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O homem que roubou a cena no depoimento do chefão do Google

Enquanto Sundar Pichai depunha no Congresso dos EUA, ativista chamou a atenção das câmeras ao se fantasiar como o símbolo do jogo Monopoly

11 jan 2019
05h11
atualizado às 08h18
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Um paletó, uma gravata vermelha, um bigode branco, um monóculo antigo e um chapéu preto foram os ingredientes necessários para um dos protestos mais divertidos de 2018 no mundo da tecnologia. No dia em que Sundar Pichai, presidente executivo do Google, foi depor no Congresso americano, em dezembro, ele teve a companhia do personagem-símbolo do jogo Monopoly (conhecido aqui no Brasil por muito tempo como Banco Imobiliário). A figura curiosa não precisou nem falar: ele apenas sentou-se atrás de Pichai, roubando a atenção das câmeras e chamando a atenção para a ideia de que o Google pode, talvez, ser sim um monopólio.

  REUTERS/Arnd Wiegmann
REUTERS/Arnd Wiegmann
Foto: Reuters

Por trás das roupas do personagem estava o americano Ian Madrigal, de 29 anos. "Há muito poder em se fantasiar de um personagem conhecido, isso ajuda a espalhar minha mensagem de forma mais clara", diz.

Ao Estado, ele diz que dedica "sua vida ao ativismo". "Não me lembro de não ser ativista", afirmou Madrigal. Seu primeiro protesto foi aos 13 anos, depois de ficar sabendo que funcionários da Disney eram expostos a condições precárias de trabalho. Na ocasião, ele colocou tiras de papel com a frase "esta peça de roupa foi feita em uma fábrica que explora o trabalhador" em bolsos de todas as roupas de uma loja da Disney em sua região.

A audiência do Google, porém, não foi a primeira aparição do personagem - a estreia foi em outubro de 2017, quando um executivo da Equifax, uma empresa de crédito que vazou dados de milhões de usuários, teve de depor no Congresso americano. "Minha participação viralizou rapidamente", conta. Desde então, Madrigal usa a fantasia para protestos a cada três meses, mais ou menos.

A presença do personagem do Banco Imobiliário na audiência do Google, para Madrigal, era óbvia e essencial: "A empresa é um dos maiores monopólios que existem", crê o ativista Na mesma sala em que se discutia o funcionamento do maior buscador do mundo e seu compromisso com a transparência e proteção de dados, o personagem fazia caretas e chegou até a aparecer com um saco de dinheiro de mentira. Tudo em protesto contra a tentativa de ter lucro a qualquer custo e a ausência de regulamentação.

Madrigal disse que estava sentado ao lado de funcionários do Google e de apoiadores da empresa durante as três horas de audiência - ele praticamente estava no lado da torcida adversária. Entretanto, essa situação não o estressa. "As pessoas ao meu redor nunca sabem como reagir e é estranho porque na sala da audiência a maioria me ignora ou me olha com desaprovação, mas eu sempre acho divertido fazer esses protestos", afirma.

Mobilização

Ao mesmo tempo que o personagem do Banco Imobiliário causa constrangimento, ele tem apelo humorístico. "Protestos podem ser cheios de raiva e tristeza, mas o personagem do Banco Imobiliário mostra que a criatividade, a teatralidade e o humor podem ser efetivos também", diz Madrigal, "eu gosto de fazer as pessoas rirem, e isso é ainda melhor se eu puder fazê-las refletir ao mesmo tempo".

Com o protesto, Madrigal pretende pressionar também os governantes, além das empresas, exigindo leis claras que protejam os direitos do consumidor nessas novas tecnologias, principalmente quanto à privacidade de dados e à neutralidade da rede.

Ele acredita que mais do que ações individuais de ler com atenção termos de uso, os usuários precisam se mobilizar e pressionar as autoridades para se protegerem. "O Google e outras empresas de tecnologia fizeram várias coisas boas para o mundo, como ajudar a acessar informação e manter pessoas conectadas ao redor do mundo. Mas elas não podem se regular sozinhas", diz.

É por essas causas que Madrigal veste sua fantasia, mas ele disse que pode encaixá-la em outras ocasiões especiais. "Se alguém quiser patrocinar minha viagem, eu ficaria mais do que feliz em levar meu monóculo para dançar no Carnaval do Brasil".

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Estadão
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