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Fim de uma era: radiotelescópio de Arecibo será desativado

Após quase 60 anos de operação, radiotelescópio do Observatório de Arecibo será aposentado; estrutura não oferece segurança para reparos

20 nov 2020
12h13
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O radiotelescópio do Observatório de Arecibo, um dos maiores do mundo e que contribuiu para a observação do espaço por mais de 50 anos, está dando adeus. A estrutura instalada em Porto Rico passou por anos de penúria e investimento limitado, e os efeitos desse descaso estão aparecendo agora: a estrutura foi considerada como além de reparos e será desativada.

Disco refletor do radiotelescópio de Arecibo, danificado após rompimento de cabo
Disco refletor do radiotelescópio de Arecibo, danificado após rompimento de cabo
Foto: Divulgação/Universidade Central da Florida / Meio Bit

Nesta quinta-feira (19), a Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos (NSF), agência independente que promove o ensino fundamental e a pesquisa em todos os campos da Ciência e Engenharia não relacionados à medicina, o que inclui astronomia, concluiu um relatório sobre o estado da integridade da estrutura do radiotelescópio, que conta com um disco refletor de 350 metros de diâmetro.

O problema principal não está no disco, e sim na estrutura de instrumentos suspensa, que é sustentada por cabos de aço d e 7,5 cm de diâmetro. Cada um desses cabos pesa 30 quilos por metro, e o conjunto de cabos principal é projetado para suportar um peso de até 544 toneladas.

Em agosto, no entanto um dos cabos auxiliares se rompeu, causando a queda de mais de 200 metros de aço (mais de 6 t) sobre o refletor, abrindo um buraco de 30 metros na estrutura, danificando o Domo Gregoriano, uma estrutura acima da antena parabólica da plataforma, e torcendo o acesso à plataforma.

No vídeo abaixo, de uma tomada aérea é possível ver o dano causado pelo cabo no domo da antena e no refletor:

https://www.youtube.com/watch?v=xlG5d27nArM

Três equipes de engenharia foram contatadas e estavam trabalhando para analisar a extensão dos danos, bem como a condição geral do radiotelescópio, porém, no dia 6 de novembro um segundo cabo se rompeu.

Desta vez foi um dos 12 cabos que compõem o conjunto principal de sustentação da plataforma suspensa, que cedeu sob uma tensão de 283 t, bem abaixo do originalmente especificado. Diferente do primeiro rompimento, entretanto, este cabo não se soltou.

A equipe de engenheiros identificou pontos de ruptura em mais dos cabos principais, e apontou para a possibilidade real de falha catastrófica em cascata a qualquer momento, o que poderia levar à queda da estrutura de instrumentos sobre o refletor.

Há a possibilidade de que tanto o furacão Maria, em 2017, quanto os terremotos ocorridos em 2019 e 2020, que afetaram as instalações, tenham causado danos nos cabos que agora, estão cedendo um a um.

Basicamente o radiotelescópio de Arecibo é uma tragédia esperando para acontecer; não é uma questão de se, mas de quando.

Dano causado pelo primeiro cabo que se rompeu, em agosto de 2020: um rombo de 30 metros no refletor
Dano causado pelo primeiro cabo que se rompeu, em agosto de 2020: um rombo de 30 metros no refletor
Foto: Divulgação/Universidade Central da Florida / Meio Bit

Arecibo vem passando por sérias dificuldades financeiras desde 2005, quando a NSF, sua única fonte de recursos, cortou investimentos para o radiotelescópio. O observatório como um todo não compreende apenas o radiotelescópio, e serve também como centro de divulgação científica e até como atração turística, uma das maiores de Porto Rico.

O observatório originalmente era administrado pela Universidade de Cornell, que a repassou para a Universidade Central da Flórida em 2011. Entre seus feitos ao longo de quase 60 anos de serviços prestados à Ciência, destacam-se:

  • Identificar o real período de rotação de Mercúrio, que é de 59 dias, e não 88 como se pensava (1964);
  • Pulsar do Caranguejo, a primeira evidência concreta da existência das estrelas de nêutrons, como subproduto de supernovas (1968);
  • PSR B1913+16, o primeiro sistema binário de pulsares (1974);
  • PSR B1937+21, a primeira pulsar de milissegundo descoberta, com um período de rotação de 1,557708 milissegundos, ou quase 642 rotações por segundo (1982);
  • 4769 Castalia, o primeiro asteroide capturado por imagem de radar (1989);
  • PSR B1257+12, vulgo "Lich", a pulsar localizada na constelação de Virgem que permitiu identificar exoplanetas pela primeira vez: Draugr, Poltergeist e Phobetor (entre 1990 e 1994).

Além disso, o radiotelescópio de Arecibo foi usado para mandar aquela famosa mensagem em 1974, criada por Frank Drake e Carl Sagan, em direção ao Grande Aglomerado de Hércules, a 25 mil anos luz de distância, e foi usado principalmente no programa SETI, de busca por vida inteligente no espaço.

O observatório também é conhecido do grande público, tendo aparecido em 007 contra Goldeneye, numa óbvia cena em que James Bond, aquele mané, destrói tudo por onde passa, e de forma bem mais digna em Contato, o filme baseado no romance de Carl Sagan, onde o radiotelescópio também é mencionado.

https://www.youtube.com/watch?v=RFOw79Oohv8

Segundo a NSF e a Universidade Central da Flórida, dois dos três grupos de engenheiros independentes concluíram é de que não há sequer a possibilidade de realizar reparos sem que hajam riscos à segurança dos profissionais, e não é possível sequer concluir a extensão dos danos e por que os cabos cederam com um peso de apenas 60% do projetado, quando o normal seria aguentar muito além do limite.

Assim, o radiotelescópio de Arecibo foi considerado além de reparos e será desativado.

Os trabalhos já foram iniciados: os dados e arquivos do laboratório serão movidos para a nuvem, enquanto que novas análises estruturais serão feitas para estipular como o desmonte da estrutura poderá ser feito, sem colocar em risco os trabalhadores e outros.

O legado de Arecibo será mantido, claro, tanto nos inúmeros dados que já foram coletados e continuarão a ser usados em pesquisas atuais e futuras, quanto por outros radiotelescópios, desde o FAST na China, ao RATAN-600 na Rússia.

Ainda assim, é triste ver um ícone da astronomia, conhecido até por quem não é do meio acadêmico, dar adeus dessa forma.

Fonte: University of Central Florida, AP.

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