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Com repressão contra dona da 99, governo chinês avisa que está no comando

As medidas de Pequim contra a Didi se destacam por sua velocidade e por terem vindo logo após a oferta pública inicial da empresa

22 jul 2021 05h10
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Em menos de uma semana, a Didi, principal plataforma de caronas da China e dona do aplicativo 99 no Brasil, passou de queridinha dos investidores com uma estreia bombástica em Wall Street para o maior alvo dos rápidos esforços de Pequim para domar a indústria da internet no país. As medidas enviam uma mensagem nítida às empresas chinesas: mesmo que elas operem globalmente e que suas ações sejam negociadas no exterior, o governo chinês segue no comando.

A última frente da blitz regulatória é em privacidade e cibersegurança. Nos últimos anos, os consumidores chineses estão cada vez mais preocupados com a privacidade e as autoridades têm tido particular interesse em proteger plataformas, como a Didi, que lidam com informações confidenciais, como localização.

Porém, as medidas de Pequim contra a Didi - interromper as inscrições de novos usuários e, em seguida, tirá-lo das lojas de aplicativos - se destacam por sua velocidade e por terem vindo logo após a oferta pública inicial da empresa, no mês passado. As ações também são um lembrete aos investidores internacionais das empresas chinesas sobre os obstáculos regulatórios que às vezes podem surgir em seu caminho.

Sem perder tempo, o órgão regulador da internet na China anunciou que os registros de usuários em mais três aplicativos chineses estavam sendo suspensos - a exemplo do que aconteceu com a Didi, para permitir que as autoridades conduzam análises de segurança cibernética. As duas empresas por trás desses aplicativos abriram capital recentemente nos Estados Unidos.

As preocupações com a proteção de dados têm crescido em ambos os lados do Pacífico, à medida que as relações entre a China e os Estados Unidos vêm se deteriorando nos últimos anos. Como as duas potências competem por vantagens econômicas, militares e tecnológicas, cada uma busca garantir que as informações digitais de suas empresas não caiam nas mãos da outra, mesmo quando os negócios acontecem além-fronteiras.

Pequim não deixou claro quais problemas específicos de segurança e privacidade - passados ou potenciais - levaram os reguladores a agir contra a Didi. Mas, de acordo com a lei chinesa, as análises de segurança cibernética são uma questão de segurança nacional, algo que as autoridades não deixaram de destacar ao anunciar sua análise da Didi.

As tensões com os Estados Unidos provavelmente motivaram as autoridades chinesas a prestar uma atenção extra na Didi e em seu IPO em Nova York, disse Angela Zhang, diretora do Centro de Direito Chinês da Universidade de Hong Kong. Neste momento de antagonismo, a venda de ações nos Estados Unidos inevitavelmente causou preocupação em Pequim sobre como as reservas de dados chineses do Didi estavam sendo protegidas, disse Zhang.

Outro fator, disse ela, é o aumento do nacionalismo entre os usuários de internet chineses. No último fim de semana, depois que os reguladores chineses suspenderam os registros de novos usuários, a Didi tentou dissipar os rumores de que passara a entregar dados aos Estados Unidos como consequência de sua listagem na bolsa americana.

"Isso exerce uma pressão sobre os reguladores para que ajam e também lhes dá legitimidade para agir", disse Zhang.

Gigante

Além da Didi, as duas empresas cujas plataformas agora estão sob análise de segurança cibernética são a Full Truck Alliance, cujos aplicativos conectam clientes de frete e motoristas de caminhão, e a Kanzhun, que opera uma plataforma de busca de empregos chamada Boss Zhipin.

O mercado de ações em alta nos Estados Unidos atraiu várias outras empresas chinesas, entre elas o aplicativo de compras Dingdong e o site de perguntas e respostas Zhihu, para abrirem capital no país ao longo dos últimos meses. Mas a Didi é de longe o mais proeminente.

Com 377 milhões de usuários ativos por ano na China e serviços em 16 outros países, incluindo o Brasil, a empresa foi celebrada na China como uma campeã de tecnologia local, especialmente depois que derrotou o Uber e comprou as operações chinesas de seu rival em 2016. Um representante da Didi não quis comentar sobre questões regulatórias.

A repressão da China aos titãs da internet no país começou a ganhar velocidade no ano passado, após o IPO frustrado da fintech Ant Group, afiliada da Alibaba (dona da AliExpress). Como a Didi, a Ant tinha avançado no mercado de ações, apesar de um histórico de preocupações regulatórias na China - a empresa estava se preparando para abrir capital em Xangai e Hong Kong, não em Nova York.

A Didi entrou com a papelada preliminar do IPO junto à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) em 10 de junho. O resto do processo foi concluído na velocidade da luz e, no final de junho, as ações do Didi começaram a ser negociadas na Bolsa de Valores de Nova York.

Mas, dois dias depois, o regulador da internet da China anunciou que a empresa não teria permissão para registrar novos usuários enquanto as autoridades conduzissem uma análise da segurança cibernética. As regras do governo para essas análises, que foram promulgadas no ano passado, fazem parte da estrutura da China para controlar os riscos de segurança associados aos produtos e serviços que as principais empresas de tecnologia usam.

No dia seguinte, um executivo da Didi escreveu na rede social chinesa Weibo que tinha visto rumores dizendo que, como a empresa havia aberto capital em Nova York, ela teria de entregar os dados dos usuários aos Estados Unidos. O executivo disse que a Didi armazenava todos os seus dados chineses em servidores na China e que a empresa se reservava o direito de processar quem dissesse o contrário.

A mensagem foi republicada na conta oficial da Didi no Weibo 16 minutos depois, com o comentário: "Esperamos que todos evitem espalhar e acreditar em rumores!".

Depois disso, o órgão regulador da internet divulgou outra declaração concisa, suspendendo o aplicativo do Didi das lojas de aplicativo na China por problemas não especificados relacionados à coleta de dados do usuário. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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