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Apesar da escassez de chips, inovações na área explodem

Tanto gigantes da indústria quanto startups inovadoras estão experimentando um pico nos investimentos de capitalistas que tradicionalmente evitavam fabricantes de chips

7 jun 2021 09h10
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Apesar de uma escassez global de semicondutores ameaçar os planos de fabricantes de automóveis e outras empresas, o campo dos semicondutores está entrando em uma nova e surpreendente era de criatividade: tanto gigantes da indústria quanto startups inovadoras estão experimentando um pico nos investimentos de capitalistas que tradicionalmente evitavam fabricantes de chips.

Executivos do Vale do Silício como Aart de Geus estão sentido esse efeito positivo. Ele é presidente e codiretor executivo da Synopsys, a maior fornecedora de softwares que os engenheiros usam no desenvolvimento de chips. Esse posto dá a De Geus uma perspectiva íntima de uma indústria sexagenária, que até recentemente dava sinais de sofrer pela idade.

E parece que todo mundo agora quer a opinião dele, conforme mostram dezenas de e-mails, chamadas e comentários que recebeu após participar de uma recente reunião online para clientes. A Synopsys afirmou que funcionários de 408 empresas acompanharam o evento — mais que o dobro do público que compareceu à última reunião presencial do tipo, em 2019 — e muitas dessas firmas não são fabricantes convencionais de chips.

Os profissionais representavam serviços de nuvem, firmas de eletrônicos, empresas da indústria bélica, fornecedores de peças automotivas, agências do governo americano, duas mineradoras de bitcoin e uma fabricante de móveis. Sua principal dúvida era: como desenvolver chips mais rapidamente?

A Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. e a Samsung, por exemplo, realizaram o cada vez mais difícil feito de conseguir instalar ainda mais transistores em cada fatia de silicone. A IBM já anunciou mais um passo no caminho da miniaturização, um sinal da continuidade da excelência americana na guerra tecnológica.

Talvez mais impressionante, novas fabricantes de chips, que anteriormente gotejavam no mercado, agora formam uma torrente que inunda o setor. Durante anos, investidores em ações consideraram empresas de semicondutores caras demais para se constituir, mas em 2020 eles despejaram mais US$ 12 bilhões em 407 firmas relacionadas a chips, de acordo com a CB Insights.

Apesar de concentrar uma pequena fração do investimento geral em ações, essa quantia representou mais do que o dobro do que a indústria recebeu de investimento em 2019 e oito vezes mais do que o total de 2016. A Synopsys está acompanhando mais de 200 startups que desenvolvem chips para inteligência artificial, a supertecnologia presente em todo o tipo de novos produtos, de alto-falantes inteligentes a carros autônomos.

A Cerebras, uma startup que vende imensos processadores de inteligência artificial que ocupam uma fatia inteira de silicone, por exemplo, atraiu mais de US$ 475 milhões. A Groq, uma startup cujo diretor executivo trabalhou anteriormente desenvolvendo chips de inteligência artificial para o Google, captou US$ 367 milhões.

"É um baita milagre", afirmou Jim Keller, desenvolvedor veterano de chips cujo currículo inclui passagens por empresas como Apple, Tesla e Intel, que agora trabalha para a startup de chips de inteligência artificial Tenstorrent. "Dez anos atrás, fundar uma startup de hardware estava fora das possibilidades."

Alta demanda

Essas tendências, porém, são necessariamente boas notícias para compradores de chips, pelo menos no curto prazo. Estoques escassos de muitos tipos de chips dificultaram a expansão da produção de fabricantes que os utilizam em seus produtos, e isso aumenta as preocupações nos Estados Unidos a respeito da dependência em relação a fornecedores estrangeiros. A demanda extra poderia prolongar a escassez, que já deve durar até 2022, de acordo com estimativas.

A alta demanda foi um fator determinante para os ganhos das empresas de chips no trimestre passado, que terminou em março. Por exemplo, a lucratividade da NXP Semiconductors, uma grande fabricante de chips para automóveis, comunicações e indústria, cresceu 27%, apesar de a empresa ter fechado temporariamente duas fábricas no Estado do Texas por causa de uma onda de tempo frio.

Essa indústria se notabiliza historicamente por expansões e contrações, normalmente ocasionadas por flutuações de demanda relacionadas a produtos específicos, como computadores pessoais e smartphones. A receita global das fabricantes de chips caiu 12% em 2019 e recuperou-se crescendo 10% no ano passado, de acordo com estimativas da empresa de pesquisas Gartner.

Mas há um otimismo cada vez mais comum de que esses ciclos se suavizarão, já que os chips são usados atualmente em produtos tão variados. Philip Gallagher, diretor executivo da Avnet, uma grande distribuidora de componentes para eletrônicos, citou exemplos como sensores para rastrear a localização de vacas leiteiras, acompanhar o fluxo de torneiras de cerveja e tubulações e registrar a temperatura de verduras e legumes. E o número de chips em produtos mais comuns, como carros e smartphones, continua aumentando, afirmam ele e outros executivos.

"Esse é um ciclo de crescimento duradouro, não um pico momentâneo", afirmou Kurt Sievers, diretor executivo da NXP.

Observador de longa data da indústria, Handel Jones, diretor da consultoria International Business Strategies, prevê que a receita total das vendas de chips terá um ritmo constante de crescimento, até atingir US$ 1,2 trilhão em 2030 - partindo de aproximadamente US$ 500 bilhões este ano.

Esse crescimento poderia ocorrer no exato momento em que a indústria se transforma de maneira fundamental. Mais empresas estão concluindo que softwares executados por microprocessadores estilo Intel não são a melhor solução para todos os problemas. Por essa razão, empresas como Cisco Systems e Hewlett Packard Enterprise desenvolveram há muito tempo chips especializados para produtos como equipamentos de rede.

Gigantes como Apple, Amazon e Google entraram em ação mais recentemente. O YouTube, unidade do Google, revelou recentemente seu primeiro chip desenvolvido internamente destinado a acelerar a codificação de vídeos. E até a Volkswagen declarou na semana passada que pretende desenvolver seu próprio processador para carros autônomos.

Equipes de desenvolvimento de chips não estão trabalhando apenas para fabricantes tradicionais de chips, afirmou Pierre Lamond, investidor de 90 anos que se juntou à indústria dos chips em 1957. "Elas estão inovando em muitos aspectos", afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Estadão
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