SoftBank no Brasil nos últimos dois anos. "É impossível um fundo estrangeiro chegar no Brasil e montar uma equipe como a nossa", diz Maciel. "É preciso conhecer bastante o mercado local". Para ele, além de dinheiro, o fundo pode oferecer uma extensa rede de contatos - a Volpe levantou US$ 100 milhões para investir em nossas startups.

Já a Norte, de 2020, é um fundo que tem como investidores apenas fundadores de startups, como Gympass, iFood, Mercado Livre, VTEX e MaxMilhas. "Acreditamos que quem construiu os 'unicórnios' da atualidade está em posição privilegiada para ajudar quem está construindo os unicórnios do futuro", conta José Cacheado, um dos sócios da Norte, que faz rodadas sem outros fundos e busca startups em estágio pré-semente ou semente. "A ideia por trás é devolver para o ecossistema todo o conhecimento e experiência adquirida ao longo dos anos."

Foco

Além do "smart money", alguns fundos têm atuação regional. A Caravela busca equilibrar o investimento: metade dos cheques são direcionados a empresas da região Sul, de onde é a Caravela, e a outra parte é para o restante do Brasil. Não há preferência por áreas nem modelos de negócios, visto que a gestora já investiu em nomes como Caju, Mottu e Logcomex.

"Queremos ser o primeiro fundo institucional a entrar na startup investida", afirma Lara, que foi investidor-anjo de empresas como Contabilizei e James Delivery (comprada pelo Grupo Pão de Açúcar em 2018). Ao tomar gosto pela coisa, fundou a Caravela junto com Lucas Lima em busca de ampliar os investimentos. Hoje, os cheques variam de R$ 1 milhão a R$ 5 milhões.

Essa é uma visão parecida com a da Maya Capital, liderada pela dupla Lara Lemann e Monica Saggioro desde 2018 - talvez, esse seja o fundo mais "experiente" entre a leva de novatos. "Nossa tese é ser a primeira rodada de venture capital de startups da América Latina e aí também colocamos a mão na massa nesses negócios", explica Lara.

Há também quem queira usar os investimentos para criar interação entre as startups investidas. É o caso do fundo ScaleXOpen, criado neste ano por João Alfredo para buscar, com cheques de R$ 500 mil a R$ 5 milhões, startups nas áreas de marketplace, delivery, fintechs, crédito, loyalty cash-back, marketing e chatbots. Isso significaria que uma startup de marketplace poderia usar o chatbot de outra e a solução de delivery de uma terceira - todas investidas pelo mesmo fundo.

"Nós queremos fazer cocriações com essas empresas, estreitar as relações comerciais entre elas e formar conexões debaixo do nosso guarda-chuva para fomentar sinergia entre elas", afirma Alfredo.

A hora é boa

O bom momento para o nascimento de novos fundos tem motivo, defende a fundadora da empresa de investimentos DiliMatch, Fabiany Lima. Para ela, empreendedores e aceleradoras estão amadurecendo há anos, o que fortalece os projetos.

Além disso, houve um fomento à formação de grupos de investidores-anjo, que impulsionou startups e tornou acessível a entrada de fundos em rodadas de negócios. Já os fundos acabam preenchendo um espaço importante na evolução das startups, já que grandes nomes costumam entrar somente em rodadas mais avançadas. "É uma conjunção que acontece com várias pontas diferentes, mas que agora se juntam", explica a especialista.

Há dúvidas, porém, sobre até quando vai durar esse bom ciclo de investimentos de fundos de primeira viagem. Para Luiz Fernando Silva Neto, analista de venture capital da ACE Startups, a dúvida reside em como vão ser os retornos. "Até quando esses fundos de primeira viagem vão conseguir retornar os investimentos?", questiona. "Se não conseguirem, muitos vão sair do mercado. É uma seleção natural."

Não é algo que assusta a nova geração no momento: a maioria das gestoras pensa em novos fundos e investimentos. A Caravela, por exemplo, planeja captar recursos para lançar um novo fundo até o fim de 2022 - o valor ainda está indefinido. O sócio garante que a proposta será similar à tese atual, mas com um novo objetivo: "Queremos nos consolidar como o principal player para as startups em estágio inicial no Brasil", diz Mario de Lara.

Estadão
Publicidade
Publicidade