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Com loja própria e serviço de reforma, Creditas mira 'banco do futuro'

Startup comandada pelo espanhol Sergio Furio lança nesta quarta-feira a Creditas Store, que oferecerá iPhones a partir de crédito consignado privado; em crescimento acelerado, fintech já passou de 1,6 mil funcionários

5 fev 2020
05h11
atualizado às 09h44
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Ao iniciar suas atividades, em 2012, a fintech Creditas tinha uma meta: ajudar o brasileiro a pagar menos juros. Oito anos depois e com a taxa Selic em piso histórico de 4,5% ao ano, a empresa está ampliando sua missão: quer "resolver os problemas dos clientes", segundo o fundador Sergio Furio. Para isso, a startup tem ido além de produtos financeiros. Um dos novos serviços acaba de entrar no ar: a Creditas Store, loja online da startup em que é possível fazer compras usando crédito consignado privado. Até agora, o único produto à venda é um sonho de consumo de muita gente: o iPhone.

Desde segunda-feira, funcionários das empresas parceiras da Creditas em crédito consignado podem entrar no site da loja e adquirir smartphones da Apple. Para o iPhone 11, há três diferentes contratos, todos em até 24 parcelas. Por R$ 145 por mês, o consumidor pode utilizar o aparelho por até dois anos. Ao fim do período, é possível escolher devolver o produto e pegar um novo, pagando a mesma parce la, ou pagar R$ 1,5 mil para ficar com o celular, numa espécie de "leasing". Também dá para pagar uma parcela maior, de R$ 208 por mês, e virar dono do aparelho.

Nos dois últimos casos, a soma dos valores dá R$ 5 mil - o mesmo valor cobrado pela Apple pelo iPhone 11 com 64 GB de memória. Em termos práticos, isso significa que a Creditas não está cobrando juros pelo telefone - em outros modelos de iPhones vendidos pela Creditas, porém, há taxas em torno de 1% ao mês. "Nosso ganho com esse serviço vem do corte de duas partes da cadeia: o processamento de pagamentos e a margem de lucro do varejo", diz o espanhol Furio, em entrevista ao Estado.

Com a loja, a Creditas quer atender quem deseja consumir, mas não tem cartão de crédito ou limite suficiente para compras de valor - o que, na visão de Furio, emperra o varejo no País. "Resolvemos o problema usando um modelo bancário. O sistema só para em pé porque o salário vira garantia", conta.

Segundo a empresa, cursos e viagens de intercâmbio devem chegar em breve à Creditas Store. Também não estão descartados eletrodomésticos e viagens. "Tudo que tiver tíquete alto faz sentido para nós", afirma Fábio Zveibil, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da startup.

Para Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper, é um sistema inovador. "Uma das vantagens é a criação de uma linha diferente de crédito. Pode atrair não só quem não tem cartão, mas também quem não quer gastar o limite e correr o risco de se enrolar", afirma. "O desafio será convencer as pessoas que vale a pena."

Impulso

A busca por linhas "alternativas" de crédito, além do cartão e do cheque especial, é a bandeira da Creditas desde seus primeiros dias. Hoje, os dois produtos principais da empresa são empréstimos com garantia, com base em imóveis ou carros, de menor risco. "O salário também ajuda a remover a incerteza, porque é uma renda que a pessoa vai ter", diz Furio, que entrou no consignado em setembro de 2019. Para alavancar a operação, a Creditas comprou uma startup do segmento, a Creditoo, em agosto.

A operação foi possível graças aos recursos de um aporte de US$ 231 milhões liderado pelo SoftBank, em julho. Os valores também foram usados para abrir um escritório de tecnologia em Valência, terra natal de Furio. "Foi o time de lá que criou o sistema da Creditas Store", diz o espanhol. Na cidade, trabalham cerca de 30 pessoas. A meta é chegar a 100 até o fim do ano.

No Brasil, a empresa também tem crescido, com cerca de 100 contratações ao mês - ao todo, a Creditas tem 1,6 mil funcionários. Está presente em São Paulo, Porto Alegre, Recife, Valência e na Cidade do México. "Precisamos estar em todos os lugares para atrair o maior número de talentos possível", explica Furio. Com tanta gente, a empresa vai precisar se mudar até o fim do semestre para um novo escritório em São Paulo - hoje, ocupa seis andares de edifícios comerciais na região do Brooklin, na zona sul.

Renovação

Reformar a casa é algo que a fintech também quer ajudar os brasileiros a fazer. Hoje, a startup já assume a obra de quem busca empréstimo para fazer reformas em suas residências. "Percebemos muitos pedidos na plataforma. Em muitas vezes, a pessoa precisava pedir um novo empréstimo porque estourou os gastos", diz Furio. "Com a reforma, podemos trazer eficiência para o processo."

A Creditas passou a contratar arquitetos e engenheiros, que comandam as obras, enquanto uma equipe de terceirizados põe a mão na massa. Para Guilherme Horn, conselheiro da Associação Brasileira de Fintechs, a ideia traz complexidade para o dia a dia da startup. "Na teoria, o serviço traz conveniência ao consumidor, mas também traz variáveis de construção, difíceis de se padronizar", diz. Já Rocha, do Insper, crê que o serviço pode ajudar a startup pelo efeito de rede.

Na visão de Furio, por a mão na massa pelo cliente é o que vai diferenciar as empresas do setor financeiro. "A tecnologia vai transformar o serviço financeiro em commodity, com margens e rentabilidades menores. Vai se destacar aquele que resolver o problema das pessoas", diz. Seguindo essa lógica, a startup não para de fazer projetos. "Se temos menos de 30 planos sobre a mesa, estamos ociosos", brinca Zveibil.

Para Horn, essa é a marca de um novo momento das fintechs. "Há uma queda de fronteiras entre setores, misturando varejo, serviços financeiros e outras áreas. É preciso buscar outras linhas de receita", afirma o especialista. "O movimento da Creditas está em linha com o que se vê no mundo."

E por falar em mundo, outro plano da startup para os próximos meses é fincar sua bandeira no México. Até o final do primeiro trimestre, a Creditas pretende começar a rodar seus serviços no país latino, onde já tem um escritório com cerca de 30 pessoas. Neste momento, a startup já conseguiu sua licença para operar por lá e está adaptando sua tecnologia. "Queremos começar com todos os produtos de uma vez, os times estão apostando corrida para ver quem estreia antes", diz Furio.

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Estadão
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