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Criada por brasileiro em Cingapura, startup de carne vegetal Next Gen Foods vale quase R$ 1 bi

A empresa, dona da marca Tindle, atraiu a atenção de grandes fundos asiáticos e mira chegar aos Estados Unidos e a Brasil até o fim de 2022

3 set 2021 12h02
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Quando inaugurar as operações em Dubai, nos Emirados Árabes, neste mês, a Tindle terá chegado a seu quarto país. Com atuação no mercado de proteína plant based, a marca produz frango de origem vegetal e é a primeira lançada pela Next Gen Foods, startup fundada em Cingapura com DNA brasileiro e números vultosos. Criada pelo ex-BRF André Menezes em parceria com o alemão Timo Recker em abril de 2020, a empresa foi avaliada em US$ 180 milhões (aproximadamente R$ 930 milhões), atraiu a atenção de grandes fundos asiáticos e mira chegar aos Estados Unidos e a Brasil até o fim de 2022.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Menezes afirma que a empresa de pesquisa e desenvolvimento de produtos e marcas plant based nasceu da combinação da expertise dos sócios. O brasileiro foi expatriado à Cingapura em 2016 para atuar junto a uma joint venture que pretendia internacionalizar a empresa e que foi dissolvida em 2019. Com a experiência de ter acompanhado toda a cadeia de suprimentos da gigante da proteína brasileira, Menezes resolveu ficar na Ásia e empreender.

Interessado na tendência plant based, o brasileiro decidiu viajar o mundo e experimentar as proteínas feitas com vegetais disponíveis. Nesse movimento, conheceu o sócio. O alemão Timo Recker é um veterano do mercado de carne vegetal e havia acabado de vender sua própria foodtech, a LikeMeat, para o Livekindly Collective. "Conseguimos reunir o combo de alguém com conhecimento do setor, com alguém com expertise da cadeia de suprimento da proteína", diz.

O interesse dos empresários no mercado de proteína plant based e a rápida ascensão do negócio não são à toa. Segundo o banco de desenvolvimento UBS, o setor tem potencial de atingir US$ 51 bilhões em 2025 no cenário base e até US$ 72 bilhões na estimativa mais otimista, salto de 30% em relação ao tamanho do mercado em 2019. "A indústria da carne não é a resposta para as próximas décadas, em termos de crescimento de consumo", afirma Menezes.

A empresa atraiu a atenção de grandes fundos e recebeu, neste ano, a maior captação em uma rodada semente para uma foodtech. Captou, em março, US$ 10 milhões e, em julho, outros US$ 20 milhões. Entre os investidores, estão o Fundo Soberano de Cingapura, Temasek Holdings, que gere uma carteira de US$ 232 bilhões, e os escritórios de venture capital GGV Capital e K3 Ventures.

O objetivo da captação foi entrar no mercado americano, um dos maiores mercados consumidores globais de proteína. "Temos dinheiro suficiente para entrar no mercado", diz Menezes. "Com certeza devemos precisar de mais, mas só vamos levantar novo capital se atingirmos alguns parâmetros." Ele tampouco descarta uma futura oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), mas a abertura de capital não está nos planos de curto prazo. "Não temos um plano fixo", diz. "Mas queremos estar preparados para isso se, no futuro, fizer sentido."

Apesar de ter concentrado esforços na produção da Tindle, que fabrica apenas frango plant based, as demais proteínas, como suína e bovina, estão no radar. Agora, contudo, a prioridade é expandir a marca. Além de Cingapura, o frango da Tindle também é vendido na Malásia e nas regiões autônomas chinesas Hong Kong e Macau. Nas próximas semanas, Menezes e Recker inauguram parcerias nos Emirados Árabes, em Dubai e Abu Dhabi.

Entrada no Brasil deve acontecer no próximo ano

Em conversas com outros países da Ásia Pacífico, a empresa pretende ter um time local trabalhando na implantação da marca para o público brasileiro na segunda metade de 2022. O principal entrave para a entrada no Brasil é estabelecer parcerias regionais para diminuir o custo de importação.

Diferentemente do empreendimento inicial do sócio Recker, a Next Gen aposta num modelo "light asset", ou seja, sem fábrica ou distribuição próprios. Hoje, a produção é terceirizada na Europa, o que encarece o produto para o mercado brasileiro. Por isso, Menezes diz manter conversas com fábricas mais próximas.

Focada em ganhar escala e alcançar mercados globais, a empresa também optou por não começar a venda diretamente em supermercados. A estratégia inicial da Tindle é fazer parcerias diretas com chefs renomados e restaurantes, movimento similar a outras concorrentes no mercado. Inicialmente, o produto oferecido aos chefs não tem formato definido e é similar a uma massa de modelar. Cabe a eles criar a forma final: bife, hambúrguer, almôndegas, por exemplo. Menezes afirma, contudo, que está nos planos da empresa lançar produtos em supermercados, prontos para consumo.

Lançada no auge da pandemia do coronavírus, a startup enfrentou "difíceis momentos de decisão", segundo ele. "Nosso primeiro grande momento foi em abril, quando o mundo realmente derreteu, e nossa primeira reação foi: será que a gente começa essa jornada ou espera a pandemia acabar? Mas o espírito empreendedor falou mais alto", diz.

Segundo ele, os desafios práticos se acumularam, desde a contratação de time e negociação de parcerias remotamente até a contratação da produção em outro país. "Negociamos capacidade com a Europa virtualmente, foi um marco. Nunca na minha vida de indústria de alimentos existiu a remota possibilidade de alguém falar em desenvolver fornecedor e escalar produção sem visitar a fábrica", diz. "Hoje, tudo isso parece trivial, mas não era em abril do ano passado".

Estadão
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