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'Big Brother Brasília': Grupos no Telegram trocam o BBB por CPI da Covid

Canal dedicado ao programa da TV Globo agora acompanha CPI e se dedica a postar detalhes das audiências em tempo real; grupo tem quase 150 mil inscritos

19 mai 2021 20h02
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Órfão do entretenimento proporcionado pelo Big Brother Brasil 2021, o canal Espiadinha dispara conteúdos sobre a CPI da covid-19 no Senado para cerca de 150 mil usuários no Telegram
Órfão do entretenimento proporcionado pelo Big Brother Brasil 2021, o canal Espiadinha dispara conteúdos sobre a CPI da covid-19 no Senado para cerca de 150 mil usuários no Telegram
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado / Estadão

Com o fim do Big Brother Brasil, as redes sociais ficaram órfãs de um conteúdo que devolvesse a sensação de espiar e comentar o comportamento alheio — mesmo com os realities que entraram na programação da TV Globo e de serviços, como o Amazon Prime, na onda de sucesso da turma de Gil do Vigor e Juliette. Nenhum deles despertou tanto o interesse da internet brasileira nas últimas duas semanas como a CPI da Covid, conduzida pelo Senado Federal. No Telegram, que teve participação massiva na edição do BBB 21, a diversão atual dos grupos e canais não é observar uma casa com anônimos e famosos, mas sim seguir todas as tretas que se desenrolam no Senado.

Instaurada em abril, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid tem como objetivo esclarecer a conduta do governo federal em relação ao gerenciamento da pandemia no Brasil. Nos depoimentos, as sessões presididas pelo senador Omar Aziz (PSD) vão apurar se houve falha no processo de compras de vacinas, administração da crise e possíveis ilegalidades no decorrer do período por membros do governo.

Um dos maiores grupos dedicados a comentar o BBB 21 no Telegram, o Canal Espiadinha, entendeu a popularidade da comissão e virou a chave. A ideia é manter o nível de "entretenimento" dos quase 150 mil inscritos — esse já chegou perto dos 250 mil inscritos durante o BBB, mas o canal foi derrubado por direitos autorais e precisou recomeçar do zero.

Agora, o canal posta mensagens e notícias em tempo real sobre a CPI, com falas de senadores, depoimentos e comentários sobre a sessão e seus participantes — o tempo real conta com a audiência do público também assistindo, já que o "pay-per-view" da sessão é gratuito, no canal do YouTube do Senado.

Em maio, a CPI já ouviu o depoimento de Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação do governo federal, de Carlos Murillo, presidente da Pfizer no Brasil em 2020, e do ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araujo. Nesta quarta-feira, 19, é a vez de Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, prestar depoimento.

Interessado no assunto, Igor Spínola Mello, de 34 anos, foi uma das pessoas que sugeriram que o canal Espiadinha comentasse a CPI em tempo real: a ideia era que as pessoas pudessem falar sobre o assunto também por lá. Mello acredita que o formato dos comentários, com um tom mais descontraído e com referências de realities, ajudam no interesse dos integrantes do grupo.

"Eu vi o grupo um pouco morto e sugeri que seria bom para o canal fazer a cobertura da CPI. Eles poderiam ter um papel importante porque têm alcance com o tamanho do público que os acompanha. Mesmo que de forma diferente e com um peso menor, esse pessoal começa a pensar o quão é importante o peso do voto, e saber o que acontece no país", explica Mello. Não é que o Espiadinha tenha abandonado os conteúdos de BBB, mas até o BBB22 ainda tem chão. E os políticos e autoridades andam produzindo cenas de "jogo da discórdia".

CPI busca respostas e gera conteúdo

Se confirmado algum crime durante a CPI, o processo será encaminhado ao Ministério Público, para que o mesmo tome as medidas cabíveis a cada infração descoberta pela comissão. Mesmo sem poder de punição, as sessões se tornaram populares na internet por ressaltar o caráter conflituoso entre partidos e pessoas, e também por expor figuras políticas que causaram controvérsia na pandemia. As disputas chamaram a atenção de quem estava acostumado a acompanhar as "cachorradas" nos realities da TV.

"Eu acredito que a CPI tenha entrado nessa lacuna de entretenimento, mas eu enxergo como algo positivo, porque grande parte dos brasileiros enxergam a política como algo chato, difícil de entender. Então, se você traz para uma linguagem mais popular, isso gera reflexão nas pessoas, elas começam a se interessar. Acho importante que chegue repercutindo dessa forma", afirma Erica Mathias, criadora do canal Espiadinha.

Para a surpresa dos administradores do grupo, o assunto no chat — grupo separado apenas para os comentários dos inscritos — é o que mais gera engajamento no canal. Bruno Genuca de Moura, de 31 anos, moderador das conversas dos participantes, afirma que o interesse do público no Telegram aumentou muito desde o começo da CPI. Moura explica também que as pessoas que têm interagido sobre o assunto são as mesmas que assistiam o BBB. Agora, mostram uma visão mais politizada do mundo por conta do assunto.

"Nas últimas semanas, notei o crescente interesse do público do grupo sobre a CPI, aliado com a cobertura do canal. Então, passamos a comentar sobre as reuniões e os depoentes, em tempo real, no momento em que vai acontecendo. É o assunto que tem gerado mais engajamento. Nos dias de CPI, o número de comentários no chat aumenta bastante, mas também observo interesse nos dias em que não há reunião da CPI, membros perguntando quando será a próxima sessão", explica Moura.

Por lá, o BBB agora é "Big Brother Brasília", tem paredão e o famoso "o Brasil tá vendo" — na sessão desta terça-feira, 18, por exemplo, o depoente Ernesto Araújo, ex-chanceler, afirmou nunca ter insultado o governo chinês durante a pandemia. Os comentários feitos pelo político, porém, tiveram grande repercussão no Twitter e provam o contrário de sua afirmação.

"Eu não entendo nenhuma declaração que eu tenha feito como 'anti-chinesa', portanto não há nenhum impacto de algo que não existiu", afirmou Araújo, depois de ser questionado pela conduta controversa sobre a China. Em abril de 2020, o ex-ministro das Relações Exteriores afirmou que a pandemia era de "comunavírus", comentando um texto que critica o Partido Comunista Chinês e a OMS. Araújo disse que era preciso agir "contra o Coronavírus, mas também contra o comunavírus, que tenta aproveitar a oportunidade destrutiva aberta pelo primeiro, um parasita do parasita". O ex-chanceler também se envolveu em conflitos com o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming.

A troca de BBB por CPI é uma pista de como o Telegram pode se tornar palanque em 2022, ano de eleição presidencial. O mensageiro, que já observa manifestações políticas com grupos temáticos de ideias de várias ideologias políticas, ganha notoriedade também como um espaço para que não só pessoas vinculadas a partidos de uma forma mais direta possam discutir sobre o cenário atual — afinal, quantos dos seus contatos você percebeu que estão no Telegram agora?

Continuidade política

Se depender de Erica, dona do canal espiadinha, o conteúdo sobre a política brasileira não só vai aumentar, mas também vai tratar de outros acontecimentos além da CPI. Sempre com uma relação com os realities, o grupo visa conquistar novos integrantes e falar de política para o seu público da forma que ele quer ouvir: como se a CPI fosse, no momento, a casa mais vigiada do Brasil.

"Com certeza essa cobertura da CPI abre portas para pautar outros assuntos políticos. Nada me impede de buscar pessoas especialistas para comentar assuntos específicos. É uma das minhas metas agora. Eu vejo que tem uma grande relevância, principalmente se aproximando do período de eleição. Agora, política é um dos nossos focos".

O sucesso da abordagem também conta com o apoio de muitos participantes e moderadores do grupo que, assim como Moura, acessam o Telegram para interagir com outras pessoas, seja no âmbito político ou do entretenimento. A tendência é que continue assim.

"A forma como o Telegram se popularizou na era dos realities, trazendo muita gente pra essa 'rede', sem dúvidas vem dando projeção a CPI. Vejo membros dizendo que não conseguem acompanhar a CPI durante o dia, mas que à noite vão ler tudo o que foi postado no canal e no chat. Arrisco dizer que se a CPI fosse há um ano atrás, não haveria o engajamento que temos hoje", ressalta Moura.

Assim, enquanto o Espiadinha aguarda o BBB22, os membros do canal ficam de olho nas eliminações, sem direito a anjo, que ocorrem em Brasília.

*É estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani

Estadão
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