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'A América Latina ganhou importância com resultado e talento', diz chefe do SoftBank no Brasil

Pela primeira vez, a América Latina teve seus números mostrados separadamente nos resultados do SoftBank, como um segmento dentro do gigante japonês

11 ago 2021 05h03
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A América Latina ganhou novo status para o SoftBank. Pela primeira vez, a região, que entrava na divulgação dos resultados como 'outros mercados' do gigante japonês, teve seus números mostrados separadamente, como um segmento dentro do SoftBank - ao todo, o grupo tem US$ 88,2 bilhões investidos em todo o mundo. "É uma versão do ovo e da galinha: (o destaque) é um reflexo da importância que a região está tomando, dos resultados alcançados, da capacidade de talentos e das empresas surgindo", diz Alex Szapiro, há quatro meses como chefe da operação brasileira.

Dos US$ 5 bilhões destinados à América Latina, no fundo lançado em setembro de 2019, o SoftBank já investiu em 48 empresas na região, sendo 44 já anunciadas e outras quatro a serem reveladas em breve. Até agora, já foram alocados US$ 3,5 bilhões. Caso as empresas investidas fossem avaliadas a valor de hoje, com base nas que são públicas ou as que já tiveram novas rodadas de investimento, o valor estaria em US$ 6,9 bilhões. A taxa interna de retorno dos investimentos na região é de 104%.

Das 48 empresas investidas na região, 65% estão no Brasil, cerca de 25% no México, e o restante em outros países da América Latina. Dois terços dos unicórnios (empresas com valor superior a US$ 1 bilhão) da região receberam investimento do SoftBank em algum momento - entre elas, Vtex, Unico e Banco Inter. No último trimestre, a valorização dos investimentos foi de US$ 2 bilhões. Szapiro, que no passado esteve à frente das operações da Amazon, Apple e Palm no Brasil, deu entrevista ao Estadão/Broadcast. A seguir, confira os melhores momentos.

Com os resultados obtidos, o SoftBank tem alguma prioridade na hora de escolher em quais empresas vai investir?

Somos agnósticos: investimos em empresas de educação, bem-estar, fintechs, B2B (negócios entre empresas), consumo, logística. Uma das coisas boas do SoftBank é não ter um manual de regras. A vantagem é ter capacidade de investir em empresas de capital aberto e também em companhias menores, com potencial grande. A tese por trás é sempre a mesma: são empresas com talento magnífico, que resolvem problemas que ninguém conseguiu solucionar, já mostraram capacidade de crescer lá atrás e têm o mesmo caminho pela frente. Nossa ideia é sempre poder ajudá-las a avançar mais rápido.

O sr. teve experiências bastante diferentes em outras empresas. É uma nova 'encarnação' na sua carreira?

Meu trabalho é ajudar a olhar empresas na América Latina e melhorar sua operação. Há companhias nas quais ajudamos a encontrar talentos (às vezes até mundialmente), ou a fazer um plano de compensação, ou mesmo com coisas esporádicas, como achar um armazém, precificar produtos, entender qual a melhor plataforma tecnológica após várias aquisições. Quando volto às minhas experiências pregressas (eu empreendi em grandes empresas, muitas vezes do zero, na Apple, na Amazon, na Palm), era um pouco isso: olhar quais negócios íamos lançar no Brasil, como fazer, quais talentos traríamos e as estratégias para chegar lá. A diferença é que aqui são negócios muito distintos. O capital virou uma commodity e nosso papel, como SoftBank, é ajudar empresas em fases distintas. Tem empresas que precisam de muita ajuda no começo, outras de uma mão esporádica. O papel do venture capital, além do dinheiro, é prover ajuda no dia a dia das empresas.

O SoftBank já fez apostas erradas. O impacto desses investimentos aparece nesta divulgação de resultados?

(Investir errado) faz parte do negócio. Como capital de risco, não dar certo muitas vezes significa que a marcação do investimento teve alguma desvalorização específica, mas pode ter retomar daqui a alguns meses. São investimentos de longo prazo. Nosso fundo vai até 2029, e temos de olhar nos próximos 8 ou 9 anos.

A indústria global, de maneira geral, têm excluído a América Latina em suas previsões de investimento. É um movimento oposto ao do SoftBank?

São movimentos correlatos. A startup MadeiraMadeira, do nosso portfólio, resolve problemas que as pessoas têm para encontrar móveis para suas casa e tem uma indústria por trás. Após ser investida, a empresa começa entregar em lugares nos quais não tinha capacidade de chegar. Em outro caso, companhias que recebem soluções de ERP (sistema de gestão) ganham facilidade de controlar custos e a eficiência volta à economia. Pode ser reinvestido no produto ou virar lucro. De toda maneira, é mais dinheiro circulando na economia. A indústria não pode ser separada na tecnologia. Tecnologia melhora processos e resolve problemas de maneira mais eficiente.

Ficou mais difícil vender a América Latina para as matrizes?

Nunca tive dificuldade de vender a América Latina para fora. A região tem quase 700 milhões de pessoas, com um PIB maior do que o da Índia. É uma região estável, mesmo com incertezas pontuais, com uma classe média que tende a acelerar. Todos lugares pelos quais passei olharam a América Latina como uma região para investimento de longo prazo. Nos primeiros cinco meses deste ano, inclusive, a entrada de capital para a indústria de venture capital foi 5,5 vezes superior, de mais de US$ 7 bilhões, em relação ao ano passado.

Mas não preocupa o aumento da pobreza e a piora na educação, com a pandemia?

Sim e tenho grandes preocupações. Mas nosso portfólio tem vários investimentos em educação e parte de nossas apostas é na existência de um espaço muito grande para revolucionar a educação no Brasil e na América Latina com tecnologia. De maneira simplificada, nossa tese nessas empresas está muito alinhada a isso: grandes problemas macro, nos quais empresas têm ótimas soluções usando tecnologia para baixar o custo de entrada e dar o melhor conteúdo para estudantes. Ao mesmo tempo em que podemos fazer boas apostas e ter bons retornos sobre investimentos, podemos resolver esse tipo de problema.

O ESG (boas práticas ambientais, de sustentabilidade e governança, na sigla em inglês) está tendo peso maior na hora de decidir investimentos?

Em todos as avaliações antes de investimentos, fazemos a leitura ESG e temos especialistas que ajudam as empresas a avançar em seus processos, nesse sentido. Em itens como, por exemplo, fazer embalagens menores ou consumir menos eletricidade. Já é parte do dia a dia e tende a ser ainda mais usado.

O time do Softbank foi reforçado com sua chegada e de outros profissionais renomados. O que esse movimento significou?

Uma das coisas que mais me impressionou aqui e que me fez vir para cá foi a qualidade do time. No fim do dia, queremos trabalhar com gente extraordinária, mais inteligente que você, em que se pode aprender e colaborar, em uma cultura muito positiva e transparente. O sucesso é uma combinação de capital financeiro com o capital humano. Estou aprendendo muito.

Estadão
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