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Centros de inovação apostam em modelo híbrido para retomada pós-pandemia

Ainda é incerta a proporção que o espaço físico deve tomar, mas relações interpessoais devem ganhar novo significado sob 'phygital'

22 set 2021 17h01
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O avanço da vacinação permite esboçar planos para uma vida pós-covid. Nessa retomada, os centros de inovação, conhecidos pelos espaços físicos que reúnem startups e empreendedores em bancadas de trabalho coletivas (além de oferecer café e água saborizada, mesas de pingue-pongue e pufes para descanso), apostam que o futuro não será como antes - e nem como é hoje, com tudo feito à distância. Centros como o Habitat, do Bradesco, o Cubo, do Itaú, e o Google for Startups enxergam um futuro híbrido para os seus espaços.

Até 2020, esses locais registravam fluxo intenso de pessoas - no Google for Startups, em São Paulo, 4 mil "startupeiros" circulavam mensalmente pelo espaço. Isso porque, além de sentar à mesa para disparar e-mails e fazer telefonemas, realizar encontros com desconhecidos pelos corredores fazia parte da rotina de negócios. O cenário, é claro, mudou com a chegada da covid.

Desde então, os centros de inovação precisaram tomar um caminho diferente, apostando tudo no digital. A criação de bancos de dados internos, com nome e área de atuação das startups, tentaram facilitar a conexão entre empreendedores desconhecidos. Além disso, eventos passaram a ser transmitidos online, permitindo que centenas de participantes de novas regiões do Brasil assistissem.

"Percebemos que o modelo conectado amplia a atuação pelo Brasil", conta ao Estadão Renata Petrovic, diretora do Habitat, prédio de inovação do Inovabra. Segundo ela, houve um aumento de 25% de público em eventos transmitidos online, na comparação com as reuniões físicas pré-pandemia. A executiva explica que não haver deslocamento de um bairro para outro está entre os motivos para atrair uma parcela maior de público. Além disso, o formato passou a possibilitar que vários representantes de uma mesma startup comparecessem aos eventos, o que antes era raro. "Acaba facilitando o acesso aos conteúdos do evento", observa.

Atualmente, o Habitat, do Inovabra, conta com até 300 pessoas por dia comparecendo ao prédio. Nos velhos tempos, esse número chegava a até 2 mil pessoas. No momento mais crítico de 2020, chegou a apenas 30 pessoas.

"Durante a pandemia, nosso objetivo foi tentar manter esse ecossistema vivo para dar visibilidade às startups, que poderiam sofrer com a paralisação da pandemia. E aí transferimos todas as atividades para o digital", explica Renata.

Com um campus na capital paulista (ainda totalmente fechado para visitantes), o Google for Startups, programa de aceleração de companhias de tecnologia impulsionado pela gigante de buscas, também percebeu que o caminho digital trazia audiência de todo o País. Além disso, a empresa percebeu que a nova modalidade tornou mais fácil reunir startups (virtualmente, é claro) com figurões do mundo tecnológico de fora do Brasil.

"Com o digital, conseguimos acessar especialistas do Google de qualquer parte do mundo. Antes, ao colocar em vídeo um especialista de outro país em uma sala cheia de empreendedores, isso talvez fosse percebido como uma experiência menos valiosa", conta André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina. "Hoje, tornou-se algo absolutamente normal."

Além de o digital tornar-se o "novo normal" nestes tempos, a ferramenta provou que pode trazer mais eficiência. "O trabalho no digital tem sido eficiente e proporciona, mais diversidade, porque consegue realizar maior inclusão de pessoas distantes em uma mesma equipe, o que traz uma colheita maior de opiniões. E isso atrai mais inovação ao ecossistema", explica Eduardo Jotta, professor de inovação do Insper.

Para Gilberto Sarfati, professor de inovação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a diversidade de startups proporcionada pelo modelo híbrido é positiva para o cenário brasileiro de inovação — ainda que, para ele, o contato físico e os encontros de corredor se mantenham como o horizonte preferido.

"O modelo puramente online não é o ideal para o desenvolvimento do setor, mas abre novas possibilidades que podem acelerar conexões", explica. "No fim, os hubs de inovação vão sair maiores ao final desta pandemia, já que oferecem às empresas a possibilidade de viver entre esses dois ambientes, o físico e o digital."

Proporção

O futuro aponta para um cenário phygital (junção das palavras em inglês physical com digital), mas ninguém sabe qual será a proporção.

"A sede do nosso prédio vai ter usos muito diferentes do que tinha antes", prevê Pedro Prates, o responsável pelo Cubo, do Itaú. Com o modelo híbrido em prática, as equipes podem ser mais flexíveis, com metade dos funcionários em casa e outra parte no escritório — reduzindo, portanto, os custos com aluguel do espaço, que é cobrado pelo número de cadeiras ocupadas. Outra possibilidade para o futuro é permitir a reserva de somente uma sala de conferência no dia. "Temos investido em microsserviços de usos possíveis do nosso prédio", completa.

Parte da trilha do caminho híbrido acontece porque os protocolos sanitários devem continuar. Nada de eventos lotados e somente parte dos convidados poderão comparecer presencialmente, diz Renata. "Não vamos mais ter auditórios com 180 pessoas. E outro desafio é fazer um controle sobre quem pode entrar, como pessoas totalmente vacinadas e apresentação de comprovantes de vacinação", explica.

Assim, o espaço físico ganhará um significado adicional que antes não existia, explica Barrence. "Ter o espaço físico como um ponto de encontro vai ter muito valor e vai ser maior do que no período pré-pandemia", observa. "As pessoas vão ter a intenção de estarem presentes e vai haver muito mais qualidade nessas interações."

Estadão
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