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Descomplica compra centro universitário UniAmérica em movimento único no setor de educação

Startup de educação faz primeira aquisição após receber aporte de US$ 84,5 milhões

22 jun 2021 21h06
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Nos últimos anos, grupos de educação passaram a procurar empresas de tecnologia e startups de educação (ou "edtechs") em busca de novas ferramentas e métodos de ensino. Essa lógica, porém, pode estar começando a se inverter. A edtech Descomplica anúncia nesta terça, 22, a aquisição da UniAmérica, centro universitário com 2 mil alunos sediado em Foz do Iguaçu, Paraná. O negócio, que não teve valor divulgado, é o primeiro da Descomplica após o aporte de US$ 84,5 milhões, um dos maiores do segmento na América Latina, recebido no último mês de fevereiro.

Com a aquisição, além de colocar um pé no ensino presencial, a Descomplica turbinará o seu avanço no ensino superior, um dos principais pilares da empresa em sua estratégia de expansão. "Não estamos consolidando mercado, comprando alunos e receita. O negócio vai permitir acelerar muito a nossa capacidade de crescimento no ensino superior. Vamos pular de quatro cursos para 22", conta ao Estadão Marco Fisbhen, fundador da Descomplica.

Fundada em 2011 e conhecida por atividades de reforço para Enem e vestibulares, a startup inaugurou no ano passado a Faculdade Descomplica, divisão de ensino superior que traz cursos de graduação e pós-graduação 100% digitais por mensalidades entre R$ 200 e R$ 220 (graduação) e R$ 800 e R$ 1.000 (pós-graduação). Na ocasião do aporte, que teve as participações de Invus Group, SoftBank, Valor Capital Group, Península Participações (de Abílio Diniz), The Edge (guitarrista do U2) e Chan Zuckerberg Initiative (empresa de investimento de impacto social da família do fundador do Facebook), a Descomplica prometeu lançar 15 novos cursos de graduação neste ano e 18 em 2022.

Agora, além dos cursos de administração, contabilidade, pedagogia e recursos humanos, a Descomplica passa a oferecer aulas voltadas para gestão, tecnologia e engenharia. Entre os cursos estão gestão comercial, gestão de dados, gestão financeira, gestão pública, logística, marketing, processos gerenciais, análise e desenvolvimento de sistemas, banco de dados, computação em nuvem, jogos digitais, sistemas para internet, engenharia de produção, engenharia de computação, sistema de informação, letras-português, história e matemática.

Segundo Daniel Pedrino, presidente da Faculdade Descomplica, toda a equipe da UniAmérica será absorvida - Ryon Braga, fundador do centro universitário permanecerá como reitor, além de integrar o time executivo da edtech. Já Pedrino segue liderando a unidade de ensino superior da startup. Os professores e coordenadores da UniAmérica serão absorvidos e passarão por treinamento para entregar conteúdos para a plataforma da Descomplica. Pedrino conta também que a marca da UniAmérica será aposentada, dando lugar à marca da Faculdade Descomplica - não há data, porém, para que isso aconteça.

"A nossa estratégia é levar o aluno durante toda a sua trajetória, do Enem aos cursos de pós-graduação. Manter a marca Descomplica é importante, especialmente porque ela tem bastante apelo junto ao público mais jovem", diz Pedrino.

Movimento invertido

A aposta da Descomplica é vista como um movimento único na história das edtechs. "O movimento da Descomplica é o inverso daquilo que vinha acontecendo, quando os grupos educacionais buscavam as startups", diz Leo Gmeiner, diretor do Comitê de Edtech da ABStartups. "Isso pode fazer a Descomplica se aproximar de outras startups do setor", diz.

"É um movimento diferente. É um passo importante para que a Descomplica inicie uma expansão e tenha escala nesse novo modelo de ensino à distância. Eles são um caso de sucesso de uma startup que criou um modelo inovador", diz Lucia Dellagnelo, diretora presidente do Centro de Inovação para Educação (Cieb). Ela, porém, faz uma ressalva. "Não vai ser apenas com essa aquisição que eles ganharão a escala que muda o jogo".

Ela lembra também que a Descomplica deve enfrentar novos desafios regulatórios. "Como eles eram classificados como atividade educacional complementar, eles não tinham que seguir todas normas do Ministério da Educação, que, às vezes, pode criar limitações. A partir de agora eles terão que seguir alguns requerimentos, que a própria operação física traz", diz.

Ensino presencial

A operação física da UniAmérica também permanecerá intocada - chama a atenção, portanto, a Descomplica colocar seus pés pela primeira vez no ensino presencial, algo que contraria a lógica da existência da startup. Se isso indica uma tendência para o futuro, porém, ainda é cedo para responder. "A UniAmérica será um grande aprendizado de modelo para gente", diz Pedrino. Qualquer mudança de rumo deverá demorar, como indica Fisbhen. "A taxa de penetração do ensino superior no Brasil é abaixo de 20%. A nossa missão é escalar a educação no Brasil, não a educação presencial. A gente não vai mover essa agulha da educação colocando de 30 em 30 alunos na sala de aula", diz.

De fato, a empresa pretende turbinar sua plataforma: Fisbhen conta que a Descomplica vai investir R$ 1 bilhão nos próximos três anos na produção de conteúdo. A aposta ocorrerá mesmo com a sensação de que a pandemia expôs todos os problemas da educação à distância - um estudo recente da Universidade Stanford feito no Brasil mostrou que estudantes são os que mais sentem os efeitos da "fadiga de Zoom", a sensação de exaustão associada a videochamadas.

"O que a gente viu na pandemia foi apenas a adaptação do modelo presencial para o ambiente digital. Não acreditamos nisso. O que a gente faz é alinhar tecnologia com bons professores. A tecnologia não é um meio. Ela é uma ferramenta", explica Pedrino. Até aqui, além das aulas em ambiente digital, a companhia utilizou dados e inteligência artificial para tentar atender as demandas educacionais dos alunos. Agora, ela começa a introduzir ferramentas que permitirão a socialização de alunos pelo aplicativo, que poderão estudar juntos baseados em seus interesses.

"O que o presencial faz de melhor é a socialização. E isso não deve ocorre apenas porque as pessoas foram forçadas a ir para uma sala de aula", explica Fisbhen.

Estadão
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