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A maior inovação pede muita inovação

25 anos depois do big bang, a internet tem problemas que seus criadores nunca previram, até porque o problema original era criar uma rede quase indestrutível e o resto era uma utopia dos e para todos os usuários

3 jul 2019
05h11
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É difícil fazer uma lista das maiores inovações dos últimos anos sem citar a internet. Numa lista de 2009, que resiste ao tempo, a internet está em primeiro lugar (e mais de 20 das 30 inovações são digitais). É como dividir a história em três tempos: analógico, do princípio até meados do século XX; digital, dos primeiros computadores digitais, depois da Segunda Guerra (ou da Tese de Turing-Church, e 1936 seria a data) e, depois, em rede, a partir da internet comercial, em 1995.

Com smartphones e a universalização da conexões, passamos a viver num mundo digital e em rede. Em alguns países, tudo virou digital e conectado em algumas décadas, com serviços e hábitos completamente mediados pela rede. O exemplo mais impressionante é a China.

Mas o passado, quase sempre, captura o futuro de volta para o passado, no presente. Chico Saboya diz que o tempo para o "sistema" capturar uma inovação sistêmica é 25 anos. Capturar, aqui, no pior sentido: se uma inovação que mudaria o sistema não destrói o passado no seu primeiro quarto de século. No processo destrutivo, cria uma nova ordem, o velho "sistema" captura o futuro e o põe a seu serviço, pra se manter, num longo e ultrapassado presente.

A internet foi pensada como uma rede de redes. No começo, domínios nem tinham códigos de países. Logo depois, a rede começou a ter fronteiras digitais e o Brasil passou a ser ".br" e o Irã, ".ir". Nós comemoramos; o ".br" sempre esteve entre os principais domínios da rede. E o Irã logo criou filtros para "proteger" seu povo da rede global, assim como a China e muitos outros.

Seguiu-se uma longa história de fragmentação, parte da qual é o novo sistema de regulação e proteção cidadã na rede, com GDPR na Europa e LGPD no Brasil, só para citar dois "sistemas". Ao lado do passado, o futuro também criou mais fragmentação, supervisão, automação e otimização, sem falar em desinformação, misinformação e malinformação que transformaram a Internet numa miríade de narrativas, criadas por todos os interesses que se possa imaginar, inclusive o de descobrir a verdade dos fatos, no seu contexto.

25 anos depois do big bang, a internet tem problemas que seus criadores nunca previram, até porque o problema original era criar uma rede quase indestrutível e o resto era uma utopia dos e para todos os usuários. Hoje, será que, primeiro, é preciso; segundo, em que bases; terceiro refundar a Internet? E quem faria isso, num mundo tão fragmentado - até por causa, em parte, da própria internet? 25 anos depois, a maior inovação dos últimos 25 anos precisa de uma inovação, que a torne, de novo, o que sempre se destinou a ser: a rede global que há de unir a tudo e a todos.

É PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO DA CESAR.SCHOOL, FUNDADOR E PRESIDENTE DO CONSELHO DO PORTO DIGITAL E CHIEF SCIENTIST NA DIGITALSTRATEGY.COMPANY

Estadão
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