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Heroína ou vilã: como a tecnologia muda a vida de quem faz HQs

Ao longo de trinta anos, uso de computadores alterou a relação artística e financeira dentro dos quadrinhos

1 dez 2019
05h11
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Parte da cultura pop desde a década de 1930, as histórias em quadrinhos (HQs) tomam forma em uma longa cadeia: elas passam do escritor para os artistas (quadrinistas e arte-finalistas), chegando depois para os letristas e coloristas. Hoje, esse esforço de equipe continua praticamente o mesmo, mas os computadores e a tecnologia ampliaram as opções para ilustradores e revolucionaram os papéis dos artistas em rapidez, produção e arte. Essa evolução tecnológica, no entanto, não aconteceu da forma como alguns imaginavam.

"No final dos anos 1980, tínhamos certeza de que toda a criação de quadrinhos seria feita com ajuda de um PC", diz Mark Chiarello, um veterano da indústria. Ex-Marvel, DC e Dark Horse Comics, três das casas mais respeitadas das HQs, Chiarello hoje é artista freelancer. Ele foi testemunha de muitas tentativas de transformar os quadrinhos em uma produção digital.

Uma das primeiras apostas veio em 1985, quando a First Comics publicou Shatter Special Nº1. Sua capa proclamava: "o primeiro quadrinho computadorizado!". Toda a edição, exceto as cores, foi feita em um Macintosh. A arte tinha balões de diálogos bem rígidos e lembrava os primeiros dias dos videogames, com imagens pixeladas e um pouco desajeitadas. Mas foi inovador e vendeu muito.

"Passamos uns anos tropeçando na escuridão digital e tentando inventar softwares personalizados, até que todas as empresas de quadrinhos adotaram o software que acabou com todos os softwares: o Adobe Photoshop", lembra Chiarello.

Nem todos se adaptaram bem ao programa de início. "Trabalhando no Photoshop, eu não conseguia fazer nem um círculo", diz o ilustrador Yanick Paquette, que fez muitas capas e quadrinhos para a DC. Sua primeira incursão digital foi em 2000, para uma revista de Batman. Hoje, porém, a vida é bem mais fácil: ele é um viciado no Cintiq, marca de tablets que permite ao usuário desenhar diretamente na tela. "Não compro mais borrachas. Não compro mais tinta. Mas toda vez que lançam um novo Cintiq, vou lá e meio que dou de presente para mim mesmo", diz ele.

Na opinião de Paquette, os leitores desconfiam da arte digital. "Quando uma coisa fica perfeita demais, límpida demais, você perde a sensibilidade humana", diz. Para fazer um exército inteiro, ele pode desenhar um único soldado e criar digitalmente um batalhão, mas se nega. "Se me dedico a desenhar cada um dos soldados da tropa, eles ficam humanizados e a relação do leitor com a arte é diferente".

Parceria

As relações entre os diferentes profissionais na linha de montagem de uma HQ também mudou - em especial, entre o quadrinista (que concebe a página e desenha as imagens iniciais) e o arte-finalista (que dá o acabamento adequado a cada linha). "Antes, era um bom arte-finalista que elevava o trabalho do quadrinista. Agora, é o colorista", diz Karl Kesel, arte-finalista que trabalha desde 1984. "A tecnologia reverteu a ordem da importância artística, por mais que eu odeie admitir isso." Ele segue desenhando no papel, mas mas acredita que a maior inovação digital é a função desfazer do computador: "Não gostou dessa linha? É só clicar e pronto, sumiu".

Responsável por adicionar balões de diálogos, legendas e efeitos sonoros às páginas, os letristas também têm uma relação nova com o trabalho. "Ganhamos menos, mas podemos produzir mais graças ao sr. Computador", diz Chris Eliopoulos, letrista que começou a trabalhar em 1989 como estagiário na Marvel. Em seu auge, ele escrevia à mão 30 quadrinhos por mês, em uma média de 22 páginas.

Trabalhar digitalmente, diz ele, é mais rápido e lucrativo. Um quadrinista pode ganhar US$ 100 por página, mas geralmente só faz uma por dia. Um letrista ganha menos por página, mas produz várias em um só dia de trabalho.

Para a famosa série 'I am...', que reúne biografias de figuras históricas em graphic novel, ilustradas por ele, Eliopoulos usa um híbrido de letras digitais e à mão livre, evitando sua biblioteca de fontes. Ele segue sendo um artesão. "Leva mais tempo, mas acho que qualquer pessoa diria que, se pudesse escolher, ficaria com as letras à mão, porque são orgânicas, são arte". /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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