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Boeing no espaço: ruim com ela, pior sem ela

Starliner está atrasado e vai passar por redesign, mas segundo ex-diretor da NASA, programa comercial não teria saído do papel sem a Boeing

17 mai 2022 11h38
| atualizado às 16h53
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Não é segredo que a divisão aeroespacial da Boeing não anda acertando a mão. A cápsula Starliner, projetada para ser lançada com os foguetes Atlas V da ULA (United Launch Alliance), vêm apresentando problemas nas válvulas de combustível há algum tempo, e mesmo estando às vésperas do próximo teste de lançamento, a companhia deverá fazer novas modificações no projeto que já consumiu bastante grana, e está bem atrasado.

Os problemas da Starliner e do foguete SLS, embora este seja um projeto conjunto com mais companhias, poderiam prejudicar o status da Boeing junto ao Programa de Tripulações Comerciais da NASA, que tem hoje a SpaceX como estrela principal, mas segundo Charles Bolden, ex-diretor da agência espacial, sua ausência do projeto o teria inviabilizado por completo.

Cápsula Starliner montada no topo de um foguete Atlas V
Cápsula Starliner montada no topo de um foguete Atlas V
Foto: United Launch Alliance / Meio Bit

O Programa de Tripulações Comerciais foi criado em 2010, um ano antes do fim do programa dos ônibus espaciais. Ele é uma iniciativa que visa injetar dinheiro em companhias externas, de modo que estas respondam pelo desenvolvimento de plataformas de lançamento e cápsulas para acoplagem, uma maneira de a longo prazo não mais depender da Rússia para levar astronautas à Estação Espacial Internacional (ISS).

Quando a Roscosmos percebeu que os EUA não possuíam mais nenhuma plataforma de lançamento, tratou de inflacionar cada vez mais o preço por assentos nas cápsulas Soyuz, chegando a US$ 86 milhões por pessoa em 2019. Afinal não havia concorrência, daí ter sugerido que caso os americanos não gostassem, que lançassem astronautas ao espaço "usando um trampolim".

Os primeiros resultados do programa da NASA vieram com a SpaceX, no primeiro lançamento bem-sucedido da Crew Dragon, no que Elon Musk, CEO da SpaceX, devolveu a piada ao dizer que "o trampolim está funcionando". A Roscosmos, claro, não gostou nem um pouco disso.

E quanto à Boeing?

Originalmente, o Programa de Tripulações Comerciais da NASA alocou em 2014 US$ 6,8 bilhões para o desenvolvimento de plataformas e cápsulas, no que a SpaceX ficou com US$ 2,6 bilhões, e a Boeing abocanhou o restante, US$ 4,2 bilhões. A meta era voltar a lançar astronautas com a Crew Dragon e a Starliner já em 2017, mas como sempre, o projeto atrasou.

Ainda assim a SpaceX, que recebeu pouco mais que metade da grana destinada à Boeing, conseguiu desenvolver sua cápsula, lançá-la e mais importante, convencer a NASA a certificar a reutilização das mesmas, algo que a agência sempre foi contra, citando um monte de impedimentos e normas de segurança, que a companhia de Musk cobriu, sem deixar nenhuma de fora.

O  CST-100 Starliner da Boeing, enquanto isso, não conseguia sair das docas. O teste realizado em dezembro de 2019 deu errado de forma catastrófica, não conseguindo chegar à ISS, e da lá para cá, novos problemas continuavam a aparecer.

O mais recente envolve uma rusga feia com a Rocketdyne, empresa que fornece as válvulas de combustível da Starliner. Segundo fontes ouvidas pela agência Reuters, ambas companhias estão apontando os dedos uma para a outra, sobre a responsabilidade sobre problemas recorrentes nos componentes.

Durante uma tentativa de lançamento realizada em agosto de 2021, 13 das 24 válvulas falharam e não responderam a comandos, forçando o cancelamento da missão. A Boeing afirmou na época que água acumulada reagiu com o oxidante tetróxido de dinitrogênio, causando corrosão nas válvulas.

No início de maio de 2022, a Boeing declarou ter resolvido o problema, com o uso de materiais selantes para evitar a infiltração de água, e que não seria necessário alterar o design para isso, mas segundo pessoas próximas à questão, a companhia teria mudado de ideia, após se desentender com a Rocketdyne, que acusa a Boeing de má implementação das peças; esta, por sua vez, diz que as válvulas possuem falhas de design.

Vale lembrar que de 2014 para cá, a Boeing recebeu um aporte adicional de US$ 595 milhões ao orçamento original da cápsula, cujo valor total de desenvolvimento hoje está em US$ 4,8 bilhões; para não ficar feia na foto, a NASA liberou mais dinheiro também à SpaceX, no que o programa da Crew Dragon está atualmente com US$ 3,1 bilhões em verba disponível.

"Ninguém gosta de Elon Musk"

Dados os excelentes resultados da SpaceX junto ao Programa de Tripulações Comerciais, é de se pensar que a NASA deveria chutar a Boeing e ficar apenas com a companhia de Elon Musk, mas conforme já discutimos anteriormente, ninguém no Congresso dos EUA vai com a cara do executivo, basicamente visto como "um bilionário metido a besta", um intruso no programa espacial do país.

Esse sentimento dos políticos americanos, sendo completamente avessos a companhias comerciais desenvolvendo foguetes e cápsulas, se explica na modalidade dos contratos hoje firmados pela NASA. Na parceria público-privada, que a SpaceX, Blue Origin e outras trabalham, o projeto pertence às empresas e a agência espacial apenas define o que quer, onde tudo deve ser seguido à risca.

Seguindo esses parâmetros e obedecendo ao orçamento definido, Elon Musk, Jeff Bezos e cia podem construir as plataformas onde e como quiserem, o que vai ao encontro do modelo tradicional de contrato, no que o SLS é desenvolvido: o foguete pertence ao governo dos EUA e está sujeito às determinações do Congresso, que decidem como ele será construído e onde.

Basicamente, o modelo tradicional de contratos faz do SLS uma plataforma política. Congressistas e senadores tendem a privilegiar os estados onde foram eleitos na construção de componentes, de modo a estimular a geração de empregos, o que, claro, se converte em votos. No modelo da SpaceX, isso não é possível.

Cápsula Crew Dragon se acopla à Estação Espacial Internacional
Cápsula Crew Dragon se acopla à Estação Espacial Internacional
Foto: NASA / Meio Bit

Charles Bolden, ex-oficial dos Fuzileiros Navais e ex-astronauta, que serviu como diretor da NASA durante a administração de Barack Obama, entre 2009 e 2017, vai além ao dizer que a entrada da Boeing no Programa de Tripulações Comerciais foi o fator principal para que o projeto fosse aprovado no Congresso; caso a SpaceX fosse a única empresa concorrente, ou mesmo se outras companhias menores entrassem no páreo, ele não iria para a frente.

A declaração foi dada durante um seminário online da Aviation Week:

"Para ser bem sincero, ninguém no Capitólio gosta da SpaceX. Ela era uma variável desconhecida. Eu acredito que se a Boeing tivesse decidido não entrar no programa, nós (a NASA) provavelmente nunca conseguiríamos financiá-lo."

Bolden clarificou que tão logo a Boeing se inscreveu para participar do programa, o ânimo dos políticos começou a mudar, do completo desdém (afinal, só havia a SpaceX concorrendo no início) à aceitação, e o peso da gigante foi o suficiente para que o modelo de contrato com valores fixos, no que a Crew Dragon e a Starliner são desenvolvidos, acabasse aceito como uma alternativa ao tradicional, pois representaria um maior controle dos gastos públicos.

Hoje, por influência de uma maior presença dos Republicanos, o Congresso prefere priorizar o modelo tradicional de contrato, sujeito às atribuições legislativas, mesmo que isso signifique gastar mais; a Boeing se safa por fazer parte do consórcio responsável pelo SLS, e por ser uma empresa com décadas de experiência (no papel), frente à SpaceX, mesmo esta tendo apresentado resultados, enquanto a rival só patina.

Para Charles Bolden, adesão da Boeing foi crucial para que programa comercial da NASA garantisse financiamento
Para Charles Bolden, adesão da Boeing foi crucial para que programa comercial da NASA garantisse financiamento
Foto: Boeing / Meio Bit

No fim das contas, a Boeing tem mais consideração por ser uma empresa que se permite assinar contratos da maneira que o governo dos EUA quer, diferente de Musk, que faz o que der na telha, e sempre será tratado como o moleque que mal chegou e quer sentar na janela, não importa o quão bem-sucedida a SpaceX seja.

Fonte: Reuters, Ars Technica

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