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Imprevisível, coronavírus tira o sono de executivos da indústria de tecnologia

Empresas do setor interromperam produção em fábricas e fecharam lojas no país asiático; dificuldade de se prever quando doença será controlada pode trazer consequências como escassez de componentes e alta em preços de eletrônicos em todo o mundo

16 fev 2020
05h10
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Mais de 1,3 mil mortes, pelo menos 64 mil pessoas infectadas e um prejuízo ainda incalculável para a economia global. Além de ser uma ameaça para a saúde mundial, o coronavírus está tirando o sono de executivos da indústria de tecnologia. Por causa do surto, a produção de fábricas chinesas foi interrompida. Lojas no país foram fechadas. E até mesmo a maior feira de celulares do mundo, a Mobile World Congress (MWC), prevista para o fim do mês em Barcelona, foi cancelada. A indústria de smartphones e PCs será a mais atingida pela doença, segundo previsão da consultoria Gartner, em amostra do quanto o mercado de tecnologia depende da China.

Identificado pela primeira vez em dezembro de 2019, na província de Wuhan, o coronavírus se tornou uma ameaça global rapidamente. Com ritmo de disseminação rápido, o vírus tem motivado a tomada de precauções em toda parte. Devido a ordens do governo chinês, as fábricas da Foxconn estão paradas desde a última semana de janeiro - a empresa é conhecida por liderar a produção de iPhones no mundo. Segundo cálculos de analistas, uma semana sem produção da Foxconn faz a Apple perder o equivalente à venda de um milhão de iPhones.

A companhia de Tim Cook está longe de ser a única afetada. No começo da semana, a consultoria de pesquisas TrendForce informou que a produção global de smartphones deve cair 12% no primeiro trimestre de 2020, atingindo seu menor nível em cinco anos. Hoje, as cinco maiores marcas de celular do mundo, responsáveis por mais de 70% dos aparelhos comercializados no planeta, têm fábricas no país. Três delas - Huawei, Xiaomi e Oppo - são chinesas.

Além do impacto na produção, o vírus também provocou o fechamento de lojas de marcas como Apple, Samsung e Xiaomi. É algo que promete pesar no bolso das empresas: segundo a consultoria Canalys, as vendas de smartphones na China devem cair pela metade entre janeiro e março de 2020, na comparação com o mesmo trimestre do ano passado. Já a IDC aposta em queda de 30%.

Os números são significativos: no início de 2019, quando a Apple divulgou queda de 27% no faturamento com iPhones no país asiático, a empresa teve um de seus maiores tombos da história na bolsa de valores, com queda de 10% nas ações em um só dia. Hoje, a China responde sozinha por cerca de 20% das receitas da companhia de Tim Cook. Em conferência com investidores, Cook já disse que a empresa busca meios de mitigar problemas na cadeia de suprimentos caso as fábricas permaneçam fechadas.

O cenário de indefinição fez a chinesa Alibaba alertar seus investidores para uma queda nas receitas de comércio eletrônico, decorrente do impacto do surto de coronavírus na cadeias de fornecimento e entregas de produtos. A Xiaomi também disse que prevê redução nas vendas no primeiro trimestre de 2020.

E os efeitos econômicos do coronavírus já são sentidos em outras partes do planeta: o medo pelo contágio provocou o cancelamento, na Espanha, da MWC, feira de tecnologia que movimenta US$ 500 milhões, segundo dados da organizadora do evento, a GSMA.

Contaminação

Embora seja palpável, o prejuízo causado pelo coronavírus ainda está longe de poder ser calculado. As primeiras respostas, dizem os analistas, devem vir nos resultados financeiros das empresas para o primeiro trimestre de 2020 - algo que só deve acontecer a partir de meados de abril. Parte da dificuldade nessa equação está justamente em precisar quanto estrago a doença ainda fará em todo o mundo.

Na última semana, o governo chinês previu que a epidemia será controlada até abril, o que permitiria a reabertura de fábricas. Não é uma opinião unânime: a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que não há informações suficientes para prever quando o avanço da doença será contido. Também não se sabe quando uma vacina para o vírus ficará pronta.

Brasil

A incerteza contamina mesmo quem não utiliza produtos de marcas produzidas na China. Em relatório recente, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) afirmou que 42% das importações de componentes no País vêm da China. Com a escassez de produtos, algumas fábricas podem parar no Brasil - em levantamento na última semana com 50 associados, a Abinee afirmou que 25 empresas tinham sido afetadas pela falta de insumos e que a paralisação poderia acontecer.

"Praticamente todos os aparelhos eletrônicos têm componentes feitos na China. Uma parte da câmera, um alto-falante ou um cabo de energia, muita coisa vem de lá", diz Pietro Delai, analista da IDC Brasil. "Não existe no mundo um lugar que tenha capacidade ociosa de produção para suportar a redução de fornecimento do mercado chinês."

Ao longo das últimas décadas, a China atraiu empresas de tecnologia por oferecer mão de obra abundante e barata. Ao longo do tempo, o país se especializou na produção e montagem de peças e aparelhos, distanciando-se do que está disponível em vizinhos, como Vietnã, Camboja ou Índia. "Algumas empresas estão buscando alternativas, mas não é uma mudança simples. Mesmo que as fábricas saiam da China, muitas peças ainda vêm de lá", afirma Brad Gastwirth, estrategista-chefe de tecnologia da corretora Wedbush Securities.

O processo de treinar novos fornecedores também não é simples: além da necessidade de investimento, é preciso afinar especificações, qualidade de materiais e cadeia de logística. "É um trabalho que não leva menos do que 120 dias", afirma o professor de economia internacional e chinesa do Insper Roberto Dumas. Tempo suficiente para que, segundo previsões otimistas, a epidemia já tenha sido controlada.

Pessimismo

Se um cenário desfavorável se instalar, com a epidemia não sendo controlada até o fim do semestre, é possível haver escassez de alguns eletrônicos no mercado. A Apple, que já vinha tendo problemas para atender a demanda global pelos fones de ouvidos sem fio AirPods, assume que a questão pode se intensificar.

Na visão de Dumas, não seria de todo inesperado que houvesse alta nos preços dos eletrônicos do Brasil. Outra consequência possível é a redução no ritmo de inovação em dispositivos. Se passar muito tempo preocupada com questões básicas, como garantir produção e distribuição global de seus últimos lançamentos, a indústria de tecnologia pode não conseguir ter foco ou mesmo recursos o suficiente para planejar como pode trazer novidades e surpreender o consumidor.

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Estadão
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