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Colecionador de 'unicórnios', Kaszek mira próxima geração de startups com novos fundos

Gestora desbravou o ecossistema de startups latino-americano e completa 10 anos neste mês com mais US$ 1 bilhão para investir

16 jun 2021 17h02
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Hoje é fácil voltar os olhos para o Nubank: na semana passada, a empresa fixou seu lugar como um gigante do setor financeiro ao fechar um aporte de US$ 1,15 bilhão, o maior já recebido por uma startup latino-americana. Mas nem sempre foi assim. Quando o Nubank era uma apresentação de PowerPoint e o ecossistema de inovação latino-americano ainda era mato, eram poucos os que apostavam na startup. Um desses nomes era o da gestora Kaszek, que completa dez anos neste mês de olho na próxima geração de unicórnios da região com dois novos fundos que somam US$ 1 bilhão.

Criado em 2011, o Kaszek é um projeto dos argentinos Hernán Kazah e Nicolas Szekasy, dois cofundadores do Mercado Livre - o nome Kaszek veio da junção dos dois sobrenomes. Depois de uma década na gigante argentina de e-commerce, Kazah e Szekasy passaram a mirar o potencial tecnológico da América Latina como um todo. Assim, o tiro certo no Nubank não foi um caso isolado. O Kaszek ostenta uma coleção de nove unicórnios em seu portfólio: além da fintech, a gestora investiu nas startups latinas bilionárias QuintoAndar, Creditas, Loggi, Gympass, MadeiraMadeira, Kavak, Bitso e PedidosYa.

"Era claro para nós que a mesma transformação tecnológica que acontecia nos EUA e China estava acontecendo também na América Latina. Estávamos vendo isso de perto no Mercado Livre: crescíamos em níveis exponenciais", conta Szekasy, em entrevista ao Estadão.

Com essa ideia, o Kaszek desbravou o mercado latino de inovação numa época em que pouca gente por aqui sabia o que era uma startup. "Eles iniciaram o processo de investimento de forma bem ousada, em um ecossistema que ainda estava nascendo: não havia muito suporte, não existiam aceleradoras e nem organizações de investidores-anjo", lembra Fabiany Lima, fundadora da empresa de investimentos DiliMatch.

O primeiro fundo levantado pela gestora, logo no primeiro ano de operação, foi de US$ 95 milhões. Desde então, os tickets aumentaram: o segundo foi de US$ 135 milhões em 2014 e o terceiro de US$ 200 milhões em 2017. No ano de 2019, o Kaszek levantou dois fundos, um de US$ 375 milhões e outro de US$ 225 milhões voltado a investimentos maiores nas startups que já estavam em seu portfólio. Recentemente, foram anunciados dois novos fundos que somam US$ 1 bilhão - os recursos devem ser direcionados a cerca de 45 empresas da região.

Ao todo, o Kaszek já investiu em 91 empresas. No Nubank, especificamente, a gestora começou a participar de aportes logo na rodada seed, que foi de US$ 2 milhões em 2013, ano de fundação da fintech. "O Kaszek foi um dos primeiros parceiros a acreditar na nossa visão de desburocratizar os serviços financeiros, mesmo quando ninguém mais achava que seria possível", comenta ao Estadão David Vélez, fundador do Nubank.

Visão

A maioria dos investimentos do Kaszek é direcionada à startup logo no começo de sua vida - às vezes, quando a viabilidade do produto ainda está sendo testada. Na hora de decidir se vale investir, a gestora não tem muitos números do negócio para olhar. O caminho encontrado foi analisar o empreendedor: "Avaliamos o fundador da startup: sua visão, comprometimento, capacidade de pensar estrategicamente, operar e executar. O mais importante para a gente é o time de fundadores", explica o cofundador do Kaszek.

Além disso, a gestora tem como critérios investir em um mercado grande: a startup deve ter à sua frente um espaço ambicioso a ser explorado. "Se um bom time está trabalhando em uma oportunidade pequena, mesmo que ele tenha sucesso não será interessante", afirma Szekasy. Além disso, o Kaszek leva em consideração a solidez do modelo de negócios da empresa.

Fabiany, da DiliMatch, afirma que a estratégia de investimentos do Kaszek foi uma novidade na região. "Fora do Brasil existe o conceito de olhar para o fundador, mas aqui não. O investidor brasileiro tradicionalmente tende a se prender nos resultados já realizados e não trabalha tanto com a visão de futuro quanto o Kaszek", diz.

Para Guilherme Fowler, professor de inovação do Insper, um dos segredos do Kaszek é a capacidade de enxergar no escuro: "Eles desenvolveram essa competência, e a experiência no Mercado Livre deve ter sido um grande treinamento. Quando a empresa nasceu em 1999, o mercado de tecnologia na região era um faroeste".

Selo de qualidade

Parte do sucesso do Kaszek é atribuído à relação próxima que a gestora mantém com os fundadores em que investe - mesmo depois que as startups já estão "grandinhas".

Sergio Furio, fundador da Creditas, conta que pelo menos uma vez por mês tem uma conversa com Szekasy, que faz parte do conselho da startup. "Desde o começo, eles ajudaram em questões operacionais, como produto e marca. E, até hoje, quando surge algum tema específico que é estratégico, como uma transação de M&A ou uma parceria comercial importante, falamos dias seguidos, por WhatsApp mesmo", diz Furio, em entrevista ao Estadão. "É como uma relação de confidente. O Nicolas é aquele tipo de pessoa calma, que ao mesmo tempo te questiona e pressiona". A Creditas recebeu o primeiro aporte do Kaszek em 2016, na sua rodada Série A de US$ 4,5 milhões.

Estar perto dos fundadores não é bom só para as startups. "Quando vamos levantar um próximo fundo, novos investidores conversam com os fundadores das startups em que já investimos e checam referências sobre nós", afirma Szekasy.

A gestora também tem feito um trabalho importante de conectar fundadores de startups latinas com investidores estrangeiros, que passam a ser essenciais em rodadas de cheques maiores, cada vez mais frequentes no ecossistema.

No caso do QuintoAndar, por exemplo, a ajuda foi fundamental na captação de vários aportes, diz o fundador da startup, Gabriel Braga, ao Estadão. "O QuintoAndar é peculiar pelo fato de não ter outra referência de empresa parecida fora do Brasil. Por um lado, isso chama a atenção, mas por outro gera uma incerteza em investidores estrangeiros que não entendem a realidade do Brasil. A experiência de como se preparar para essas rodadas e o respaldo que é a presença do Kaszek na empresa foram decisivos para a gente", afirma Braga.

Funciona quase como um selo de qualidade: "Como o Brasil e a América Latina são ambientes de negócios caracterizados por vácuos institucionais, o investidor estrangeiro vai buscar sinalizações que indiquem que determinada oportunidade de investimento é de fato boa. O Kaszek entra nisso com a função de criar uma reputação, e isso certamente tem favorecido o ecossistema", diz Fowler, do Insper.

Olhando para frente, o Kaszek espera manter sua atuação por décadas. Szekasy já coloca suas fichas em empresas que ainda não existem: "Veremos o ecossistema continuar a crescer. Esperamos ver daqui a uma década empresas latinas de sucesso que ainda não estão no mercado hoje: elas serão fundadas nos próximos anos".

Estadão
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